Disseram aos homens que isso salvaria seu casamento ou ajudaria a criar o primeiro encontro perfeito. Em vez disso, muitos acabaram babando descontroladamente, sofrendo de ereções potencialmente fatais e enfrentando um risco maior de ataques cardíacos.
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A fabricação e o consumo de drogas não regulamentadas destinadas a aumentar o desejo sexual masculino estão crescendo em toda a Costa do Marfim, um país da África Ocidental com 31 milhões de habitantes. Os clientes incluem jovens que buscam impressionar suas parceiras com demonstrações de virilidade incomparável. Para isso, tomam estimulantes cujos efeitos colaterais conhecem muito pouco.
Embora as autoridades da Costa do Marfim tenham proibido a produção dessas drogas e estejam as apreendendo, elas continuam a inundar as ruas da África Ocidental. Produtos populares são exportados para países vizinhos e para o Ocidente, além de estarem disponíveis na Amazon e no Walmart, onde são anunciados como “100% naturais”, embora os ingredientes não estejam listados nas embalagens.
Produtos como Attoté, uma bebida industrializada, e outros estimulantes sexuais “artesanais” fabricados no país contêm altos níveis de sildenafil, o medicamento mais conhecido como Viagra, segundo autoridades de saúde pública e testes laboratoriais obtidos pelo The New York Times.
As pílulas são fabricadas na Índia, contrabandeadas para a Costa do Marfim, trituradas, misturadas a outros ingredientes e vendidas por US$ 1,50 (R$ 8, na cotação atual) no país, US$ 15 (R$ 82) na França e US$ 20 (R$ 109) nos Estados Unidos.
Segundo a agência antidrogas das Nações Unidas, até metade das drogas na África Ocidental não são regulamentadas. Estima-se que mais de 500 mil pessoas morram todos os anos na África Subsaariana devido ao consumo de medicamentos perigosos e não regulamentados. Estimulantes sexuais como o Attoté estão entre os mais frequentemente relatados, de acordo com a Organização Mundial da Saúde.
— Está vindo de todos os lugares — afirma Assane Coulibaly, chefe da autoridade reguladora farmacêutica da Costa do Marfim, sobre os estimulantes sexuais. — É uma guerra.
Embora não haja dados públicos sobre o consumo de estimulantes sexuais na Costa do Marfim, autoridades de saúde alertaram sobre os riscos crescentes. Médicos de emergência relataram casos de ereções prolongadas que podem levar à necrose, além de pacientes com enxaquecas frequentes e salivação excessiva.
— A onipotência sexual é glorificada — diz Mamadou Kamagaté, professor de farmacologia. — Crenças populares dominaram o raciocínio científico e as pessoas ignoram os efeitos colaterais.
Em uma tarde do outono passado, em um terreno vazio em Korhogo, uma cidade no norte da Costa do Marfim, uma corrente constante de homens em SUVs brilhantes ou em motos baratas passava por vendedores de rua sentados em cadeiras plásticas instáveis.
O mapa localiza a cidade de Korhogo, no norte da Costa do Marfim, bem como Abidjan, cidade no sul. Também mostra o país vizinho Gana e Senegal, na costa oeste da África.
Os homens buscavam Attoté, uma bebida rosa e amarga que supostamente melhora o desempenho masculino. A produção havia sido suspensa alguns meses antes pelo governo, devido à propaganda enganosa e aos riscos à saúde, incluindo a morte.
Mas a demanda permanecia alta. No terreno vazio, a principal fábrica do medicamento estava parada, mas as prateleiras da loja adjacente ainda estavam abastecidas com garrafas de Attoté.
— Eu duro muito mais — confessa Bruno Siloué, um estudante do ensino médio que deseja comprar a bebida.
Poucos dos homens circulando pelo terreno pareciam preocupados com os efeitos colaterais, que incluem enxaquecas, dores de estômago, salivação descontrolada e palpitações preocupantes, segundo mais de duas dezenas de autoridades de saúde entrevistadas para esta matéria.
— É o que eu tomo quando tenho um jogo difícil pela frente — afirma Tenena Soro, 29 anos, trabalhador da construção civil, referindo-se a um encontro.
Em um beco no centro de Korhogo, aromas de ervas flutuavam no ar em uma tarde. Consumidores circulavam comprando diversos suplementos e drogas não regulamentadas para tratar desde dores de estômago até disfunção erétil.
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— Todo homem que toma isso reclama de fortes enxaquecas. Nas notícias, ouvimos sobre homens sofrendo ataques cardíacos e, ainda assim, não há conscientização — diz Fadley Coulibaly, médico marfinense que alerta sobre os perigos do consumo dessas drogas.
A medicina herbal continua altamente popular na África Ocidental, e alguns empreendedores, como Djakalia Ouattara, fundador do Attoté, encontraram sucesso no mercado. Em entrevista a um jornalista do Times, Ouattara afirmou que seu produto era feito apenas com plantas obtidas em mercados locais e vilarejos próximos. Mas a receita permanece em segredo.
A concentração de sildenafil no Attoté é oito vezes maior que a dose recomendada, segundo a Agência Marfinense de Regulação Farmacêutica, que forneceu os testes laboratoriais obtidos pelo Times. No ano passado, a polícia apreendeu mais de 40 toneladas de pílulas de sildenafil contrabandeadas da Índia e armazenadas em galpões abandonados em Korhogo.
— Mesmo que usemos sildenafil, se ele cura as pessoas, por que é ruim? — questiona Moussa Soro, um dos filhos de Ouattara.
Soro, 29 anos, afirma que Attoté ajuda em várias doenças e até na infertilidade, e disse que começou a trabalhar com o pai para produzir o produto aos 8 anos de idade. Nenhum dos dois possui diploma em medicina.
Ouattara, um homem corpulento que usa um chapéu fedora e é conhecido em toda a Costa do Marfim como “Dr. Attoté”, foi mecânico no passado. Quando seu negócio faliu, ele teve uma revelação, afirmam duas de suas irmãs, Natou e Mariam Ouattara, ambas revendedoras de Attoté.
Ouattara supostamente herdou a receita sagrada do Attoté de seu falecido avô e acredita que é sua responsabilidade divina compartilhar seus poderes com outros homens.
Representantes da empresa se recusaram a fornecer números oficiais de vendas. Mas Soro conta que a produção começava às 5h e terminava à 1h, e que a fábrica produzia milhares de garrafas todos os dias. Mercados-chave da empresa incluem Senegal e Gana, na África Ocidental, além de França, Bélgica e Estados Unidos.
A produção foi discretamente retomada logo após a proibição do governo no ano passado, segundo Ouattara. É a mesma receita, mas sob o novo nome Fêrêlaha, que se traduz aproximadamente como “Tire a vergonha de mim”.
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Em sua sala em Korhogo, Ouattara mostrou um cartão de associado do Programa Nacional para Promoção da Medicina Tradicional da Costa do Marfim, agência vinculada ao ministério da saúde do país. O cartão foi emitido após a proibição, segundo ele.
— Sou o único médico tradicional da Costa do Marfim famoso no mundo todo — afirma Ouattara. — Se nos dissessem que uma mistura da África seria vendida na Europa, quem acreditaria?
Soro conta que a empresa geralmente enfrenta um aumento da demanda antes das férias anuais. Profissionais de hospitais em Abidjan, a maior cidade da Costa do Marfim, relatam que os pronto-socorros frequentemente veem aumento de pacientes buscando tratamento por ereções prolongadas perto da véspera de Ano Novo.
Mais de 80% das ereções prolongadas são tratáveis, segundo Osman Chérif, funcionário de hospital na Costa do Marfim. Em casos extremos, é necessária cirurgia.
— Há vergonha, claro — afirma, referindo-se às hospitalizações causadas por produtos como o Attoté. — A maioria dos homens tem entre 30 e 40 anos, tecnicamente não precisam desses produtos.
Eloué Kroa, diretor da agência de medicina tradicional, desaprova a venda contínua do Attoté por Ouattara sob outro nome. Atrás de sua mesa, uma garrafa de Attoté estava em uma prateleira ao lado de outros produtos de medicina tradicional.
— A repressão continuará — alerta.