O presidente George W. Bush corria por um campo de golfe na Flórida antes do amanhecer de 11 de setembro de 2001 quando Steve Holland, repórter da agência Reuters que o acompanhava naquele dia, o viu pela primeira vez. A agenda prevista era rotineira: Bush, que estava na Casa Branca havia menos de oito meses, participaria de um evento com crianças para promover suas políticas educacionais. Em questão de horas, porém, ele enfrentaria o pior ataque em solo americano desde Pearl Harbor, em 1941. Vinte e cinco anos depois, nesta sexta-feira, Bush expõe no Texas cerca de 15 pinturas inspiradas em suas lembranças dos ataques.
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Naquele dia, ele visitava a Escola de Ensino Fundamental Emma E. Booker, em Sarasota, quando a tragédia começou. Enquanto se reunia com funcionários e alunos, o jornalista estava em um centro de imprensa próximo, onde repórteres assistiam pela televisão à fumaça saindo de uma das Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York. O primeiro avião havia atingido o prédio e, inicialmente, acreditava-se que poderia ter sido um acidente. Enquanto acompanhavam as imagens, porém, o segundo avião atingiu a outra torre.
Bush já havia sido informado sobre a primeira colisão antes de entrar na sala de aula. Enquanto acompanhava crianças em um exercício de leitura, o então chefe de gabinete da Casa Branca, Andy Card, sussurrou em seu ouvido que um segundo avião havia atingido o World Trade Center: “Os Estados Unidos estão sob ataque”, disse ele, enquanto câmeras registravam a expressão do presidente ao receber a notícia.
A reação de Bush
Bush permaneceu sentado durante cerca de sete minutos e terminou o exercício de leitura. Depois, elogiou as crianças e tirou fotos com alunos e professores. Questionado por um repórter sobre os ataques, respondeu que falaria sobre o assunto mais tarde.
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A cena, amplamente divulgada na época, se tornou uma das imagens mais conhecidas daquele dia e, anos depois, foi usada pelo cineasta Michael Moore no documentário “Fahrenheit 9/11” como símbolo do que seus críticos consideravam uma reação de paralisia diante da crise. Bush, no entanto, afirmou tempos depois, em relatos à imprensa, que sua decisão de permanecer sentado havia sido consciente.
— Minha primeira reação foi de raiva. Quem diabos faria isso com os Estados Unidos? — contou à National Geographic, acrescentando que, em seguida, sua atenção se voltou para as crianças e para “o contraste entre o ataque e a inocência” delas.
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Bush disse que conseguia observar os jornalistas no fundo da sala recebendo informações em seus celulares, numa cena que comparou a “assistir a um filme mudo”. Foi então, afirmou, que percebeu que pessoas fora daquela sala também estariam observando sua reação. Naquele momento, relembrou, ele decidiu não “levantar imediatamente e sair da sala de aula” porque não queria assustar as crianças.
— Eu já havia passado por crises suficientes para saber que a primeira coisa que um líder precisa fazer é transmitir calma — acrescentou ele, que, em relato à NBC, negou ter ficado em choque. — Não vou debater com os críticos se eu estava ou não em choque. Eu não estava. Eles podem ler o meu livro e tirar suas próprias conclusões.
Dimensão do ataque
Fora da sala de aula, a dimensão do que ocorria ficava cada vez mais clara. As duas torres do World Trade Center desabaram, matando cerca de 3 mil pessoas. Um terceiro avião atingiu o Pentágono, matando 64 a bordo e outras 125 no prédio. Um quarto, o voo 93 da United Airlines, caiu em um campo na Pensilvânia depois que passageiros reagiram contra os sequestradores. Todas as 44 pessoas a bordo morreram.
Em Washington, a fumaça que saía do Pentágono provocou temores de carros-bomba, e a Casa Branca foi evacuada. Segundo Holland, agentes do Serviço Secreto chegaram a orientar funcionárias a tirarem os sapatos de salto e correrem. Na Flórida, teve início uma operação para retirar Bush rapidamente da escola e levá-lo ao Air Force One.
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Primeiro, o presidente seguiu para a Base Aérea de Barksdale, na Louisiana, e depois para a Base Aérea de Offutt, em Nebraska. As dificuldades para manter contato com a Casa Branca durante os deslocamentos levariam Bush posteriormente a pressionar por melhorias nos equipamentos de comunicação do avião presidencial. Em Nebraska, ele entrou em um bunker subterrâneo para participar de uma teleconferência com seus principais assessores.
Durante aquelas horas, Bush discutiu como responder caso outras aeronaves sequestradas ameaçassem novos alvos. Em depoimento prestado em 2004 à comissão independente que investigou o 11 de Setembro, ele relatou ter concedido ao vice-presidente autoridade para autorizar o abate de um avião, se necessário. Disse, ainda, que conhecia as regras básicas de engajamento devido à experiência como piloto da Guarda Aérea Nacional do Texas, e que compreendia o peso que uma ordem desse tipo teria sobre os militares.
“Ele entendia as consequências para o piloto, como um piloto poderia se sentir ao receber a ordem de derrubar um avião comercial americano. Seria difícil”, registram as anotações da comissão sobre o relato.
‘Raiva silenciosa’
Bush chegou à Casa Branca ainda no fim da tarde de 11 de setembro. O repórter que o acompanhava, porém, permanecia na Flórida com grande parte do corpo de imprensa da Casa Branca. Com todo o tráfego aéreo suspenso, os jornalistas não tinham como retornar a Washington. Então presidente da Associação de Correspondentes da Casa Branca, Holland pressionou por uma solução, e o grupo conseguiu um ônibus fretado para voltar à capital. Depois de 14 horas na estrada, ele disse ter visto, em Washinton, “a enorme abertura ainda fumegante no Pentágono”.
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Três dias depois, em 14 de setembro, o jornalista voltou a acompanhar Bush, desta vez ao Marco Zero, em Nova York. As ruínas do World Trade Center ainda queimavam e, segundo ele, o cheiro podia ser sentido a quilômetros de distância. Havia preocupação de que alguns dos prédios ao redor estivessem tão fragilizados que também pudessem desabar.
Uma camada espessa de cinzas cobria as ruas, as calçadas e os ombros dos bombeiros exaustos. Bush caminhou pelo local devastado ao lado do então prefeito de Nova York, Rudy Giuliani, e, em determinado momento, subiu nos destroços de um caminhão de bombeiros. De lá, com um megafone nas mãos, dirigiu-se às equipes de emergência.
— Eu consigo ouvir vocês. O resto do mundo ouve vocês — disse ele na ocasião, marcando o que também se tornaria outra das imagens marcantes de sua Presidência. — E as pessoas que derrubaram esses prédios ouvirão todos nós em breve.
Exposição de Bush
Nesta sexta-feira, 25 anos após os atentados, Bush expõe no Texas cerca de 15 pinturas inspiradas em suas lembranças dos ataques. A exposição “Lembrando o 11 de Setembro”, em tradução livre, está em cartaz em seu museu presidencial, em Dallas, e retrata os momentos que se seguiram aos ataques de 2001. A mostra começa com uma representação de Nova York depois que as Torres Gêmeas desabaram. Ao fundo, os edifícios do sul de Manhattan aparecem envoltos em uma espessa fumaça cinza.
Em várias obras, Bush, que começou a se dedicar à pintura três anos depois de deixar a Casa Branca, em 2009, retrata a si mesmo: consolando uma família ou uma mãe enlutada; cercado por bombeiros de Nova York; discursando na Catedral Nacional de Washington; e segurando a mãe do pai, o ex-presidente George H. W. Bush. Outro elemento recorrente da série, marcada por cores intensas, é a bandeira americana. Em uma das pinturas, ela ocupa toda a tela sobre o Pentágono.
“Esses são os momentos que o presidente Bush escolheu pintar porque são aqueles de que mais se lembra: não o medo, mas a determinação; não o desespero, mas o instinto dos americanos comuns de se unir e ajudar uns aos outros”, explica um comunicado.
(Com AFP)
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