O ex-delegado Ruy Ferraz Fontes, assassinado em Praia Grande nesta segunda-feira, afirmou que teve uma “conversa meio atrapalhada” com Marco Willians Herbas Camacho, conhecido como Marcola, líder do PCC. Em entrevista a um podcast da rádio CBN e do jornal O GLOBO, concedida três semanas antes de sua morte, ele relatou ter existido um desentendimento quando o chefe da organização criminosa foi levado ao Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) em 2006, no contexto dos atentatos promovidos pela facção na capital paulista. Fontes, no entanto, negou ter sido ameaçado.
— Teve uma conversa só meio atrapalhada com o Marcola, mas nunca teve um desenrolar negativo. No mundo do crime, existe uma ética. E essa ética é cobrada, de uma forma geral. Em que momento nós instruímos um inquérito policial e inventamos alguma prova contra eles? Nunca. Se tinha provas, a gente relacionava e depois ia depor em juízo. A gente não inventou provas. Se ele é criminoso e pratica crime, eu sou da polícia e investigo — afirmou.
Dias antes de ser executado, ex-delegado disse temer pela própria vida
Perguntado sobre mais detalhes da “conversa” com Marcola, o ex-delegado não quis falar e afirmou que não queria que as informações viessem a público por não contar com nenhuma proteção do Estado.
— Eu tenho proteção de quem? Eu moro sozinho, eu vivo sozinho na Praia Grande, que é no meio deles. Para mim é muito difícil. Se eu fosse um policial da ativa, eu tava pouco me importando, teria estrutura para me defender, hoje não tenho estrutura nenhuma — afirmou.
O GLOBO apurou que, além de uma ameaça de morte mais antiga, Fontes foi citado por criminosos do PCC na mesma ocasião em que a facção jurou de morte o ex-juiz e senador Sérgio Moro e o promotor de Justiça Lincoln Gakiya, do Ministério Público de São Paulo. O nome de Fontes, entretanto, não se tornou público. Ele foi avisado pessoalmente que era um dos alvos, mas a informação ficou apenas no âmbito da inteligência do MP. O plano de execução foi descoberto pela Polícia Federal, que deflagrou uma operação para desmobilizar o crime em março de 2023.
O ex-delegado-geral foi executado a tiros enquanto dirigia um carro em Praia Grande. Imagens do crime mostram seu carro sendo perseguido e colidindo com um ônibus. Na sequência, homens descem de outro veículo e atiram contra o automóvel da vítima.
O ataque ocorreu na avenida Doutor Roberto de Almeida Vinhas, na Vila Caiçara, por volta das 18h20, segundo a Polícia Militar. Uma força-tarefa foi criada pelo governo de São Paulo para investigar o crime e prender os criminosos responsáveis pela execução.
Enquanto delegado em SP, Fontes foi o responsável por revelar a organização, a estrutura hierárquica e a dimensão do PCC pouco tempo depois que a facção surgiu nos presídios paulistas. É dele também os inquéritos policiais que resultaram nas principais condenações de Marcola. Desde então, passou a ser tratado como o inimigo número 1 do grupo criminoso, sendo alvo de planos de execução descobertos pelas autoridades.
Ele foi velado na manhã desta terça-feira em uma cerimônia na Assembleia Legislativa de São Paulo (ALESP), que teve a presença do secretário estadual de Segurança Pública, Guilherme Derrite, do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), além de delegados e policiais militares.