Todo dia é dia de assistir à TV, mas nenhum deles deixou tantas marcas e memórias nos brasileiros quanto o domingo — o dia do lazer, do encontro das famílias, dos almoços intermináveis, das atividades externas, do esporte… Quem algum dia já se aventurou a reivindicar a atenção para a telinha no domingo (esse dia em que as novelas e os telejornais, em nome da quebra da rotina, tiram seus times de campo) sabe o tamanho do desafio a ser encarado.
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Mas a complexidade da missão não impediu que, ao longo dos 60 anos de TV Globo, comunicadores tenham sido muito bem-sucedidos em encarar horas a fio de microfone, toda semana, para conquistar a fidelidade do telespectador no comando de um sedutor circo eletrônico com todo tipo de atração que cabe num programa de auditório. Entre os anos 1960 e 1970, a tarefa esteve com Silvio Santos (1930-2024), um mito da TV brasileira, que em 1976 saiu da Globo para fundar a sua própria emissora, a TVS (depois, SBT).
A tradição foi retomada em 1989 por Fausto Silva com o Domingão do Faustão, programa que seguiu ininterruptamente até 2021, sempre com a marca do dono — a da sinceridade e irreverência. No mesmo ano, Luciano Huck assumiu o Domingão, que se tornou “com Huck”.
— Tenho a absoluta consciência da responsabilidade e do privilégio que é poder conversar com 35 milhões de brasileiros simultaneamente num domingo à noite através da TV Globo. Acho que, por mais que as tecnologias estejam em transformação, o bom conteúdo sempre vai prevalecer, você apenas vai ter o maior número de ferramentas para distribuí-lo — diz Luciano Huck. — A TV aberta ainda tem relevância no Brasil, um país com dimensões continentais, com pessoas que falam uma única língua e que não têm dinheiro sobrando nem para pagar assinaturas, viajar ou ter experiências com suas famílias com tanta frequência.
Huck diz viver hoje um “momento único na história do domingo na Globo”.
— A gente pôde misturar os 32 anos do que o Fausto construiu no Domingão com os 21 anos que eu fiquei à frente do Caldeirão, e é o melhor dos dois mundos — explica. — Fico feliz de ter uma equipe competente, apaixonada. A gente trabalha incansavelmente para que o Domingão seja um programa relevante, divertido, gostoso de assistir, com opinião, com discussões importantes, com uma conversa contínua, com o microfone aberto e estendido ao povo.
Dia que começa religiosamente, desde 1968, com a Santa Missa em Seu Lar (hoje comandada pelo Padre Marcelo Rossi), o domingo da Globo segue em 2025 tendo, além do Domingão com Huck, programas como Globo Rural, Esporte Espetacular, Viver Sertanejo e os filmes do Temperatura Máxima e Domingo Maior.
Desde 1973, as noites de domingo da Globo são do Fantástico, a revista eletrônica que se tornou um dos programas mais populares da emissora — e que marcou época nos anos 1970 e 1980 com reportagens fortes e clipes musicais exclusivos, que antecederam até mesmo a americana MTV.
Antes de existir o Fantástico, quem mandava no fim de domingo da Globo era Abelardo Barbosa, o Chacrinha, com seus calouros, chacretes, atrações musicais e muita alegria: em 1969 com A Hora do Chacrinha e, de 1970 a 1972, com a Buzina do Chacrinha.
— O domingo é um dia difícil. O Faustão repetia muito isso: ele tem que abranger todo tipo de público, é quando a maioria das pessoas está de folga para ver TV. É um dia em que a programação tem que ser popular e, ao mesmo tempo, agradar ao anunciante — observa Rixa (ex-redator chefe do Vídeo Show e autor, junto com Bia Braune, do “Almanaque da TV”), para quem outro marco dos domingos da Globo é Os Trapalhões, humorístico que estreou em 1977 na Globo, permanecendo até 1995, tendo sobrevivido às mortes de Zacarias (1990) e Mussum (1994). — Quando tocava a música dos Trapalhões, a gente sentia um desconforto, porque ali acabava o fim de semana, no dia seguinte todo mundo tinha aula. Essa música, seguida do tema do Fantástico, traumatizou nossa geração.
Outro marco histórico foi Sai de Baixo (1996-2002), que firmou um espaço para o humor nas noites de domingo na Globo.
— Quando terminava o Fantástico, havia uma migração para o SBT, então o Silvio Santos botava um programa forte e aumentava a audiência — lembra Cláudio Paiva, redator final da Globo desde os tempos do TV Pirata, que foi chamado para dar uma mexida na sitcom, surgida a partir de uma ideia que o ator Luiz Gustavo havia levado para a Globo. — Eu tinha algumas regras para o programa, e a primeira delas era a de não topar a pauta política, porque o Fantástico já era uma dose pesada de realidade. O Sai de Baixo era um programa para as pessoas que tiveram que visitar suas famílias no domingo, para o cara que se encontrou com aquele cunhado chato ou a sogra que ficava enchendo o saco. Então, falei assim: “Vamos botar uma família ali, se digladiando de noite, para terminar o domingo mais leve.”
Nos anos 1980, as tardes de domingo foram de muita experimentação para a Globo, com seriados (como Alf, o ETeimoso), game shows (como Batalha dos Astros, apresentado por Luís Carlos Miele, e Guerra dos Sexos, por Osmar Santos) e programas musicais como Globo de Ouro, Cometa Loucura, Mixto Quente e Babilônia. Um dos que emplacaram foi justamente o Vídeo Show, que estreou em 1983, permaneceu como atração dominical até 1987, e depois seguiu seu caminho pela grade em diferentes dias, até 2019.
— Era um programa muito despretensioso e barato, que não tinha nem operador de câmera próprio no início, e as cabeças eram gravadas numa ilha de edição real — conta Rixa, que entrou no Vídeo Show como roteirista em 1984, tornou-se chefe de redação e só saiu quando a atração foi extinta. — Era um programa de colagem de memória, a Globo tinha um acervo grande, mas ninguém via mais aquele material todo depois do dia da exibição.
