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'Eu me vejo no oposto dela': Claudia Raia apresenta sua versão de Tarsila do Amaral no Vivo Rio antes de iniciar turnê pelo país

:A imagem de Tarsila do Amaral costuma ser resumida ao “Abaporu”, um dos quadros mais conhecidos da arte brasileira. No palco, porém, Claudia Raia faz questão de desmontar esse retrato incompleto. Em “Tarsila, a brasileira”, a pintora aparece também como a mulher que perdeu a fortuna, foi traída, presa, recomeçou a vida diversas vezes e […]

'Eu me vejo no oposto dela': Claudia Raia apresenta sua versão de Tarsila do Amaral no Vivo Rio antes de iniciar turnê pelo país


:A imagem de Tarsila do Amaral costuma ser resumida ao “Abaporu”, um dos quadros mais conhecidos da arte brasileira. No palco, porém, Claudia Raia faz questão de desmontar esse retrato incompleto. Em “Tarsila, a brasileira”, a pintora aparece também como a mulher que perdeu a fortuna, foi traída, presa, recomeçou a vida diversas vezes e transformou as próprias dores em arte. Depois da temporada no Theatro Municipal, o musical iniciou, quarta-feira passada, sua última passagem pelo Rio, agora no Vivo Rio. Para o público carioca, restam apenas as apresentações de hoje e amanhã.
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Curiosamente, a identificação da atriz com a personagem nasceu justamente das diferenças. Acostumada a interpretar mulheres expansivas, e sendo ela própria conhecida pela comunicação direta, Claudia encontrou em Tarsila uma personalidade silenciosa, introspectiva e quase misteriosa. Foi nesse contraste que descobriu afinidades inesperadas.
— Eu me vejo no oposto dela. Ela era tímida, introspectiva, misteriosa. Eu falo com todo mundo, sou comunicativa. Mas descobri duas coisas muito importantes que nós temos em comum, a capacidade de realizar e o propósito. Ela nunca abriu mão do propósito de ser pintora — resume.
A pesquisa para montar o espetáculo revelou uma personagem muito mais contraditória do que a imagem cristalizada da modernista costuma sugerir. Para Claudia, a força de Tarsila não estava apenas na ousadia artística, mas na forma como atravessou perdas sem abandonar a capacidade de construir vínculos.
— Ela foi traída, sustentou o Oswald (de Andrade) depois de tudo o que aconteceu, viveu outro grande amor com Luís Martins e, quando ele se apaixonou pela sobrinha dela, foi ela quem defendeu os dois. Os laços para ela eram mais importantes do que qualquer orgulho. Aprendi muito com ela a olhar pelo olhar do outro — diz.
Cadillac. O veículo, ainda em funcionamento, será transportado na turnê
Divulgação/Paschoal Rodrigues
É justamente por enxergar essa complexidade que Claudia afirma ter imposto uma condição para levar a pintora aos palcos: recusar uma versão idealizada da personagem.
— Eu precisava do lado B da Tarsila. Não me interessava a Tarsila perfeita. Se eu ficasse só com o ícone do modernismo, da moda, da mulher que falava cinco idiomas, não teria um bom espetáculo. A mim interessava a Tarsila real. Foi isso que transformou essa pesquisa numa história enorme, trágica e emocionante — explica.
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Entre todas as descobertas feitas durante a preparação, nenhuma mexeu tanto com ela quanto a história por trás do “Abaporu”. Segundo a atriz, a família da pintora abriu arquivos e relatos que permitiram reconstruir detalhes do processo criativo da obra mais emblemática do modernismo brasileiro.
— Descobrimos que o “Abaporu” era um autorretrato. Ela andava nua pela casa procurando inspiração até se ver refletida no espelho. Aquela figura nasceu desse momento. O sol representa o olhar do Oswald, e o cacto simboliza a sexualidade dos dois, que era muito forte — diz.
A narrativa ganhou um espaço próprio na encenação.
— Tem um número em que eu danço e canto enquanto mostramos como ela criou o quadro — conta.
Outra faceta menos conhecida da artista aparece nos momentos finais do musical: sua amizade com Chico Xavier. Para Claudia, esse capítulo ajuda a explicar a maneira como Tarsila encontrou algum consolo depois das perdas que marcaram sua vida.
— Eu quis que isso estivesse no espetáculo porque vivemos num país muito espiritual. Sabia que esse momento ia emocionar as pessoas — afirma.
Ao longo da conversa, Claudia aproxima as escolhas de Tarsila das próprias decisões que tomou na carreira. Ela lembra que a pintora enfrentou a família, rompeu convenções sociais e buscou, inclusive, a anulação do casamento com autorização do Papa numa época em que esse tipo de ruptura parecia impensável.
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— Ela foi contra a família, viveu um romance quando isso era escandaloso, conseguiu com o Papa uma anulação do casamento numa época em que quase ninguém fazia isso. Eu também tenho essa característica de romper padrões — conta.
A atriz cita como exemplos as vezes em que escolheu falar publicamente sobre menopausa, maternidade tardia e outros temas considerados incômodos.
— Ela teve muitos ônus por tudo o que resolveu enfrentar. Mas essa coragem de falar e de fazer, mesmo quando incomoda, nós temos em comum — observa.
Equipe de 74 pessoas e oito carretas em turnê
Essa relação entre arte e experiência pessoal também aparece na forma como ela descreve o trabalho de interpretação. Para Claudia Raia, nenhuma personagem passa pela vida de um ator sem deixar marcas.
— Todas as personagens têm um pouco da gente. Às vezes você cura uma ferida através delas. Nem sempre resolve imediatamente. Às vezes é um caminho longo, mas você encontra aquela mesma questão na personagem e entende melhor o que aconteceu com você. Nossa profissão é representar gente, contar histórias e revelar o que há de mais guardado— acredita.
Claudia e Jarbas. O casal vive Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade
Divulgação/Paschoal Rodrigues
Se viver Tarsila já exige fôlego em cena, produzi-la exige ainda mais. A montagem percorre o país com 74 profissionais, oito carretas de equipamentos e até um Cadillac que cruza o palco durante o espetáculo.
— É grandioso — destaca a atriz.
Reduzir a estrutura nunca foi uma opção:
— Minha premissa sempre foi: ou eu viajo com tudo ou não viajo. Fazer uma versão menor não é para mim. Foram quase dois anos para tirar o projeto do papel. É uma loucura logística, mas ver esse gigante funcionando faz tudo valer a pena.
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Em cena, Jarbas Homem de Mello interpreta Oswald de Andrade. Fora dela, os dois repetem uma parceria construída ao longo dos anos, que Claudia vê dialogar com a potência criativa do casal modernista.
— Trabalhar com o Jarbas é uma delícia. Somos muito parecidos trabalhando. Ele é um grande cantor, ator e bailarino e extremamente disciplinado. Eles eram muito potentes juntos, artisticamente. Nós também temos um amor muito profundo e muito fértil para as artes — afirma.
Ao imaginar Tarsila vivendo em 2026, Claudia acredita que ela continuaria voltando seu olhar para o Brasil, não para abandonar a beleza, mas para confrontar as contradições do país.
— Acho que ela estaria pintando o caos desse Brasil sem perder a brasilidade tão presente em sua arte — opina.
Essa ideia reaparece na cena final do espetáculo, quando Tarsila deixa de falar apenas sobre si e transforma sua despedida numa declaração sobre o papel da cultura.
— A Tarsila diz que um país que não prestigia seus artistas, cientistas e pensadores desbota. Depois fazemos uma homenagem a grandes artistas brasileiros. É quando o público vem abaixo — conta a atriz.
As três últimas sessões de “Tarsila, a brasileira” no Vivo Rio são hoje, às 16h e às 21h; e amanhã, às 19h. A casa abre uma hora antes de cada apresentação.
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'Eu me vejo no oposto dela': Claudia Raia apresenta sua versão de Tarsila do Amaral no Vivo Rio antes de iniciar turnê pelo país

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BRCOM