Vestir-se bem vai muito além de acompanhar tendências ou seguir códigos de estilo. Em um momento em que temas como autoestima, autocuidado e bem-estar emocional ganham cada vez mais espaço nas redes sociais e nas conversas sobre saúde mental, especialistas apontam que as roupas também podem influenciar a forma como uma pessoa se percebe e se posiciona diante do mundo. Mais do que uma escolha estética, o que se veste pode afetar sensações de confiança, conforto e até a maneira como alguém se comporta em determinadas situações.
Saiba: Como a escolha das cores na roupa se relaciona com comportamento e a imagem pessoal
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Segundo o personal stylist Diego Romero, a relação entre vestuário e comportamento é estudada pela chamada “enclothed cognition”, conceito que investiga como as peças escolhidas podem impactar processos mentais e a percepção de si mesmo.
“A roupa não muda quem você é. Mas muda como você se apresenta pro mundo e, principalmente, como você se sente por dentro. É o que a gente chama de enclothed cognition: o tecido que você veste altera sua performance cognitiva e sua postura”, explica.
Na prática, o especialista afirma que alguns fatores podem contribuir para uma sensação maior de segurança ao se vestir. Um deles é o caimento das peças, frequentemente mais determinante para o conforto do que a adesão às tendências do momento.
“Caimento é mais importante que tendência: uma peça que respeita seu corpo, retira o foco da insegurança. Cliente que vive se ajeitando na roupa não está presente na conversa. O caimento correto devolve atenção pro que importa: sua fala, seu olhar, sua presença”, diz.
As cores também costumam ser associadas a diferentes sensações. Tons vibrantes, por exemplo, são frequentemente relacionados à energia e à presença, enquanto nuances mais sóbrias costumam transmitir serenidade. Para Romero, no entanto, o mais importante é que a escolha esteja alinhada ao contexto e ao bem-estar de quem veste.
“Não existe cor proibida. Existe cor estratégica. Se você tem uma reunião difícil, testa um blazer estruturado em tom fechado. O espelho te dá o primeiro feedback de postura”, orienta.
Outro aspecto destacado pelos especialistas é a experiência sensorial proporcionada pelos tecidos. Texturas, peso e toque podem interferir na forma como cada pessoa se relaciona com o próprio corpo e com sua imagem.
“Muitas mulheres redescobrem a sensualidade com elas mesmas quando trocam o pijama largo por uma camisola de tecido nobre. Não é pro outro. É pra se reconhecer” afirma.
Nesse contexto, a lingerie também aparece como um elemento frequentemente associado à autoestima e à construção da imagem pessoal. Ainda que não fique visível, a peça pode influenciar a forma como a pessoa se sente ao longo do dia. “Não importa se ninguém vai ver. Você sabe o que está vestindo. Uma lingerie que te valoriza muda sua coluna na hora. Você anda diferente, senta diferente, fala diferente”, comenta Romero.
A sexóloga Camila Gentili concorda que as roupas podem influenciar comportamentos e lembra que essa relação já foi analisada em pesquisas acadêmicas. Segundo ela, estudos sugerem que os significados atribuídos às peças podem interferir na atenção, na postura e até na maneira como as pessoas executam determinadas tarefas.
“Mesmo que os homens digam que não ligam para a lingerie, ela faz diferença na hora ‘H’ tanto para ele quanto para ela. E muito. Na verdade, ela faz diferença não só na cama como também fora dela. Isso se complementa com uma pesquisa realizada em 2012 por Adam Galinsky (Columbia Business School) e Hajo Adam (University of Bath) que provou, em bom português, que o que você veste não decora o corpo, programa o cérebro. O cérebro lê o significado da peça e ajusta atenção, postura e desempenho”, pontua.
Para a especialista, a própria indústria da moda íntima passou por transformações nos últimos anos, acompanhando discussões sobre diversidade corporal, conforto e representatividade.
“As empresas perceberam a importância da mulher se sentir bem usando a roupa íntima. Em partes isso ocorreu. Hoje a indústria se conscientizou que o corpo da mulher se apresenta em várias formas e vejo que parte das empresas começaram a se adequar a isso”, observa.
Quando o assunto é sexualidade, Camila defende que a lingerie pode funcionar como uma forma de expressão pessoal, mas ressalta que seu significado varia de acordo com a relação que cada mulher estabelece com o próprio corpo.
“Tudo depende da forma como a pessoa encara a sexualidade. Sexualidade não é só que acontece na cama. Têm a ver com identidade e como a mulher se relaciona com o próprio corpo, com seu desejo e prazer. Você pode muito bem vestir uma lingerie poderosa apenas para que se sinta assim, e tudo bem.”
Ela cita ainda estudos que relacionam uma autoimagem sexual positiva a níveis mais elevados de satisfação e bem-estar sexual.
“A roupa tanto a íntima quanto o look em si podem influenciar na relação, porém devemos considerar que a ciência já revelou que existem mecanismos diferentes dessa conclusão. A roupa que a mulher coloca muda como ela pensa, sente e se comporta e isso tem a ver com mecanismo cerebral. A autoimagem de ‘ser sexual’ desencadeia resposta corporal real, resultando em lubrificação e excitação subjetiva, e isso tem a ver com o mecanismo fisiológico. Já a lingerie funciona como estímulo novo, que reativa o circuito de excitação no parceiro e, em parte, na própria mulher, quando ela se olha no espelho”, detalha.
A relação entre vestuário e bem-estar também é observada pela psicanalista Cintia Castro. Segundo ela, a forma de se vestir pode funcionar como uma manifestação de identidade e refletir estados emocionais, desejos e formas de interação social.
“A roupa também é linguagem emocional, identidade e percepção de si. Tanto homens quanto mulheres utilizam a forma de se vestir como uma extensão silenciosa do que sentem, do que desejam transmitir e até do que tentam esconder emocionalmente. A maneira como alguém se veste pode influenciar diretamente postura, comportamento, autoconfiança e sensação de pertencimento social”, aponta.
Para a especialista, é importante observar que a aparência, por si só, não revela necessariamente o estado emocional de uma pessoa. Embora a imagem tenha impacto nas primeiras impressões, ela não substitui a complexidade das experiências individuais.
“A primeira impressão tem, sim, um impacto muito forte porque o ser humano faz leituras emocionais e comportamentais em poucos segundos. Antes mesmo da fala, já observamos postura, expressão, tom de voz, aparência e a forma como aquela pessoa ocupa o espaço. A forma de se vestir comunica muito mais do que gosto pessoal, muitas vezes, sem perceber, a pessoa usa a imagem para comunicar aquilo que emocionalmente sente falta ou deseja sustentar internamente. Porém, existe um ponto importante: estar bem vestido não significa necessariamente estar bem consigo mesmo. Existem pessoas extremamente bem apresentadas externamente e emocionalmente exaustas, inseguras ou desconectadas de si. Da mesma forma, existem pessoas simples na estética, mas profundamente seguras emocionalmente. Como tudo na vida é preciso analisar, dosar e equilibrar”, finaliza.

