A deputada federal reeleita Erika Hilton (PSOL-SP) admitiu erros na estratégia do PSOL nestas eleições. A federação formada pelo partido com a Rede não atingiu a cláusula de barreira e não terá acesso ao Fundo Partidário nem a tempo de propaganda partidária gratuita no rádio e na televisão nas próximas eleições. Terceira parlamentar mais votada do Brasil, Hilton também avaliou como “incoerente” o sucesso de candidatas conservadoras neste ano no estado de São Paulo: “São mulheres que são contra o feminismo”, frisou.
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Estratégia do PSOL e distribuição de recursos
Na avaliação da deputada, o partido errou ao concentrar recursos em candidaturas que tinham pouco potencial eleitoral e deixou de investir em estados onde, segundo ela, uma maior destinação de recursos poderia ter ajudado o PSOL a superar a cláusula de barreira.
— Eu acho que há, sim, um erro. Houve uma concentração em candidaturas com pouco potencial, inclusive, de serem eleitas — afirmou em entrevista à GloboNews.
Para HIlton, houve uma dificuldade da direção partidária em identificar onde seria mais estratégico investir os recursos para garantir que o PSOL alcançasse o desempenho necessário. Ela citou ainda um episódio recente em que se manifestou publicamente por conta, segundo ela, do descumprimento de decisões e acordos partidários.
— A minha situação naquele momento era uma tentativa de buscar o cumprimento dos acordos, porque eu acredito que política é feita com acordos. Os acordos devem ser cumpridos — disse.
A deputada afirmou também que seu desconforto não se restringia ao episódio envolvendo seu próprio mandato. Segundo ela, a direção partidária teria destinado volumes elevados de recursos a candidaturas com pouco potencial eleitoral, enquanto outros estados poderiam ter recebido mais recursos.
— Eu acho que, naquele momento, a situação representava não só a minha dificuldade em fazer cumprir o acordo, como a minha indignação e até o meu desconforto diante de reclamações por parte da direção partidária em colocar volumes de recursos muito altos em candidaturas com pouco potencial e não olhar para outros estados que precisavam que esse recurso chegasse — afirmou.
‘Mulheres que são contra o feminismo’
Erika também foi questionada sobre o desempenho eleitoral de mulheres conservadoras em São Paulo. A deputada classificou o resultado como “bastante incoerente” e afirmou que algumas dessas parlamentares são contrárias a direitos e conquistas historicamente associados às mulheres:
— São mulheres que são contra os direitos das mulheres e as conquistas árduas das mulheres. São mulheres que são contra o feminismo, que são contra o voto das mulheres, mas que acabam assumindo cadeiras que foram frutos dessas conquistas.
Para a deputada, a presença feminina na política é fundamental, mas não deve ser analisada apenas pela quantidade de mulheres eleitas. Ela defendeu que as parlamentares tenham compromisso com pautas relacionadas aos direitos das mulheres e criticou a possibilidade de presidentes de partidos influenciarem diretamente a atuação de deputadas.
— As mulheres são fundamentais. A política precisa ser dominada pela presença feminina. Agora, não basta ser mulher nessa cadeira. É preciso ser mulher que tenha projeto para as mulheres, que tenha compromisso com a vida das mulheres, que não permita que os presidentes dos seus partidos dominem as suas agendas políticas e mandem nos seus mandatos — disse.
Deputada rejeita rótulo de ‘identitária’
Ao falar sobre sua atuação na Câmara, Hilton também rejeitou a ideia de que sua agenda parlamentar esteja restrita a pautas identitárias. Ela citou propostas e temas como o fim da escala 6×1, mulheres na ciência, meio ambiente, segurança pública, pesquisas, saúde e educação.
— Se ser identitária é discutir o fim da escala 6×1, as mulheres na ciência, o futuro do meio ambiente, é debater segurança pública, é fortalecer pesquisas, se isso é ser identitária, eu sou identitária, porque eu discuto projetos de país — afirmou. — A tentativa de me colocar em uma pauta identitária é tentar reduzir as minhas capacidades. É dizer que ela não pode falar de determinados assuntos porque não suportam ver uma mulher com a minha história, com a minha trajetória de vida, falando além do óbvio em pautas de interesse social.
Estratégia da campanha de Lula
A deputada também avaliou a estratégia da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e apontou, entre os problemas que levaram à derrota no primeiro turno para Flávio Bolsonaro (PL), uma dificuldade de comunicação com eleitores que não acompanham diariamente a política. Para Hilton, a campanha precisava ter discutido os temas com mais clareza e criado uma comunicação capaz de traduzir para o eleitor acontecimentos políticos como a crise no Supremo Tribunal Federal (STF).
— A crise no STF, por exemplo, recaiu muito sobre o presidente Lula, e faltou uma condição de comunicação em rede que conseguisse traduzir ao eleitor o que estava acontecendo — disse.
Ela citou ainda o caso Master e afirmou que os acontecimentos não foram suficientes para frear a candidatura de Flávio Bolsonaro, segundo sua avaliação. Para o segundo turno, defendeu uma atuação mais forte nas redes sociais e nas ruas:
— É preciso que a gente entre com bastante força nas redes e nas ruas, traduzindo e percebendo também qual é o sentimento do eleitor.
*Estagiário sob supervisão de Luã Marinatto
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Erika Hilton critica aposta do PSOL em 'candidaturas com pouco potencial' após partido não atingir cláusula de barreira
