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outubro 2, 2026
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Escola de papel: negociação para obra com suspeita de desvio de verbas públicas foi feita dentro de igreja na Baixada

Por · outubro 2, 2026
Escola de papel: negociação para obra com suspeita de desvio de verbas públicas foi feita dentro de igreja na Baixada


Foi no fim de 2024. Marcos José Mendes Ferreira estava em uma igreja em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, quando um homem que não conhecia se apresentou e perguntou se ele gostaria de participar de licitações públicas. A resposta foi sim. Após pouco mais de um mês, o dono da MCK Reformas e Construções venceu uma concorrência para realizar obras no Colégio Estadual Baltazar Bernardino, em Niterói, na Região Metropolitana do Rio. Ele não tinha feito orçamento nem proposta, e, até então, sequer havia visitado a escola. O empresário fez esse relato no depoimento que prestou à Polícia Civil no último dia 16 de janeiro, horas depois de ser abordado com R$ 500 mil em uma sacola, saindo de uma agência bancária em Caxias. O flagrante foi um dos passos que levaram à Operação Escola de Papel, deflagrada na manhã desta quinta-feira pelo Ministério Público do Rio (MPRJ) e pela Polícia Civil, contra uma organização suspeita de desviar dinheiro destinado a reformas de unidades da rede estadual de Educação.
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Quem é Roberta Oliveira, ex-secretária de Educação aliada de Bacellar que é alvo de operação do MP e da Polícia Civil
Cúpula sob investigação
Entre os investigados estão integrantes da cúpula da Secretaria estadual de Educação (Seeduc) no governo Cláudio Castro, a começar pela ex-secretária da pasta Roberta Barreto de Oliveira. Foram expedidos 19 mandados de busca e apreensão, e o MP pediu o bloqueio de cerca de R$ 19 milhões em bens dos envolvidos. Equipes estiveram na casa da ex-secretária, em Duque de Caxias, encontraram o imóvel vazio e o arrombaram. Buscas também foram feitas na capital fluminense, em Cabo Frio, em Arraial do Cabo e em Niterói.
O núcleo político do esquema, segundo o Ministério Público, era comandado pela ex-secretária. Outro alvo da operação foi Yurie Lopes Fonseca Ormonde André, capitão do Corpo de Bombeiros e genro de Roberta Oliveira. Segundo o que foi apurado, ele tem patrimônio estimado em R$ 32,22 milhões e empresas proprietárias de 60 veículos. Na casa de Yurie, na Barra da Tijuca, foram apreendidos cinco carros, entre eles um Porsche, joias, relógios e bolsas de luxo.
Foram encontrados na casa do genro da ex-secretária de educação um Porsche, bolsas de luxo, joias e relógios
Reprodução
Também são investigados David Andrade, também bombeiro e ex-subsecretário de gestão administrativa na Seeduc, e Fabio Martins Pereira — o “estranho” que abordou o empresário na igreja há dois anos, apontado como braço financeiro do esquema e proprietário da Virtual Construtora. Yan Lopes Fonseca Ormonde André, irmão de Yurie, também é alvo da operação.
Cifra bilionária: Dez empresas concentram um terço das contratações sem licitação na reforma de escolas pelo Governo do Estado
Desde quarta-feira, O GLOBO vem mostrando as suspeitas de desvio de verbas da Seeduc em contratos sem licitação para reformas de escolas do estado. O Gabinete de Segurança Institucional (GSI) do governo do Estado, que faz as auditorias, estima que as contratações irregulares tenham chegado a R$ 1,6 bilhão entre 2023 e 2025.
A Operação Escola de Papel é coordenada pelos promotores com Atribuição Originária Criminal do procurador-geral de Justiça, Antônio José Campos Moreira, e pela Coordenadoria de Investigação de Agentes com Foro (Ciaf), da Polícia Civil. Em seu depoimento, o dono da MCK Reformas e Construções afirma que recebeu cerca de R$ 6 milhões pela realização de cerca de 15 obras, mas admitiu que só R$ 2 milhões teriam sido gastos nos serviços. Os outros R$ 4 milhões teriam ficado com o intermediário que organizava as contratações e controlava a conta bancária da empresa. Documentos oficiais obtidos pelo GLOBO mostram, no entanto, que a empresa fez 33 reformas, que somam R$ 22,5 milhões.
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O MPRJ pediu à Justiça autorização para fazer as buscas nos endereços da ex-secretária Roberta Barreto e quebrar o sigilo de suas contas no Google, na Apple e na Meta. Ela entrou no serviço público em março de 1998, aprovada em concurso para professora da rede municipal. No governo do estado, foi superintendente na Secretaria de Governo (Segov) em 2021 e 2022. Segundo o inquérito, nesse período tinha influência sobre o programa RJ para Todos, quando era superintendente da Marcha pela Cidadania e Ordem. Sua nomeação é atribuída ao ex-presidente da Alerj e deputado cassado Rodrigo Bacellar.
Conexões políticas
A influência política durante a gestão de Roberta Barreto chamou a atenção do GSI. Investigações apontam que as diretorias regionais — há 14 no estado, responsáveis por organizar a administração e o conteúdo pedagógico das escolas —, entre 2023 e o início deste ano, estariam sendo alvo de políticos, interessados nos consideráveis repasses previstos pela Constituição Federal. Um dos diretores ouvidos na apuração chegou a relatar ter recebido um pendrive com os nomes das empresas que teria que indicar.
Em dezembro de 2025, Bacellar foi preso pela Polícia Federal durante a Operação Unha e Carne, suspeito de ter vazado informações sigilosas sobre outra operação policial que levou à prisão do então deputado estadual TH Joias, associado ao Comando Vermelho. Na quarta fase da operação, em maio, também foi preso o deputado Thiago Rangel (Avante), acusado de usar sua influência para direcionar e desviar verbas de obras em escolas do Noroeste Fluminense, sua base eleitoral. Nos últimos dois anos, ele destinou R$ 1,8 milhão em emendas para reformas de escolas da região.
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A educação estadual no Rio exibe índices preocupantes, em comparação com outras unidades da federação. No Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), que mede o aprendizado em Português e Matemática, o estado ficou em último lugar, empatado com a Bahia. No Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), que também considera a taxa de aprovação, o Rio ficou em penúltimo.
AO GLOBO, o procurador-geral de Justiça, Antonio José Campos Moreira, afirmou haver ainda outros procedimentos investigatórios do Ministério Público, para apurar esquemas criminosos semelhantes, também praticados no âmbito da Secretaria de Estado de Educação.
— Se não houver controle, ele pode ser reproduzido e continuar a ser utilizado para drenar recursos públicos, causando um enorme prejuízo, aqui especificamente, aos usuários do serviço de educação, basicamente crianças e adolescentes. É preciso muito cuidado e uma atuação preventiva por parte dos órgãos de controle e do próprio governo para evitar que esse esquema claramente fraudulento seja reproduzido neste ou em outros ambientes — afirma o procurador-geral.

Escola de papel: negociação para obra com suspeita de desvio de verbas públicas foi feita dentro de igreja na Baixada