“‘Sinto muito’, ‘Não era pra ser’ são frases feitas que não servem como consolo. Ver outras mulheres grávidas ou com seus bebês no colo não é uma simples inveja, é uma mistura de solidão imensa com a sensação de viver uma maldição — mais uma pessoa engravida no mundo, e não sou eu.
Esse sentimento me acompanhou por muito tempo. A dor de perder um filho que ainda nem chegou a nascer é algo difícil de explicar, mas impossível de esquecer. Eu perdi três bebês antes de conseguir dar à luz Catarina.
A primeira vez que engravidei foi em 2018. O nome do bebê era Miguel, escolhido pela minha sobrinha. Estávamos todos muito felizes – eu, meu então marido, nossa família. A irmã dele também estava grávida, então vivíamos esse sonho juntos. Mas começou um sangramento. Fiz repouso, progesterona, mas em uma das idas ao hospital após uma perda de sangue mais intensa, ouvi o que temia: ‘o bebê está descendo o colo, e você vai expelir naturalmente em alguns dias’. Numa noite, que coincidia com um eclipse, senti uma cólica forte. Nem acordei meu marido. E perdi o Miguel ali, em silêncio. Sonhei com uma deusa que levava meu bebê dos meus braços. Ele chorava, eu chorava. Senti um amor avassalador naquele sonho, e, depois, uma dor profunda que ficou por muito tempo.
Essa perda foi o começo de uma espiral. Meu então marido entrou em colapso. Precisou de medicação pesada, mas não seguia o tratamento. Eu não dormia, vivia em alerta. No começo, tinha medo de encontrá-lo morto. Depois, o medo era que ele fizesse algo comigo. A situação ficou tão insustentável que precisei sair desse casamento com uma medida protetiva. Tive que sair do trabalho por medo de que ele aparecesse lá. Voltei a morar com meus pais, sem renda, com o coração despedaçado. E ainda sendo culpada por ele pela perda: um dia, antes de saber que estava grávida, tomei uma cerveja com uma amiga. Ele dizia que tinha sido isso.
Até que conheci o Bruno, meu atual marido. Aos poucos, ele me ajudou a recuperar a confiança, o desejo de seguir em frente. Ele também vinha de um casamento desfeito, também queria uma família. Nos encontramos nesse desejo. Em 2020, decidimos tentar. Eu engravidei logo. Antônio era o nome desse bebê. Ouvimos seu coraçãozinho bater, tudo parecia perfeito. Desta vez, eu tinha a certeza que ia dar certo. Afinal, um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, dizem… Mas, com nove semanas, outro sangramento. E, com ele, a notícia: o coração do embrião tinha parado de bater.
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Decidi esperar que o meu corpo expulsasse naturalmente. Passei 15 dias com o embrião dentro de mim. Me despedi, escrevi muito, chorei mais ainda. Eu falava com ele, tentava aproveitar aqueles últimos momentos. Ele ainda estava em mim, mesmo que já não vivo. Numa noite, comecei a sentir cólicas. Às três da manhã, eu urrava de dor. Fomos para a maternidade mais próxima. Fiquei num cubículo com cortina. Do lado, outras mulheres davam à luz seus filhos. Eu estava ali, perdendo mais um. Estava em trabalho de parto, um parto de despedida. Talvez até por uma questão emocional, meu colo não abria. Depois do procedimento, a médica me perguntou: “você quer ver?”. Ele era do tamanho da unha do meu polegar.
Depois disso, fiquei muito tempo ferida. Uma ferida que não sangrava mais, mas ainda doía. Passei seis meses dentro de um quarto escuro antes de decidir que queria tentar de novo. Ouvimos o coraçãozinho bater. Eu sabia que era menina, ia ser Cecília. Mas depois de nove semanas, comecei a sangrar. Fizeram a ultrassonografia, e a médica chamou outra médica, que chamou outra. E me perguntaram: ‘Podemos filmar sua ultra?’. Eu disse que sim, mas perguntei por quê. ‘É que a gente nunca viu isso.’ Aí chamaram o diretor da obstetrícia. Ele me olhou e falou: ‘Olha, ou é gravidez nas trompas, ou gravidez molar. Ou as duas coisas. E se for as duas, pode ter sido um gêmeo que você perdeu. Mas você precisa operar agora. Urgente. ‘Fiquei três dias internada, até melhorar. Tive angioedema — meu rosto inchou tanto que não conseguia abrir os olhos quando acordei.
Bruno repetia uma frase que me marcou: ‘O jogo só termina quando acaba. E o tempo ainda não acabou.’ Isso me sustentava. Então, resolvemos fazer uma FIV. Passamos um tempo afastados, com medo de engravidar fora do planejamento. Todo mundo dizia que a FIV era doloroso, difícil… Mas pra quem já saiu de uma maternidade com os braços vazios, aplicar injeção ou lidar com hormônio é café pequeno. O que doía de verdade era o vazio.
Conseguimos só um embrião. Só a Catarina. E ela implantou. Firmou. Mas eu sabia que poderia ter uma trombofilia, mesmo que os exames não mostrassem. E foi um hematologista que me disse: ‘Você já perdeu três. Da próxima vez, toma o anticoagulante. Mesmo que os exames não mostrem nada. Tem coisa que a medicina ainda não enxerga.’ E eu confiei. Mesmo contra a orientação da clínica de fertilização, me apliquei, todos os dias.
A gravidez foi tranquila até que descobri uma anemia hemolítica. E aí, finalmente, o quebra-cabeça se encaixou. Tive o diagnóstico de lúpus. Minha obstetra montou um grupo de WhatsApp: Médicos da Cris. . Era ela, a hematologista, a reumato, até dermatologista. Todas em conjunto, vigiando cada detalhe da gestação.
E a Catarina nasceu. Linda, saudável. De 2018 até ali, foram três anos de luta, perda e luto. Eu dizia — ou talvez só pensava, porque falar doía — que me sentia como um cemitério de bebês. Que meu corpo era o lugar onde eles vinham pra morrer. Briguei com Deus. Muito. Mas no fim, Ele me dobrou. E foi Ele quem entregou a Catarina pra mim. Minha filha. Minha promessa. Meu propósito de vida.
Essas perdas estão no livro Clearblue Blues’ (Urutau), que acaba de ser lançado. Escrevi porque precisava dar nome à dor, e porque sei que não sou a única. Muitas mulheres passam por isso em silêncio, ouvem ‘não era pra ser’ e engolem o choro. Hoje, com Catarina nos braços, eu ainda lembro de todos os meus filhos. Quatro corações bateram dentro de mim. Eles fazem parte de mim.”