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Excesso de energia leva ONS a estender cortes de geração a pequenas usinas pela primeira vez

BRCOM by BRCOM
junho 7, 2026
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Excesso de energia leva ONS a estender cortes de geração a pequenas usinas pela primeira vez


O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) informou hoje que acionou, pela primeira vez, o plano para gestão de excedentes de energia do sistema nacional. Ao todo, foi solicitada a suspensão da geração de 1.000 mega watts de energia entre 10h e 14h deste domingo, período de maior incidência solar e, consequentemente, geração de energia superior dessa fonte.
Pela primeira vez desde que o ONS passou a adotar essa medida para manter a segurança do sistema elétrico o corte de geração (chamado curtailment no setor) se estendeu a pequenas usinas geradoras conectadas a distribuidoras de energia, num sinal de desequilíbrio maior que o que vinha sendo registrado pelo órgão. A paralisação de geradoras que estão diretamente ao seu alcance, por meio do sistema interligado nacional, como as grandes hidrelétricas, não foi suficiente.
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A medida foi comunicada no sábado às distribuidoras, e ocorreu por conta da forte produção de energia, principalmente de matriz solar. Somou-se a isso o consumo baixo, ocasionado principalmente pelas temperaturas amenas (menos ventiladores e aparelhos de ar condicionado ligados), pelo fato de ser um domingo — quando há muito menos demanda da indústria e do comércio —, e pelo feriado prolongado.
Essa demanda mais baixa coincide com uma grande quantidade de geração que o sistema não consegue controlar (como a energia de fonte renovável) e com baixa capacidade de inércia, de controle de frequência e de controle de tensão — que são fundamentais para manter a segurança do sistema, evitando, por exemplo, apagões.
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Essas situações podem afetar a capacidade de o ONS manter a operação segura. Uma data considerada emblemática desse cenário foi o Dia dos Pais do ano passado, quando o sistema passou perto de um colapso momentâneo. Foi uma situação causada por um excesso de geração de energia por painéis solares e a falta de controle que o operador do sistema tem sobre esses aparelhos.
Coordenador-geral do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel), da UFRJ, Nivalde de Castro explica que, diariamente, o ONS estima qual deve ser a demanda de energia em todo o país. A partir daí, o órgão faz o manejo dos recursos da geração centralizada, que são as grandes usinas e que estão sob sua responsabilidade, como grandes hidrelétricas.
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Para este domingo, o ONS solicitou a redução da geração desses recursos dentro da sua gestão, mas não foi suficiente. Foi necessário também colocar em prática o Plano Emergencial de Gestão de Excedentes de Energia na Rede de Distribuição, aprovado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) no ano passado para evitar o colapso do sistema devido à sobreoferta de energia renovável.
— O crescimento da oferta, notadamente de plantas solares, por conta dos subsídios, tem crescido muito acima da necessidade de consumo. Se temos um desequilíbrio de muita oferta e pouca demanda, o sistema entra em blecaute, gera um apagão. Assim, em fins de semana em que a demanda cai, o operador obriga as geradoras a cortar a produção nesse período de 10h às 14h, quando há incidência de muito sol e vento — observa o especialista.
Doze distribuidoras afetadas
Dessa forma, o ONS acionou 12 distribuidoras para que reduzissem a geração em pequenas usinas conectadas diretamente às suas redes em suas áreas de concessão, uma vez que o operador não possui controle direto sobre essas fontes. Esse grupo foi priorizado por concentrar cerca de 80% de toda a potência instalada das usinas pequenas, inseridas o plano.
CPFL Paulista
Cemig (Cemig D)
Energisa MT
Copel (Copel D)
Neoenergia Elektro (Elektro)
Celesc
Equatorial GO
Energisa MS
Neoenergia Coelba (Coelba)
RGE
EDP Espírito Santo (EDP ES)
Neoenergia Pernambuco (Neoenergia PE)
Com a medida, as distribuidoras tiveram que cortar cerca de 23,5% da geração de usinas de pequeno porte, conectadas diretamente à rede de distribuição e que não são controladas pelo ONS. Foram afetadas as chamadas unidades geradoras centralizadas, como usinas solares e eólicas de menor porte, Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) e usinas a biomassa, que vendem a energia gerada.
Impacto financeiro
Desse modo, a medida não atingiu microgeradores que usam a própria energia gerada, como os consumidores residenciais e de pequenos empreendimentos comerciais que instalam placas solares nos telhados, que são as chamadas unidades descentralizadas. É um contingente crescente que o ONS não tem como interferir.
Castro, da UFRJ, observa que as distribuidoras têm autonomia para fazer a gestão dos cortes nas geradoras sob sua gestão, a partir de critérios técnicos. É a primeira vez que têm de seguir uma determinação do ONS. Para o especialista, no entanto, essa situação não deve provocar impactos financeiros significativos ao consumidor final, seja ele residencial ou de maior porte.
Quem deve sofrer perdas são as pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), fazendas solares ou outros negócios de geração de energia que tiveram a operação paralisada pela distribuidora da área. Isso porque essas empresas têm contratos de fornecimento a clientes, via mercado livre de energia.
Em caso de interrupção da operação, esses geradores deixam de receber pela energia que seria produzida e ainda precisam pagar pelo fornecimento aos clientes, que é assumido pela distribuidora.
Por exemplo: uma rede de supermercados tem um contrato mensal com uma pequena central hidrelétrica que fornece energia para abastecimento das lojas. Caso essa PCH tenha sofrido um corte de geração, as unidades do supermercado continuam abastecidas, mas pela distribuidora da região, que repassa a fatura à geradora afetada pelo corte.
— Essas empresas vão ter um prejuízo. Muitas dessas empresas devem levar isso à Justiça — prevê Nivalde de Castro.
‘Gargalo estrutural’
O operador disse, em nota, que seguirá acompanhando e coordenando ações no sistema, fazendo a gestão dos recursos disponíveis, de acordo com a demanda da sociedade em comunicação direta com os agentes do setor. “Segue também atento à nova realidade eletroenergética e trabalhando para garantir a segurança e a eficiência do sistema, de acordo com os procedimentos de rede vigentes”.
Também em nota, a Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee) afirmou que as empresas de energia elétrica estavam preparadas para executar o plano.
“Do ponto de vista operacional, a Abradee ressalta a necessidade de maior detalhamento dos procedimentos, permitindo que os eventuais cortes sejam feitos pelos geradores de acordo com critérios claros, robustos e definidos. A ausência desses pontos, na visão da Associação, pode trazer insegurança jurídica para todo o setor elétrico”, afirma a associação.
A entidade diz ainda que o desafio de operar o sistema em momentos de baixo consumo, em especial nos jogos do Brasil na Copa do Mundo e nos demais feriados civis e religiosos do ano, o segmento de distribuição entende que os problemas decorrentes do excesso de geração renovável já são uma realidade, sendo urgente e necessário o aprofundamento de políticas públicas que possam reorganizar o sistema e solucionar os gargalos existentes para evitar apagões.
Já a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica afirmou, em comunicado, que as medidas emergenciais estabelecidas pelo ONS, “embora necessárias”, evidenciam um “gargalo estrutural de aprimoramentos setoriais”. Para a entidade, faltam investimentos em mecanimsmos de flexibilidade, armazenamento de energia elétrica e controle de carga.
“A conjuntura deste domingo, com alta irradiação solar combinada à baixa demanda do feriado prolongado, não é uma anomalia: é um cenário previsível, recorrente em países que avançaram com sucesso na transição energética. A diferença é que esses países já se adaptaram a este novo normal, adotando instrumentos de flexibilidade e armazenamento de energia elétrica adequados. O governo brasileiro, por outro lado, ainda não entregou o que o setor elétrico reivindica há anos”, diz o texto.

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