A Terra tremeu ontem como poucas vezes já foi registrado na História moderna. Uma das partes mais remotas do planeta, a Península de Kamchatka, no extremo leste russo, sofreu um sismo de magnitude de 8,8 na escala Richter, às 11h24m de quarta-feira, no horário local, seguido por centenas de outros terremotos, alguns deles acima de 8, e gerou tsunamis que se propagaram pelo Oceano Pacífico atingindo, além da Rússia, Japão, Havaí e Alasca. Porém, a destruição não foi a imaginada por características específicas deste sismo.
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O tremor assustou pela violência e a energia liberada. E será um longo pesadelo, pois cientistas do Serviço Geológico Britânico estimam que a sequência de tremores secundários (aftershocks) deve se prolongar por cerca de um mês. Alguns deles chegam a mais de 8 na escala que alcança 10 (nenhum terremoto até hoje chegou a essa magnitude).
Estimada em 240 megatons, a energia liberada pelo sismo principal equivale à de 15.873 bombas atômicas como a de Hiroshima. Ou ainda 11.364 bombas de Nagasaki. Se fosse concentrada em bombas atômicas detonadas simultaneamente, tamanha energia teria capacidade para arrasar de uma só vez uma área do tamanho de Minas Gerais ou da França, superior a 500 mil quilômetros quadrados.
Se estima que uma bomba como a de Hiroshima pode destruir uma área de cerca de 32 km². Dessa forma, 15.873 bombas cobririam 507.936 km². Essa área é pouco menor que a da França (543.940 km²) e Minas Gerais (586.528 km²), mas superior à da Espanha (505.990 km²).
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Um terremoto de 8,8 causa impacto a centenas de quilômetros de distância do epicentro. O terremoto de 8,8 no Chile, em 2010, afetou 80% da população chilena em algum grau, com tsunamis chegando ao Japão e à Nova Zelândia. Foram milhões de km2 de área impactada.
Este foi o sexto maior sismo já registrado e o mais potente desde 2011. O maior foi o de Valdívia, no Chile, em 1960, que alcançou 9,5. Mas o mais letal foi o de Sumatra, na Indonésia, em 2004, que com 9,1, matou 283 mil pessoas, na maioria vítimas do tsunami que se seguiu ao sismo.

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Os danos foram menores desta vez, sobretudo, porque a região é esparsamente povoada e a características geológicas. Kamtchaka fica no chamado Anel de Fogo do Pacífico, a região mais afetada por tremores do mundo — 80% deles acontecem lá, segundo o Serviço Geológico Britânico. Todavia, a maior parte de seu território é coberto por florestas, vulcões e platôs desertos.
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Além do fator do baixo grau de vulnerabilidade humano, a destruição causada por um terremoto não é proporcional à energia total liberada porque parte desta é dissipada de formas que não causam danos diretos à superfície. No caso do terremoto na Rússia (ou qualquer outro grande terremoto), a energia se distribuiu de várias maneiras.
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A principal delas é o deslocamento de placas tectônicas. Estas são colossais blocos da crosta terrestre que se movem lentamente, como legos flutuantes. Quando elas se empurram ou colidem, causam terremotos, fazem vulcões entrarem em erupção e erguem montanhas. Terremotos são as mais poderosas forças da natureza.
A maior parte da energia liberada em um terremoto é empregada para vencer o atrito entre as placas tectônicas e produzir o movimento ao longo da falha geológica. Em alguns casos, como em Sumatra, em 2004, o fundo do mar se deslocou 100 metros e gerou o maior tsunami dos tempos modernos.
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Além disso, quanto mais profundo o epicentro, mais a energia é absorvida pelas rochas antes de chegar à superfície, o que diminui o impacto. O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) estimou a profundidade em 74 quilômetros, num nível médio, mas suficiente para reduzir a potência.
Inicialmente, a profundidade havia sido calculada em 20 quilômetros, o que tornaria o tremor muito mais destrutivo. Os tsunamis seriam maiores e atingiriam pontos mais distantes do epicentro. Alertas de risco muito maior chegaram a ser emitidos para praticamente toda a região do Pacífico.
Num terremoto raso, como o de Haiti, em 2010, a 13 km de profundidade, a destruição foi muito pior, mesmo sendo a magnitude menor (7,0). Além disso, o Haiti tem a população adensada e habitações precárias.
Ondas sísmicas também consomem parte da energia do terremoto. São elas que sacodem o solo e destroem construções. As chamadas ondas de baixa frequência viajam longas distâncias. Mas, felizmente, as de alta frequência, causadoras dos maiores danos, perdem força rapidamente.
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O tipo de falha geológica também influencia a intensidade do terremoto e seu grau de periculosidade. No caso de Kamtchaka, a placa do Pacífico se move para o noroeste a cerca de 8 cm/ano (velocidade rápida para placas tectônicas). Ela colide com a microplaca de Okhotsk e, por ser mais densa, afunda sob ela. Esse processo gera atrito que pode acumular energia por séculos e ser liberado de repente em minutos.
O resultado é um terremoto do tipo megathrust (como os maiores já registrados no Chile, Alasca e Sumatra). O megathrust (megassismo, em português) é o tipo mais poderoso de terremoto. Ele acontece justamente nas zonas de subducção, onde uma placa tectônica oceânica (mais densa) é forçada a mergulhar sob outra placa (continental ou menos densa).
O geólogo britânico Steph Hicks explicou à BBC que nesses casos a ruptura não é num ponto, mas ao longo de centenas de quilômetros, gerando terremotos gigantes.
Os megathrust são os mais devastadores não só porque parecem “explosões em minutos” de séculos de acúmulo de energia. Mas também porque as rupturas do epicentro são colossais, se estendendo por centenas de quilômetros. Essas falhas geram movimento vertical do fundo do mar e criam ondas destruidoras.
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Além do sismo de Valdívia, foram megathrust o tremor de Sumatra, em 2004 (9.1), com o tsunami no Oceano Índico. E o do Japão, em 2011 (9.0), que produziu o tsunami de Fukushima.
Embora tenha sido um megathrust, o sismo de ontem teve seu poder destrutivo atenuado pela profundidade. Mas ele foi suficiente para distender o fundo do mar e deslocar uma colossal massa d’água. Na superfície do mar, esta gerou um tsunami com ondas de até três metros de altura —as do Índico, em 2004, passaram de 15 metros.
Ondas de tsunami não “quebram”, como as de uma ressaca. Elas avançam sobre o continente como uma parede contínua de água que engole tudo o que encontra pelo caminho e podem alcançar quilômetros terra adentro. E são perigosas mesmo quando não passam de um metro de altura. Porém, como a área mais afetada não muito povoada, não estimam grandes prejuízos, até o momento.