Psicanálise, sufismo, Andrei Tarkovsky, Rolling Stones: essas são algumas das influências que moldaram a criação de “Sirat”, talvez o filme mais indescritível — e mais aterrorizante — do ano. Desde sua estreia em maio, em Cannes, onde dividiu um prêmio do júri, o longa fez críticos mencionarem clássicos existenciais de ação como “O Salário do Medo”, “O Comboio do Medo” e “Mad Max”, mesmo enquanto segue para extremos chocantes totalmente próprios.
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O diretor do filme, Oliver Laxe (pronuncia-se LAH-shay), disse que gosta dessas comparações. Mas Laxe, um cineasta galego de 43 anos, enfatizou que “Sirat”, seu quarto longa, opera em um nível mais metafísico. “Eu realmente queria fazer um filme sobre a morte”, explicou ele em uma videochamada de Tóquio, onde estava exibindo o filme em um festival.
“Sirat”, cujo título em árabe pode ser traduzido como “o caminho”, acompanha um espanhol, Luis (Sergi López), que, junto com seu filho pequeno, Esteban (Bruno Núñez), viajou ao Marrocos em busca de sua filha adulta desaparecida. Ela sumiu nas regiões remotas da cena de raves nômades. Na esperança de encontrá-la enquanto, ao fundo, ocorre uma misteriosa repressão militar, pai e filho se juntam a cinco ravers que estariam indo para outra festa no Saara. (O filme é a escolha da Espanha para disputar uma vaga na categoria de filme internacional no Oscar 2026)
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Os perigos — terreno traiçoeiro, escassez de comida e gasolina, riscos inesperados longe da civilização — são muitos. López disse em uma entrevista que, ao ler o roteiro e perceber o nível de angústia que teria de entregar na atuação, disse a Laxe: “Não tenho certeza se existe um ator capaz de fazer isso.”
Mas confrontar medos — e a mortalidade — é parte crucial do que “Sirat” aborda. “É uma pergunta absurda, por que alguém morre”, disse Laxe. “A pergunta importante é: como você morre?” Ele disse que “Sirat”, com seus personagens frequentadores de raves, fala sobre isso. O filme pergunta: “Você consegue imaginar sua morte dançando?”
Além de López e Núñez, nenhum dos protagonistas — que compartilham seus próprios nomes com seus personagens — era ator profissional, e todos trouxeram experiências incomuns e fora do sistema para a produção. Eles foram encontrados principalmente por meio de um processo de seleção de rua liderado pela figurinista e ex-parceira de Laxe, Nadia Acimi, ela mesma uma raveira devota.
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Jade Oukid, 38, frequenta eventos como os mostrados no filme há mais de 20 anos. Ela disse que Acimi a encontrou em meio a uma multidão de 10 mil pessoas em um festival em Portugal. A trajetória de Oukid não é fácil de resumir: ela se descreveu como fotógrafa, cineasta amadora e costureira que trabalha com couro vegano. Já viveu em florestas e caminhões. Quando conheceu Laxe, disse Oukid, ela havia acabado de concluir um treinamento em “comunicação intuitiva com animais”. E participa de coletivos que organizam eventos musicais e exposições de arte.
Falando por vídeo de sua terra natal, a França, e com a ajuda de uma intérprete (como vários membros do elenco), Oukid disse que inicialmente estava cética quanto a participar de “Sirat”. Além do medo de aparecer diante das câmeras, ela disse que, dentro da cultura rave, existe um estigma em participar de projetos externos. “Muitos meios de comunicação tradicionais nos representam de forma negativa”, disse Oukid, “e compartilham informações sobre nossa comunidade com as quais eu não concordo necessariamente.” E, consciente de suas raízes turco-argelinas, também temia as implicações coloniais de filmar no Norte da África.
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Na vida cotidiana, Tonin Janvier, 42, também francês, se apresenta em festivais de rua municipais, tendo crescido “nos palcos”, como disse, em uma família de teatro itinerante. Ele afirmou que seu conhecimento sobre raves não era tão relevante quanto sua familiaridade com a África: quando criança, excursionou por Mali, Senegal, Costa do Marfim e Guiné. Já adulto, tentando sobreviver como artista, passou seis anos vendendo veículos franceses antigos em Mali e Senegal. “Já passei por coisas ainda mais perigosas do que no filme, e mesmo assim sobrevivi”, disse ele, mencionando a vez em que andava de moto e foi atingido por um caminhão que passou por cima dele. “Ainda estou vivo — eu realmente perdi uma perna — mas continuo aqui.”
Stefania Gadda, uma italiana de 50 anos, disse que “alternativo” era a melhor palavra para descrever seu estilo de vida. “Eu vivo no campo”, disse ela, “e sinto que sou mais camponesa do que raveira.” Ela vive sem eletricidade e água encanada em um rancho perto de Granada, na Espanha, mas um amigo montou uma videochamada da casa dele para nossa conversa.
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Laxe encontrou Gadda e outro membro do elenco em Órgiva, uma cidade espanhola conhecida por suas correntes contraculturais. “A região onde moro é um lugar onde há muitas pessoas que fazem festas e festivais de rave”, disse Gadda. Ela foi contratada para “Sirat” depois que a equipe de elenco, atendendo à recomendação de moradores locais, apareceu em sua casa. “Quando o universo vem até sua porta e bate, você não pode dizer não”, afirmou.
Laxe disse que todos os atores não profissionais tinham inicialmente medo da câmera e, como as filmagens seriam tecnicamente complicadas, ele precisou fortalecer sua confiança. Ele convidou López e outros membros do elenco para morar por um tempo em sua casa na Galícia, no noroeste da Espanha. López recordou com carinho os momentos cozinhando juntos, fazendo caminhadas, ensaiando e virando amigos “pouco a pouco”.
Janvier, buscando rigor em sua preparação, achou o processo de integração frustrante. “Os outros não tinham disciplina”, disse. “Iam dormir tarde; bebiam muito. Então foi bem difícil para mim.”
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Ainda assim, ele ouviu que o público realmente os percebe como uma família na tela. Ele atribui parte dessa credibilidade às circunstâncias das filmagens, que aconteceram no Marrocos e na Espanha. “O vento? Aquilo era uma tempestade de verdade, era vento de verdade, então colocaram isso no filme”, disse, destacando: “Acho que isso deu mais realidade aos nossos personagens, por estarmos naquelas condições tão duras.”
Alguns dos aspectos mais difíceis das filmagens pouco tiveram a ver com o terreno. Para a sequência de abertura, filmada na Espanha, Laxe e sua equipe montaram uma rave de três dias, o que provou ser logisticamente complicado porque misturava a ilusão de uma festa ilegal com necessidades de produção, como seguro.
Depois, há uma cena no filme tão horripilante — “uma cena assombrada”, como Laxe a chamou — que o diretor disse que nunca deixaria de ser perturbado por ela, “nem escrevendo, nem editando, nem trabalhando no som”.
Laxe disse que a cena não foi feita para chocar apenas por chocar. “Não tenho interesse em brincar com o espectador — essas intenções sádicas, cruéis”, disse. “Não gosto desses cineastas, Lars von Trier, Haneke.”
Em vez disso, embora ainda ache doloroso assistir à cena, ele afirmou: “Acho que é um filme saudável.” Ele vê essa sequência como necessária — uma forma de romper para outro nível de percepção e emoção para os espectadores, quase como um psicoterapeuta tentaria fazer.
Os financiadores disseram que o momento era arriscado, mas Laxe estava convencido de que precisava se lançar no abismo. “Era como: acreditamos no que estamos fazendo — vamos fazer o filme, mesmo que seja o último”, disse.
Pelo contrário, “Sirat” parece mais próximo de um avanço comercial para um diretor cujos filmes anteriores (“Mimosas”, “O Que Arde”) foram amplamente vistos apenas por cinéfilos dedicados. “Todo mundo fala do filme”, disse ele, mesmo pessoas que não gostam dele. E, acrescentou, até pessoas que não são fãs de techno amam a trilha sonora.
“Se não formos indicados a melhor trilha sonora, algo está errado”, afirmou.

