Em sua peregrinação para convencer os países europeus de que o aumento dos gastos com Defesa é algo imprescindível neste momento — quando os EUA se apoiam na guerra na Ucrânia para pressionar publicamente aliados históricos — a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, tem dito que busca uma paz duradoura. Mas essa paz duradoura, segundo ela, “só pode ser construída com base na força, e a força começa com o fortalecimento de nós mesmos”.
- Vazamento: Vice-presidente e chefe do Pentágono ironizam Defesa da Europa em mensagens enviadas por engano para jornalista
- ‘Forças precisam recrutar mais’: Dinamarca amplia serviço militar para mulheres diante da crescente ameaça russa à Europa
Pascale Sourisse compartilha da mesma opinião. Vice-presidente executiva sênior de Desenvolvimento Internacional da Thales, uma multinacional francesa líder em fornecimento de soluções tecnológicas para o setor de Defesa, ela conversou com O GLOBO na LAAD, maior e mais importante feira de Defesa e segurança da América Latina, no Rio.
Anúncios recentes de aumento dos gastos com defesa na Europa fizeram com que a renda e a receita de empresas como a Thales também crescesse. A guerra é um bom negócio?
O que estamos fazendo não é nos prepararmos para a guerra, é fazer todo o possível para evitar a guerra. “Si vis pacem, para bellum” é um provérbio em latim que significa “se você quer paz, prepare-se para a guerra”. É o básico da dissuasão. As pessoas não o atacarão se acharem que você é forte, porque a retaliação seria tal que o prejudicaria terrivelmente. E é isso que a Europa precisa fazer. Espera-se que o aumento dos investimentos em Defesa na Europa não seja para usar todo esse equipamento, mas para enviar a mensagem de que, se necessário, a Europa é forte o suficiente para retaliar e não esgotará suas munições em apenas alguns dias. Ou seja, a Europa está preparada para lutar e alguém que ataque a Europa sofrerá muito com isso. Isso é dissuasão, e o objetivo é convencer a todos de que o melhor é realmente a paz e a negociação.
O vazamento de conversas entre membros do governo americano em um aplicativo de mensagens trouxe à tona uma série de críticas feitas pela Casa Branca à Defesa europeia, que eles chamaram de “patética” e “parasita”…
Bem, algumas críticas sobre o fato de a Europa não ter investido o suficiente em Defesa no passado são justas, porque é uma realidade. Do mesmo modo que a Europa tomou a paz como garantida, e estamos vendo agora que ninguém deve fazer isso. Mas a Europa entendeu a mensagem e decidiu investir o suficiente para podermos cuidar de nós mesmos. O próximo passo é garantir que possamos implementar isso com rapidez suficiente.
A autonomia da Defesa europeia é factível a curto e médio prazo?
A Europa tem muitas tecnologias e empresas extremamente competentes. O ponto que precisamos acelerar é a capacidade de produção e os equipamentos que estão disponíveis para proteger a Europa. Nós temos soluções, mas precisamos produzir em volumes suficientes e leva um pouco de tempo para constituir estoques. Não basta desenvolver um sistema de defesa aérea e uma ou duas baterias, é preciso muitas outras à disposição. Portanto, o desafio não é tanto que a Europa não possa ter as tecnologias, mas, sim, o fato de que a Europa não tem o volume necessário de equipamentos e soluções disponíveis.
- Reação: Kremlin critica ‘planos de militarização’ da Europa enquanto líderes se reúnem para discutir a guerra na Ucrânia
A UE identificou sete áreas prioritárias para investimento, e elas correspondem basicamente a domínios nos quais a Thales é extremamente relevante, incluindo defesa aérea, produção de mísseis e munições e soluções contra drones. Nesse sentido, tomamos algumas medidas muito fortes e já multiplicamos por quatro nossa capacidade de produção de radares militares na Europa, tanto na França quanto na Holanda, e estamos aumentando a capacidade de produção de radares no Brasil. Multiplicamos por cinco nossa capacidade de produção de foguetes guiados a laser e de mísseis de curtíssimo alcance.
As tensões geopolíticas estão aumentando no mundo todo, ao mesmo tempo em que garantias de alinhamentos históricos dão sinal de enfraquecimento…
As tensões geopolíticas aumentaram, mas elas já eram visíveis há alguns anos. Não é algo novo. Há cinco anos, já víamos que havia tensões muito significativas no Oriente Médio, na parte oriental da Europa e no Indo-Pacífico, que são hoje as três principais áreas de tensão. E já na época isso convenceu vários países, especialmente na Europa, a aumentar seus gastos com Defesa. Obviamente, mais recentemente, com a guerra na Ucrânia, a pressão sobre a Europa para aumentar o investimento em Defesa aumentou ainda mais. E, agora, a situação com os Estados Unidos continuou a convencer a Europa de que precisava aumentar seus investimentos. Isso não acontecerá imediatamente, mas é a tendência. Em nível europeu, os governos e a União Europeia estão trabalhando nisso.
As guerras não são mais travadas apenas na frente de batalha e com soldados e métodos convencionais. A Europa está preparada?
Estamos na vanguarda do desenvolvimento da inteligência artificial para sistemas de missão crítica. A Thales, por exemplo, trabalha nesse domínio há muitos anos e hoje tem mais de 100 produtos que incorporam soluções de inteligência artificial confiáveis. Podemos fornecer radar, sonar e muitos sensores, além de redes de comunicação e recursos de processamento equipados com IA, que auxiliam o usuário a aumentar a precisão e o desempenho do sistema e a acelerar o seu uso operacional, mesmo lidando com um volume incrível de dados.
