Um estudo publicado nesta terça-feira acusou a Rússia de manter mais de 200 instalações voltadas a menores de idade levados da Ucrânia, que em muitos casos servem como locais de doutrinação, “reeducação” e até produção de equipamentos militares. O documento, elaborado pela universidade Yale, é mais um a apresentar evidências de que o Estado russo abduziu e deportou menores para seu território, uma acusação que levou ao pedido internacional de prisão do presidente Vladimir Putin, há dois anos.
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Segundo o estudo, publicado pelo Laboratório de Pesquisa Humanitária da Escola de Saúde Pública (HRL) da Universidade Yale, foram identificados ao menos 210 locais para onde os menores vindos da Ucrânia foram levados — esses menores permaneceram nas instalações por diferentes períodos de tempo, desde algumas semanas até meses, e não raro foram encaminhados posteriormente para adoção. A Ucrânia afirma que 20 mil menores foram ilegalmente levados para a Rússia desde fevereiro de 2022.
Essas instalações estão presentes em duas regiões ucranianas ocupadas pela Rússia — Crimeia e Donetsk — e em diferentes entidades federativas russas, desde a fronteira com a Ucrânia até áreas distantes, como Magadan (1 instalação) e Primorsky (2 a 5 instalações), na costa do Oceano Pacífico. Segundo o estudo, elas vão desde escolas e bases militares até escolas, hotéis e antigos sanatórios da era soviética.
Mas além de abrigar menores levados indevidamente da Ucrânia, além de jovens enviados por suas famílias por tempo determinado, essas instalações não são exatamente centros de acolhimento ou acampamentos de férias. O relatório afirma que em ao menos 130 foram identificadas atividades de “reeducação”, em diversos formatos.
“As atividades que constituem reeducação incluem programação cultural, patriótica ou militar alinhada com narrativas pró-Rússia”, diz o documento. “Pelo menos 88 dessas instalações foram recentemente identificadas pela HRL neste estudo. Embora não seja possível confirmar neste momento, é provável que crianças da Ucrânia tenham passado por atividades de reeducação em uma porcentagem maior das instalações identificadas como parte deste relatório.”
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Chama a atenção o número de locais destinados a atividades militares — 39 —, onde os menores participam de atividades que incluem “competições de tiro e arremesso de granadas”, aulas sobre controle e manutenção de drones e treinamentos similares aos destinados aos soldados enviados para a guerra na Ucrânia.
“À medida que o Estado russo tenta criar uma cultura juvenil mais marcial, as crianças nos territórios temporariamente ocupados da Ucrânia são incluídas nos esforços do Estado, com algumas entrando em um processo de alistamento nas forças armadas da Rússia”, apontam os autores.
O governo russo não se pronunciou.
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A militarização da juventude russa é um processo que antecede a invasão da Ucrânia, e integra uma agenda mais ampla do governo Putin pautada pelo nacionalismo e por uma certa nostalgia do passado militarista da União Soviética. As paradas militares na Praça Vermelha são um legado soviético resgatado desde o início do século, e valores bélicos se fizeram mais presentes nos currículos escolares, em todos os níveis.
Na semana passada, o jornal britânico Guardian publicou um outro relatório sobre o aumento do número de acampamentos militares para jovens, que servem como plataformas para convencê-los a se juntarem às Forças Armadas. No caso dos jovens ucranianos, por vezes enviados por suas famílias que vivem em áreas ocupadas, o alistamento posterior não é uma escolha.
— Os instrutores me disseram que, com o certificado emitido após o treinamento, eu poderia me alistar no exército russo, então entendi que não era só brincadeira — diz Sonya, uma jovem de 17 anos que vivia em Kherson, parcialmente ocupada pela Rússia desde 2022, ouvida pelo Guardian. — Eu estava muito preocupada porque sabia que faria 18 anos em breve e poderia ser forçada a me alistar.
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Ao jornal, disse que toda sua família foi obrigada a tirar novos documentos russos e seguir as leis e normas russas. Seu irmão mais novo, afirma, também foi enviado a um acampamento militar e passou pelo mesmo processo de “reeducação”.
— Depois de ser alvo da propaganda deles, ele ficou do lado da Rússia — afirmou ao Guardian. — Ele diz que vai se juntar ao exército russo. Ele fala sobre isso com os amigos.
Em março de 2023, o Tribunal Penal Internacional emitiu uma ordem de prisão contra o presidente russo, Vladimir Putin, e contra a Comissária para os Direitos da Criança do governo russo, Maria Lvova-Belova, por acusação de tranferência ilegal de população, um crime de guerra pelas leis internacionais.
A Rússia nega as acusações, mas a ordem limitou as movimentações de Putin pelo mundo, devido à obrigação dos membros do TPI de executarem a ordem de prisão. O líder russo não foi às últimas duas reuniões do G20, na Índia e Brasil — ele também não foi ao encontro de 2022, na Indonésia, mas por razões políticas —, e foi ausência na recente cúpula do Brics, em julho, no Rio de Janeiro. Uma rara exceção foi sua visita à Mongólia, em setembro do ano passado, um país que, apesar de ser membro do TPI, não prendeu Putin.