O cientista político Miguel Lago, que há tempos estuda e se envolve em iniciativas de participação cidadã, avalia que o grau de descentralização da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno representou algo inédito e que o petista precisa incorporar ao governo. Isso não se limita a manter uma presença assídua nas redes sociais, diz o professor visitante da universidade de Princeton, nos Estados Unidos, e diretor-executivo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps).
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Autor de obras recentes sobre populismo e crise democrática, Lago está prestes a publicar um livro sobre “pobreza temporal”, pauta abordada pela esquerda no contexto do fim da escala de trabalho 6×1. Diante do que considera uma “fratura” política do país e de cenários adversos no Legislativo, ele considera difícil o novo governo ver a aprovação superar em muito a desaprovação.
Leia a seguir a entrevista:
Passados alguns dias, o que diria que foi decisivo para a vitória de Lula?
Temos que olhar para a eleição de 2026 como duas eleições diferentes. O primeiro turno é sobre a desaprovação ao governo Lula, e o grande vencedor é Jair Bolsonaro, que fez barba, cabelo e bigode no Senado, na Câmara, em governos estaduais e assembleias. O PL saiu fortalecido como nenhum outro na Nova República saiu das urnas, talvez nem mesmo o antigo PMDB. A campanha oficial do PT e do governo Lula é a do primeiro turno, e teve votação abaixo do esperado. No segundo turno, com 10 milhões de votos novos, é uma campanha que não é do partido ou sobre o governo; é com viés pela democracia e contra Bolsonaro.
Foi totalmente atípico na Nova República?
A mobilização foi descentralizada, aconteceu por todos os cantos do país, e é isso que foi impressionante. Cidadãos que não são da política convenceram idosos a votar, por exemplo, ou conversaram com pessoas em dúvida para lembrar o que foi o governo Bolsonaro. Nesse sentido, foi uma campanha como nunca vimos no Brasil. Esse aspecto descentralizado é inédito. O presidente reconheceu isso no discurso, mas seria mais importante ainda colocar esse reconhecimento em prática daqui em diante e incorporá-lo ao governo.
Como colocar em prática?
Existem duas maneiras de incorporar a interpretação da vitória. Uma delas me preocupa e é a tendência dos políticos, e a outra seria mais interessante. A primeira é dizer que precisa estar em contato com o povo e, portanto, entender que precisa estar o tempo todo nas redes sociais. Não é isso que fará o governo ser conectado com a população. Seria ruim ver simplesmente uma manutenção da relação entre representados e representante de forma ainda muito hierárquica, mas turbinada pelas redes. O interessante seria, aí sim, uma descentralização maior do poder, envolver mais a população. Seria justo e legítimo, porque a vitória não é só deste governo ou do PT, mas da sociedade.
O cientista político Miguel Lago: ele argumenta que aspecto ‘descentralizado’ da campanha à reeleição de Lula deveria ser incorporado ao novo mandato
Leo Pinheiro/Valor
Mas como fazer isso?
Existem muitos dispositivos, e o Brasil está atrasado. O próprio PT foi inovador nesse sentido nos anos 80 e 90 em prefeituras, mas depois esqueceu algumas das experiências, e outras ficaram anacrônicas. O partido deveria relembrar essa capacidade inovadora, pensar em uma maior participação cidadã. Lula vai ter um governo de minoria. Vai ter um parlamento muito mais à direita, um STF fragilizado por escândalos e ameaçado o tempo todo, lutando pela própria sobrevivência. Nesse desequilíbrio de forças, precisará envolver mais a população.
Governos têm tido lua de mel curta no mundo todo, e Lula vai para um quarto mandato depois de um terceiro de avaliação ruim. É possível pensar num governo com boa popularidade?
Dada a situação da nossa fratura política, é muito difícil que a aprovação supere em muito a desaprovação. Deve ser sempre muito apertado. Se ele fizer um governo espetacular, talvez mude um pouco, mas não muito. Aquilo de ter mais de 80% de aprovação acabou atualmente, e não só no Brasil. Além disso, é um governo que estará pressionado do ponto de vista fiscal, político e internacional. A tendência não é que seja melhor do que no passado recente, dadas as condições deterioradas.
Com pouco espaço de manobra, precisa pensar em reformas institucionais e incluir mais as pessoas. A pessoa pode não gostar do Lula, mas, se puder participar de alguma forma sobre temas relevantes, talvez o rejeite um pouco menos.
Do ponto de vista de programa, o que acha que Lula priorizará no “último baile” como presidente?
A questão do fim da 6×1 é o início de algo interessante. O mais importante é a maneira como foi enquadrada a mensagem, a ideia de “vida além do trabalho”. Vou publicar em breve um livro sobre pobreza temporal, uma agenda que deve ser discutida para repensar as novas configurações trabalhistas.
Há um segundo elemento, mas confesso que é mais desejo meu do que realidade, que é pensar a pauta climática como organizadora do Estado brasileiro. A missão é tão grande que exige um papel parecido com o das guerras, que fazem um Estado reorganizar tudo. Mas isso infelizmente tem uma negação geral, não só da extrema direita; a própria esquerda lida como se fosse só um tema a mais. Acho ainda que haverá a clássica agenda de redução de desigualdades, além da busca por um papel internacional mais forte do Lula, que talvez se dê pelo enfrentamento às big techs.
Pensando em ministério, o que esperar?
Meu desejo seria que Lula abrisse mais a pessoas que não são necessariamente da política. Há uma dificuldade da classe política de entender que tem que se abrir mais, depois de muito tempo encastelada.
Entrevista: 'Aspecto descentralizado' da virada de Lula 'é inédito', diz cientista político Miguel Lago
