Aos 17 anos, Kirby Van Amburgh escreveu uma carta para o cantor Elliott Smith para agradecer pela influência que a sua música tinha sobre ela. Durante 23 anos, ela acreditou que o músico talvez nunca tivesse recebido a mensagem. Mais de duas décadas depois, porém, descobriu que Smith não apenas havia lido a carta como também escrito uma resposta, que nunca chegou a ser enviada de volta. O relato foi publicado por Kirby, hoje conhecida como Kirby Rock, no site americano The Huffington Post.
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A carta original foi escrita em 2000, quando Kirby era estudante do ensino médio em Dallas, nos Estados Unidos. Ela contou que se sentia profundamente conectada às músicas de Smith, apesar das diferenças entre os dois. Enquanto ele era um músico adulto, conhecido por seu estilo discreto e por letras sobre temas como solidão, drogas e bebida, ela era uma adolescente envolvida com atividades escolares e preocupada com a entrada na faculdade.
O que mais a aproximava do cantor, segundo o relato, era a vulnerabilidade que percebia em suas músicas.
— O que realmente me fascinava em Elliott era sua vulnerabilidade. Ele se expôs tanto em sua música, e quando eu ouvia suas canções, era como ler um diário — escreveu Kirby no The Huffington Post.
Ela também destacou o jeito suave de Smith cantar, seu dedilhado e a forma como sobrepunha as vozes nas gravações. Para ela, era como se o músico compartilhasse seus segredos diretamente com quem ouvia suas canções.
Kirby encontrou o endereço da gravadora Kill Rock Stars nas informações de um dos CDs do cantor e enviou a carta. Meses se passaram sem resposta. Ela chegou a imaginar que a mensagem tivesse sido enviada para o endereço errado.
A vida seguiu, Kirby foi para a faculdade e Smith não chegou a responder. Em 2003, o músico morreu aos 34 anos, após sofrer duas facadas no peito.
Carta foi encontrada mais de 20 anos depois
A resposta que Kirby não esperava veio apenas em 2023, quando ela tinha acabado de completar 40 anos. Uma antiga chefe encaminhou para seu endereço profissional uma mensagem de Jamie Fisher, jornalista que trabalhava em uma biografia sobre Elliott Smith.
Fisher perguntou se ela era a mesma adolescente que havia enviado uma carta ao músico por volta de 2000. Segundo a jornalista, a família de Smith ainda guardava a correspondência e ela queria saber se Kirby havia recebido alguma resposta.
A descoberta de que a carta havia chegado às mãos do cantor já emocionou a fã. Dias depois, Fisher enviou uma fotografia do documento original. Era uma carta escrita à mão, em duas faces de uma folha de caderno.
Nela, Kirby dizia que considerava a música de Smith “realmente viciante”, além de original e criativa. Contava que tocava piano e violão, cantava e tentava escrever suas próprias músicas. Também afirmava que o artista era uma inspiração para ela e que queria ser escritora.
No fim, escreveu que, mesmo que a carta nunca chegasse ao músico, teria valido a pena escrevê-la. A mensagem terminava com um agradecimento e um elogio ao cantor.
Durante a conversa com Fisher, Kirby também contou como havia seguido a vida desde a adolescência. Trabalhou como professora, passou uma década em uma organização sem fins lucrativos e chegou a escrever um romance infantil que nunca foi publicado. Também participou de um duo musical e lançou músicas de forma independente.
Ela explicou que, embora continuasse escrevendo profissionalmente, tinha se afastado da produção artística por medo de se expor. Foi nesse momento que Fisher revelou o motivo principal do contato.
— Elliott escreveu uma resposta para você — disse a jornalista.
Kirby contou que começou a chorar imediatamente. Fisher também se emocionou e explicou que a resposta estava guardada junto com a carta original.
‘Estava lá, esperando ser encontrada’
Segundo Fisher, não havia como saber por que Smith nunca enviou a carta. Ele poderia simplesmente não ter um selo ou ter se esquecido dela. O fato é que a mensagem permaneceu guardada durante anos.
Na resposta, Smith agradeceu a Kirby pela carta e disse que ela havia deixado seu dia mais feliz. O cantor também desejou sucesso na escrita, comentou sobre seu próprio interesse por literatura e recomendou a autora russa Mikhail Bulgakov.
Smith ainda revelou que, em alguns momentos, desejava ter escolhido a escrita em vez da música, especialmente porque seu trabalho frequentemente seguia caminhos diferentes dos gostos predominantes do público.
No trecho mais marcante da mensagem, o músico incentivou a adolescente a continuar criando e afirmou que o mundo precisava de toda a criatividade possível. Ele encerrou a carta com um coração.
A descoberta teve um efeito inesperado sobre Kirby. Depois da conversa com Fisher, ela decidiu retomar uma atividade que havia deixado de lado anos antes: a composição musical.
— Desde que minha filha nasceu, três anos antes, eu havia parado de frequentar meu grupo de compositores e não escrevia uma música ou sequer tocava meus instrumentos há muito tempo. Mas agora eu sentia o desejo de voltar a escrever e a fazer música, mesmo que fosse apenas para me trazer alegria — contou no The Huffington Post.
A biografia “Nobody Broke Your Heart”, escrita por Fisher, foi lançada em junho. O trabalho também inspirou um show na cidade natal de Smith, com a participação de artistas que conheceram o cantor ou foram influenciados por sua obra. A renda do evento foi destinada a organizações voltadas ao apoio a músicos e a pessoas em situação de rua.
Como Elliott Smith morreu
Elliott Smith morreu em 21 de outubro de 2003, então com 34 anos, na sua casa, em Silver Lake, Los Angeles, quando teve uma discussão com a namorada, a também musicista Jennifer Chiba. Durante a briga, Smith teria ameaçado tirar a própria vida, segundo o jornal britânico The Guardian. Chiba se trancou no banheiro e, ao ouvir um grito, voltou para a sala. Segundo seu relato, encontrou o músico de costas; quando ele se virou, ela viu uma faca de cozinha cravada em seu peito. Smith foi levado ao hospital e morreu cerca de 20 minutos depois, apesar de ter sido submetido a uma cirurgia de emergência.
Inicialmente, a morte foi tratada como suicídio, mas as circunstâncias levantaram dúvidas. O exame do legista apontou duas perfurações no peito, uma delas atingindo o coração, além de pequenos cortes nas mãos e sob o braço direito, descritos como possíveis ferimentos defensivos. Também não foram encontradas as chamadas lesões de hesitação, e o laudo concluiu que, embora o histórico de depressão e a direção dos ferimentos fossem compatíveis com suicídio, alguns elementos levantavam a possibilidade de homicídio. O caso permaneceu com resultado inconclusivo, enquanto a polícia mantinha a investigação aberta.

