O cidadão americano-palestino Saif al-Din Kamil Abdul Karim Musalat foi morto durante um ataque de colonos israelenses na Cisjordânia ocupada na noite de sexta-feira, afirmaram familiares neste sábado, exigindo que Washington abra uma investigação para apurar o caso. Autoridades palestinas indicaram que duas pessoas, incluindo Musalat, morreram durante o confronto — o mais recente na escalada de violência envolvendo grupos judaicos na região.
- Generais revistados, manipulação de informação e cálculo político: Como Netanyahu prolongou a guerra em Gaza para se manter no poder
- Para entender: Israel tenta conter motim de colonos contra militares em meio a aumento da violência contra palestinos na Cisjordânia
O Ministério da Saúde palestino na Cisjordânia afirmou que Musalat foi espancado até a morte durante um ataque realizado por colonos contra a aldeia de Sinjil, ao norte de Ramallah. A segunda vítima foi identificada como Mohammed Rizq Hussein al-Shalabi, de 23 anos. Ele teria sido alvejado com um disparo de arma de fogo e deixado “sangrando por horas“, segundo as autoridades.
O Exército israelense afirmou que a violência começou depois que palestinos teriam lançado pedras contra um grupo de israelenses, ferindo levemente dois deles. Jornalistas da AFP testemunharam confrontos entre dezenas de colonos israelenses e palestinos em Sinjil na semana passada, onde estava prevista uma marcha contra os ataques de colonos a terras agrícolas próximas.
A família de Musalat disse estar “arrasada” com a morte do jovem de 20 anos, descrito como um homem “gentil, trabalhador e profundamente respeitado”, com forte ligação às suas raízes palestinas. No momento do ataque, ele estaria “protegendo as terras de sua família de colonos que tentavam roubá-las”, disseram os familiares.
Musalat, nascido e residente na Flórida, viajou para a Cisjordânia no mês passado para passar um tempo com familiares, segundo um comunicado divulgado pela família por meio de uma advogada. Entre as denúncias feitas pela família, alega-se que os colonos bloquearam uma ambulância e impediram os paramédicos de chegarem até o local enquanto o jovem estava ferido, e ele morreu antes de chegar ao hospital.
A morte foi descrita pelos parentes como um “pesadelo inimaginável” e uma “injustiça que nenhuma família deveria enfrentar”. Eles exigiram participação das autoridades americanas na apuração e responsabilização.
“Exigimos que o Departamento de Estado dos EUA conduza uma investigação imediata e responsabilize os colonos israelenses que mataram Saif por seus crimes. Exigimos justiça”, diz o texto.
Organizações de direitos humanos denunciaram um aumento da violência cometida por colonos na Cisjordânia, território ocupado por Israel desde 1967, sobretudo após o atentado terrorista lançado pelo Hamas da Faixa de Gaza em 7 de outubro de 2023. Em meio à guerra, tropas israelenses ou colonos mataram pelo menos 955 palestinos no território mais ao norte — muitos deles militantes, mas também dezenas de civis — segundo dados do ministério da saúde palestino, ao passo que 36 israelenses morreram.
Mesmo com o governo levando a frente uma política pró-colonos, autorizando inclusive a maior expansão de assentamentos judaicos em território palestino em décadas — algo denunciado como ilegal pela ONU —, em determinados momentos a violência de grupos extremistas se voltou contra militares israelenses. Os colonos exigem que o Exército tome partido das ações que lançam contra as populações palestinas.
As Nações Unidas afirmaram que os ataques promovidos pelos colonos ocorrem em um clima de “impunidade”. A organização israelense Yesh Din, que examinou mais de 1.600 casos de violência de colonos na Cisjordânia entre 2005 e 2023, concluiu que apenas 3% resultaram em condenação. No cenário internacional, grupos de colonos extremistas foram retirados da lista de sanções dos EUA após o retorno de Donald Trump à Casa Branca.
Cerca de 500 mil israelenses vivem em assentamentos na Cisjordânia — que autoridades de Israel se referem como Judeia e Samaria, nome bíblico da região —ao lado de três milhões de palestinos, sob um sistema jurídico de dois níveis que alguns grupos de direitos humanos comparam ao apartheid, acusação fortemente rejeitada por Israel. (Com AFP)