Nada dos looks superchiques de Celina, irmã de Odete Roitman (Debora Bloch). Malu Galli chega à entrevista de jeans skinny e tricô colorido, num café no Leblon, no fim de tarde de uma quinta-feira de outono. Antes de a conversa começar, pede um expresso e atende com doçura os pedidos de foto de frequentadoras do lugar. “Parabéns pelo trabalho”, dizem duas admiradoras nas mesinhas da calçada. Malu agradece de forma delicada, tal qual sua personagem no remake de “Vale tudo”, da TV Globo.
Ao contrário da irmã de Odete, a atriz carioca, de 53 anos, foi à luta de seus desejos e projetos. Mesmo sendo de família católica, “privilegiada, branca e moradora de Copacabana” e participando da vida festiva do Rio dos anos 1980 e 1990, sempre trabalhou muito. “Curti muito a adolescência. Tinha um grupo incrível de amigos, íamos do Circo Voador ao Baixo Leblon e Gávea, penetrávamos festas, tocávamos violão nas Paineiras, no meio da noite”, lembra-se. No Tablado, onde encontrou a vocação, entrou aos 10. Aos 21, graças à participação num comercial de cigarro dirigido por Walter Salles, ganhou dinheiro suficiente para sair da casa dos pais. Aos 27, passou a viver com o artista plástico Afonso Tostes, com quem está até hoje. Eles são pais de Luiz, de 24 anos.
Com carreira semeada no teatro e ingresso na TV aos 36, Malu tem se dedicado a decifrar as camadas que envolvem Celina e sua personalidade, aparentemente, abnegada. “Mesmo não sendo uma pessoa fraca, ela tem a autoestima ceifada por Odete”, pondera. Mas, diferentemente da primeira versão, em 2025, a tia de Heleninha ganhou um namorado, o marchand Estéban (Caco Ciocler). “Hoje, não dá para retratar uma mulher de mais de 50 anos sem colocá-la ativa sexualmente.”
Em duas horas de entrevista, Malu falou sobre “Vale tudo”, projeto musical, casamento, candomblé e etarismo.
A seguir, os melhores trechos da conversa:
Na primeira versão de “Vale tudo”, em 1988, não havia o termo relação tóxica. Como enxerga isso em família?
Na verdade, a família é um campo fértil para relações tóxicas. Sempre achei estranha a dinâmica entre a Celina e a Odete. Quando recebi o convite para fazer o remake, assisti à versão original. E fiquei me perguntando qual seria o motivo de a Celina aguentar aquilo tudo, daquela subserviência, que espécie de mecanismo era aquele. Ao receber o texto da Manuela (Dias, autora da nova versão), decidi apostar na possibilidade de uma relação tóxica. Com as cenas mais recentes, ficaram ainda mais evidentes a toxicidade e a manipulação de Odete. Quem está submetido a esse tipo de relacionamento se desacredita muito, não se acha capaz de dar um grito de liberdade. Em 1988, esse conflito das irmãs ficava numa camada subliminar. Agora, a Manuela está jogando luz.
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Como vê a entrada de um namorado para Celina na trama?
Falamos tanto em representatividade, e o Brasil é um país tão etarista. Então, colocar em cena uma mulher de 50 e poucos anos sexualmente anulada não faria sentido. Ainda mais uma cheia de posses, que conhece um monte de gente e circula livremente na sociedade. Alguns fãs da novela não gostam. Porque a tia Celina fica nesse lugar da “santa mãezinha” e não pode ter sexualidade. Mas grande parte do público acha natural.
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Como vê a transformação das mulheres com mais de 50 anos?
Há quatro anos, quando comecei a sentir os sintomas da menopausa, ninguém falava sobre o assunto. Mas se esquecem de que os homens também passam por isso, precisam fazer reposição hormonal, ficam deprimidos. Mas só nós, mulheres, parecemos ter vindo com “data de validade”. Esse momento, de “50+”, é de muita potência: temos vigor físico, experiência, malícia, repertório… É quando mulheres viram CEOs e ocupam cargos de liderança. Porém, no audiovisual, há um “apagamento”. Aos 20, ocupa-se o lugar de objeto sexual, aos 40, de mãe. Aos 50, a mulher não existe e, aos 70, volta a aparecer (como avó). Por isso fiquei tão feliz com o Globo de Ouro desse ano, em que as indicadas eram atrizes maduras com histórias escritas para elas. É superimportante mulheres atuarem na direção, na produção e no roteiro, e pegarem para si essa narrativa.
A Celina é uma mulher superchique. Deu sugestões no figurino e na caracterização?
Acho o cabelo das personagens determinante. Imaginei a Celina com esse visual, defendi os fios curtíssimos. O corte assinado por Vini Kilesse é atemporal e zero careta. Enquanto as cores da Odete são as sóbrias e as peças, de alfaiataria, as roupas da Celina são solares e de inspiração artsy.
Você vive há 26 anos com o artista plástico Afonso Tostes. Como resistir à passagem do tempo?
Não me preocupei em manter o casamento, aconteceu naturalmente. Enfrentei mais montanhas-russas na vida profissional e como mãe do que na relação com Afonso. Ele sempre foi alguém que me entendeu. Somos muito companheiros e nos divertimos com as mesmas coisas.
Assim como o casamento, tem altos e baixos. Estou sempre atenta a ele e a mim. Há períodos em que estou em outra, sugada pelo trabalho, que exige muito fisicamente. Às vezes, gasto tudo numa peça ou gravação. Com o tempo, adquire-se tranquilidade para esperar o outro, saber que ele volta. Nossa relação é monogâmica. Essa história de abrir o casamento é complicada, a balança nunca vai ser justa para os dois, e o rebote pode ser muito pior.
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Voltando à novela, a Celina vive de perto a questão do alcoolismo com a Heleninha. Como é a sua relação com a bebida?
Na novela “Amor de mãe” (2019), fiz uma socialite alcoolista, a Lídia. Naquela época, estudei bastante o tema, entrei em contato com o AA. Nunca tive problema com álcool nem me senti excedendo. Observo que essa questão vem mudando. Outro dia, li que a Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a associar a ingestão de álcool ao câncer, por ser tão nocivo quanto o cigarro e o amianto. Percebo que a nova geração não enxerga a bebida com mesma romantização da minha. Também mudei. Não saio mais para “beber” e, sim, para conversar. Se vou ou não tomar um drinque, decido depois. Mas esse não é mais o motivo.
E, no passado, como se relacionou com as drogas?
Na adolescência, fumei maconha, mas nunca foi a minha. Ficava muito lesada, com pressão baixa. Experimentei o estado lisérgico num determinado momento, para abrir a percepção. Tive experiências interessantes, que ampliaram minha sensibilidade artística. Mas foi um período curto, entre amigos, nunca mergulhei nas drogas. Fui uma adolescente como tantas outras.
Você se descobriu no candomblé. O que a religião lhe trouxe?
Cresci num ambiente católico e estudei num tradicional colégio de padres. Na adolescência, era meio esotérica. Em 2013, estava dirigindo uma tragédia grega, “Oréstia”, e comecei a estudar o panteão dos deuses e as forças da natureza, que têm tudo a ver com o candomblé. Fui conhecer uma festa para Exu e fiquei impactada. Comecei a frequentar e, depois, me iniciei. O candomblé me deu uma sensação de pertencimento, abriu minha visão de mundo para entender melhor o homem, a minha relação com a natureza e com o divino. Meu corpo é um templo de orixá. Levanto a bandeira do candomblé: terreiros vêm sendo atacados e depredados. O nome disso é racismo.
Quais são seus projetos pós-Celina?
Estou gestando um projeto musical que está me deixando entusiasmada: uma homenagem ao disco “Maravilhas contemporâneas”, de Luiz Melodia. Pretendo estabelecer um diálogo entre a música contemporânea de 1976 e a de hoje. Adoro cantar. Esse disco faz parte da trilha sonora da minha vida.
Edição de moda José Camarano. Beleza Vini Kilesse. Coordenação de produção de moda: Felipe Leão. Produção de moda SP: Victor Galaverna e Kisy Condé. Produção de moda RJ: Daiane Gomes e Pedro Delmas. Agradecimentos: Paula Furtado e Beto Goe