No Brasil, estimam-se mais de 10 mil novos casos de lesão medular por ano. A disfunção no esvaziamento da bexiga é uma das principais alterações dessa condição, tornando necessário o uso de um cateter para drenar a urina. Muitos passam por internações recorrentes após contrair infecções urinárias. Atualmente, tanto no Sistema Único de Saúde (SUS) quanto na rede privada, o modelo mais amplamente disponibilizado ainda é o cateter de PVC, enquanto o hidrofílico é apontado por especialistas como alternativa para reduzir riscos associados ao procedimento.
O alerta foi feito durante a segunda edição do Coloplast Academy, evento realizado em maio, em Niterói (RJ), pela empresa, que é pioneira na criação do cateter hidrofílico há 25 anos e uma das principais parceiras das associações de pessoas com deficiência, entre elas aquelas com bexiga neurogênica e ostomizadas.
Embora o governo federal tenha aprovado, em 2019, a Portaria nº 37, que determina a incorporação ao SUS do cateter hidrofílico, considerado o padrão ouro de tratamento, a medida segue sem regulamentação sete anos após sua publicação. Para ser válida na prática, é preciso que seja incorporada pelos chamados Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas (PCDT), definidos pela União. Segundo fontes da indústria e associações nacionais da sociedade civil, não há previsão de quando isso deve ocorrer.
— Isso abre uma desigualdade no país: 90% da população que precisa desse produto não tem acesso. E o impacto é agressivo para o SUS, pois as infecções urinárias se agravam, assim como os gastos com antibióticos, consultas e hemodiálises — afirma Roberto Costa, Diretor de Acesso à Saúde da Coloplast Brasil, empresa dinamarquesa que é líder global no desenvolvimento de produtos e serviços de cateterismo intermitente limpo e também para quem vive com estomias.
O problema não se restringe ao risco de infecções, que acometem os pacientes em média 3,5 vezes ao ano. Há, ainda, piora na qualidade de vida e uma perda de autonomia significativa. Uma pesquisa realizada pela Coloplast com usuários com lesão medular mostrou que 84% se preocupam em ter uma infecção ao cateterizar; 50% têm receio de machucar a uretra; e 42%, de sentir dor.
Presente no evento, Clara Carvalho, presidente há 24 anos da Associação dos Deficientes Físicos do Estado de Goiás, teve uma lesão medular e se tornou cadeirante após sofrer um acidente de automóvel há 31 anos. Ela conta que toma mil cuidados para evitar infecções urinárias ao usar um cateter de PVC mais fino, porém menos lubrificado e menos prático do que o hidrofílico.
— Antigamente, usava-se um de alumínio. Depois veio o de PVC. Mas o ideal é o hidrofílico, muito superior aos outros. Estamos lutando, junto com as outras associações nacionais, para aprovar a regulamentação da portaria.
Para quem já conseguiu o acesso/adesão, a mudança é marcante. O atleta de rugby paralímpico Lucas Junqueira, craque da seleção brasileira da modalidade, conta ter decidido usar o cateter hidrofílico depois que precisou ir embora “no meio do rolê” em um bar na Vila Madalena, em São Paulo, porque tinha que ir para casa esvaziar a bexiga.
Com o modelo da Coloplast, Lucas — que acabou de conquistar medalhas de ouro inéditas com a seleção em torneios na Europa e na Oceania — consegue esvaziar facilmente sua bexiga em qualquer banheiro de avião. Assim como Clara, ele também teve uma lesão medular — quebrou o pescoço após bater a cabeça em um banco de areia ao furar uma onda.
— Antes, com o cateter de PVC, eu tinha muitas infecções e não conseguia dar continuidade ao esporte. Acabava sendo internado e perdendo treinos. Com o cateter hidrofílico, meu rendimento no rugby melhorou muito — conta Lucas, que também se formou em psicologia. — Com autonomia, somos capazes de ir muito longe.
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Quem também conhece bem as vantagens de uma vida mais independente é a empreendedora e influenciadora Andrea Schwarz.
— Minha vida mudou muito com o cateter SpeediCath. Sou louca por viagens, com ele ganhei muito mais autonomia. Já vem pronto para uso, cabe em qualquer bolsa, e você pode usar em qualquer lugar. Sempre tive infecções urinárias de repetição e elas diminuíram muito. Ganhei qualidade de vida — afirma Andrea, sem andar desde 1998 por causa de uma má-formação congênita na medula espinhal.
No caso dos cateteres SpeediCath, da Coloplast, o risco de infecção é ainda menor porque eles possuem uma tecnologia de lubrificação pronta para uso, sem necessidade de manipulação do cateter para preparo, o que também evita traumas na uretra e sangramentos. Além disso, têm um anel de abertura que facilita a retirada da embalagem sem contato direto com as mãos. Todas as características da tecnologia reduzem infecções em 55% e estenose uretral em 77%. Por fim, eles também permitem o esvaziamento completo da bexiga, não deixando urina residual (que pode provocar proliferação bacteriana).
Organizado pelo segundo ano seguido, o Coloplast Academy reuniu representantes de 11 estados de associações que defendem os direitos de pessoas com deficiência. O encontro debateu os temas mais caros às associações nacionais de pacientes, que têm um papel central na luta por políticas públicas no Brasil, entre eles sustentabilidade organizacional das associações, ética e compliance, saúde da pessoa com deficiência, mercado de trabalho, histórias de sucesso e as relações com as empresas privadas de saúde.
Fagna Freitas, gestora de captação de recursos das Obras Sociais Irmã Dulce, em Salvador (BA), explica que a organização — que atua 100% pelo SUS — precisa recorrer à iniciativa privada para garantir o acesso a insumos fundamentais para pacientes oncológicos e pessoas com deficiência física nos oito hospitais que administra.
— Temos uma área de captação muito atuante junto ao investimento privado. Não apenas o cateter, mas tudo o que permite atender a população de forma completa. Buscamos esses recursos para melhorar o atendimento e evitar que esse paciente chegue à diálise ou à hemodiálise — afirma.
Segundo ela, além da limitação de recursos, há entraves logísticos que agravam o quadro, especialmente em estados com grandes distâncias territoriais.
— Até que esse paciente seja regulado para atendimento, muitas vezes o quadro já se agravou — completa.
No entanto, os desafios de acesso e gestão no SUS não se restringem ao cateterismo intermitente, como destaca Gilberto Julho Koehler, Gerente de Relações Governamentais e Institucionais da Coloplast Brasil. Um exemplo está na distribuição de bolsas de colostomia. Segundo ele, a média no sistema público brasileiro é de sete a dez por mês para cada um dos 400 mil brasileiros ostomizados.
— Na Dinamarca, cada pessoa tem direito a 90 bolsas por mês, o que equivale a três por dia — afirma. — Apesar disso, o Brasil tem o melhor sistema de saúde do mundo. Temos que nos orgulhar do SUS, não existe nenhum sistema no planeta que atenda 213 milhões de pessoas.

