O Partido pela Liberdade (PVV), sigla de extrema direita da Holanda, abandonou o governo nesta terça-feira, em uma medida que deve derrubar o Gabinete e provocar novas eleições apenas um ano após a formação da atual coalizão. O rompimento com os aliados, justificou o líder do PVV, Geert Wilders, aconteceu por discordâncias sobre a política de imigração no país.
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— Acabei de informar o primeiro-ministro que retirarei os ministros do PVV do Gabinete e que não podemos mais assumir a responsabilidade por isso — declarou Wilders. — Apoiei a política de asilo mais rigorosa, não a queda da Holanda, e nossa responsabilidade por este gabinete, portanto, termina neste momento.
O Partido pela Liberdade — uma legenda que já defendeu a proibição do Alcorão, o fechamento de escolas islâmicas e a interrupção total da aceitação de solicitantes de asilo — foi o mais votado nas eleições realizadas em novembro de 2023. Embora a maioria das siglas tradicionais terem prometido não se aliar aos extremistas, Wilders conseguiu formar um governo após seis meses de negociação, unindo três partidos de direita: o tradicional Partido Popular pela Liberdade e Democracia (centro-direita), que governou o país por 13 anos, o Movimento Camponês-Cidadão (partido populista pró-agricultores) e o Novo Contrato Social.
Embora os quatro partidos detenham uma maioria confortável de 88 das 150 cadeiras na Câmara dos Deputados, o arranjo de formação de governo nunca pareceu satisfatório para nenhum dos envolvidos — que também não demonstraram ter algum nível de confiança mútua. Nenhum líder partidário foi indicado como primeiro-ministro, com o acordo possível sendo a indicação de um funcionário público de carreira, Dick Schoof, sem cargo eletivo ou filiação partidária, para liderar o governo.
— Foi um casamento de conveniência — disse Janka Stoker, professora de liderança e mudança organizacional da Universidade de Groningen.
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A crise atual foi provocada pela abordagem do país à imigração. Wilders se mostrou frustrado com o que considera a lentidão na implementação da “política de imigração mais rigorosa de todos os tempos” — um plano de 10 pontos que deveria incluir o fechamento de fronteiras para requerentes de asilo, controles fronteiriços mais rigorosos e a deportação de cidadãos com dupla nacionalidade condenados por algum crime.
Os líderes dos outros três partidos da coalizão disseram que, embora não necessariamente se opusessem aos planos do radical — apelidado de “Trump holandês” por suas visões anti-imigração e seu penteado bufante, facilmente reconhecível —, mas queriam que ele os apresentasse na Câmara dos Deputados. Isso levaria mais tempo e não garantiria a implementação das propostas.
Em maio, o líder do PVV chegou a convocar uma coletiva de imprensa improvisada para ameaçar o governo, caso o plano não fosse implementado em poucas semanas. A pauta é um tema central em muitos países europeus, que veem o avanço de esforços anti-imigração mesmo em partidos que não são necessariamente considerados extremistas.
A crise política cria incerteza no cenário holandês e europeu — em se tratando da quinta maior economia e principal exportadora da União Europeia — às vésperas do país sediar uma reunião de cúpula da Otan, marcada para os dias 24 e 25 de junho. A convocação de novas eleições no país costuma ser um processo demorado, e a formação do governo, após os dois últimos pleitos, demorou mais de cinco meses.
— Qualquer eleição provavelmente será realizada após as férias de verão (inverso no Hemisfério Sul) — disse Sarah de Lange, professora de pluralismo político na Universidade de Amsterdã. — Novas eleições são prováveis, mas na Holanda, organizá-las leva quase três meses.
Dezoito meses apósa surpreendente vitória eleitoral do PVV, pesquisas de opinião ainda sugerem que a sigla tem a maioria da intenção de votos no país. Contudo, a diferença para os rivais diminuiu, com a coalizão entre Verdes, Esquerda e Trabalhistas, liderada pelo ex-vice-presidente da Comissão Europeia, Frans Timmermans, logo atrás.
O partido liberal VVD também está entre os primeiros — um sinal de que a disputa deve ser acirrada, mas dificilmente trará uma formação como a atual para um novo Gabinete. Irritado com a saída do PVV do atual Gabinete, a líder do VVD, Dilan Yesilgoz, disse temer que o novo pleito abriria as portas para partidos de esquerda.
— Estou perplexa, e presumo que seus eleitores também estejam — disse Dilan ao fim de uma reunião convocada pela coalizão que durou apenas 20 minutos. — Não acho que teremos outra maioria de direita.
Caroline van der Plas e Nicolien van Vroonhoven, líderes dos outros dois partidos da coalizão, classificaram a decisão de Wilders como “irresponsável”.
— Ele não está colocando a Holanda em primeiro lugar, está colocando Geert Wilders em primeiro lugar — disse Van der Plas, líder do partido pró-agricultores. — E eu o culpo por isso. (Com NYT e AFP)
