A escolha do aiatolá Mojtaba Khamenei, filho linha-dura do assassinado aiatolá Ali Khamenei, como novo líder supremo do Irã, envia uma sinalização de que Teerã não recuará em uma guerra que já se espalhou por todo o Oriente Médio e ganha escala global com a turbulência provocada nos mercados de energia.
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Mojtaba — cujo pai governou o Irã por quase 37 anos até ser morto no ataque inicial de EUA e Israel ao país, em 28 de fevereiro — obteve uma “votação decisiva” na Assembleia dos Especialistas para virar o novo líder supremo, informou a mídia iraniana na noite de domingo. O clérigo xiita de 56 anos mantém laços profundos com o Corpo da Guarda Revolucionária do Irã, braço militar mais ideológico e fiel ao regime teocrático, que já prometeu total obediência ao seu novo comandante.
— [Mojtaba] compartilha muitas das mesmas inclinações ideológicas de seu pai e terá como objetivo manter a continuidade, inclusive da guerra — afirmou a analista de geoeconomia da Bloomberg, Dina Esfandiary. — [A eleição de Mojtaba] sugere que o Irã não mudará de tática na guerra do Oriente Médio.
A escolha foi rapidamente criticada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, que está sob pressão em seu país à medida que o conflito eleva o preço do petróleo ao nível mais alto em quatro anos. Em uma fala à rede americana Fox News, o republicano afirmou que “não está feliz” com a escolha de Mojtaba — na semana passada, ele já havia classificado o filho de Khamenei como uma opção “inaceitável”.
Trump não escondeu ao longo da escalada militar que via como desejável um desfecho no formato do obtido na Venezuela após a captura de Nicolás Maduro, em que uma ala chavista considerada menos hostil a Washington, mas parte do poder dominante, aceitasse liderar uma transição ditada pelos EUA. O presidente disse, por exemplo, que Reza Pahlevi, filho do último xá do Irã, parecia “uma pessoa muito simpática”, mas que o fato de não estar no país há anos enfraqueceria qualquer chance de assumir o governo de forma imediata. Em contrapartida, o próprio Trump disse na semana passada que as baixas causadas pelos bombardeios americanos e iranianos foram tão pesadas para o regime, que provavelmente não haviam mais “nomes moderados” a quem propor um acordo.
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Horas antes da confirmação pela Assembleia dos Especialistas, o presidente sugeriu que uma nova liderança teria que obter uma “autorização” de Washington se quisesse durar.
— Ele [novo líder] vai precisar da nossa aprovação. Se não tiver nossa aprovação, não vai durar muito. Queremos garantir que não tenhamos que voltar atrás a cada 10 anos, quando não houver um presidente como eu que fará isso — afirmou Trump à rede ABC News, antes de saber o nome exato do novo líder supremo.
A indicação de Mojtaba, no contexto descrito, demonstra porém uma aposta de Teerã de contrariar os interesses americanos e uma tentativa de continuidade, segundo a diretora do programa para o Oriente Médio e Norte da África da Chatham House, Sanam Vakil.
— [A escolha de Mojtaba] sugere a continuidade da mesma estratégia de sempre: repressão interna e resistência internacional — disse a diretora em entrevista ao Wall Street Journal.
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Em declarações no sábado, o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, já havia dito que as exigências de uma rendição incondicional do regime era uma “ilusão” que a liderança americana teria que levar para a tumba.
No plano externo, a indicação veio seguida de novos bombardeios contra Israel e variadas posições na região do Golfo. Ao menos um civil ficou morto em Israel, aparentemente atingido por estilhaços de um projétil interceptado na zona central do Estado judeu. Instalações do setor do petróleo na Arábia Saudita e no Bahrein também ficaram sob fogo iraniano — o petróleo Brent subiu para US$ 101, às 9h55 em Londres nesta segunda-feira, tendo o aumento contido quando ministros das finanças do Grupo dos Sete apontaram que se reuniriam para discutir uma possível liberação conjunta de reservas de petróleo para aumentar a oferta. Trump chamou o petróleo a US$ 100 de um “pequeno preço a pagar” e disse que o custo “cairá rapidamente quando a destruição da ameaça nuclear do Irã terminar”.
Internamente, a nomeação de Mojtaba tem outras significações. Veterano da Guarda Revolucionária do Irã durante a Guerra Irã-Iraque (1980-1988), onde exerceu funções principalmente longe do front, o aiatolá respaldou as principais forças de repressão à oposição doméstica do regime, mantendo um contato próximo com alguns de seus líderes por décadas — incluindo às milícias Basij, durante a repressão a movimentos populares em 2009. O líder do Conselho de Segurança Nacional, Ali Larijani, disse que a escolha rápida demostrava que a capacidade do regime de tomar decisões estava preservada, apesar dos ataques sofridos ao longo de 10 dias.
Além do vínculo próximo com a estrutura de poder, a ascensão de Mojtaba guarda uma expressão simbólica extra que demonstra a continuidade. Ao eleger o filho de Ali Khamenei, a Assembleia dos Especialistas ignorou as restrições do próprio aiatolá e de seu antecessor, Ruhollah Khomeini, sobre a transmissão de cargos por hereditariedade — um traço da monarquia Pahlevi que foi combatido pela Revolução Islâmica de 1979. Aparentemente, a certeza de manutenção da estrutura de poder prevaleceu sobre os dogmas da revolução. (Com Bloomberg)

