A entrada de dezenas de milhares de migrantes do Marrocos em Ceuta, o pequeno território espanhol no norte da África, deixou mais de 30 mortos e desatou uma crise política doméstica e externa para o governo espanhol, favorável à imigração. Em um posto de fronteira durante uma visita a Ceuta, o premier da Espanha, Pedro Sánchez, condenou as “máfias envolvidas no tráfico de pessoas que enganam muitos jovens, muitos dos quais acabam perdendo a vida”. Ele informou que mais 400 policiais haviam sido enviados para a fronteira de Ceuta com o Marrocos.
Na véspera: Espanha enviará soldados para reforçar a segurança em Ceuta após entrada em massa de migrantes do Marrocos
‘Formigueiro humano’: Vídeos mostram entrada em massa de migrantes na cidade espanhola de Ceuta
Enquanto os opositores conservadores de Sánchez classificaram o fluxo de invasão do território espanhol, críticos da imigração ligados à direita em toda a Europa começaram a citar as cenas de Ceuta para embasar seus argumentos contra a livre circulação, com alguns países, liderados pela Itália, defendendo suspender Madri do Espaço Schengen — a zona europeia de livre circulação. Nos EUA, o presidente Donald Trump descreveu a situação em Ceuta como uma advertência para seu país.
A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, que adota uma linha dura contra a imigração, disse que as imagens de Ceuta eram “chocantes”, afirmando que demonstram como a “imigração ilegal descontrolada representa uma ameaça real à segurança das fronteiras da Europa”. Já o ministro das Relações Exteriores italiano, Antonio Tajani, acusou Sánchez de incentivar a migração para Ceuta, declaração que levou o chanceler espanhol, José Manuel Albares, a convocar o embaixador da Itália em Madri.
Centenas de migrantes retornam ao Marrocos após entrarem no enclave espanhol
O apelo italiano para suspender a Espanha da zona de livre circulação europeia não ecoou sozinho. A Finlândia demonstrou apoio à iniciativa nesta sexta-feira, com a ministra do Interior finlandesa, Mari Rantanen, argumentando que países que “não cumprem a sua obrigação de proteger a fronteira externa” não podem ser membros do Espaço Schengen. Afirmando que a imigração descontrolada ameaça a Europa e a Dinamarca, a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, afirmou que a “UE deve tomar imediatamente todas as medidas necessárias e contemplar todas as opções, incluindo suspender a cooperação Schengen”.
A França anunciou nesta sexta-feira que reforçará os controles na fronteira espanhola devido à crise migratória, com o presidente Emmanuel Macron oferecendo às “autoridades espanholas todo o apoio que possa ser necessário, no caso de que o solicite”. O premier britânico, Andy Burnham, também ofereceu apoio, acrescentando que, apesar de ser uma questão que compete ao governo espanhol, “suscita preocupação”.
Initial plugin text
Uso político pelo governo Trump
Já Trump instrumentalizou politicamente a situação espanhola, afirmando que cenas semelhantes poderiam ocorrer nos EUA “daqui a três anos se o lado errado vencer”, aludindo às próximas eleições presidenciais americanas, de acordo com uma repórter da Fox News que conversou com o republicano. “Se os democratas chegarem [ao poder], não vamos viver muito bem”, acrescentou, sempre segundo o correspondente de Fox na Casa Branca.
Um dos conselheiros mais próximos de Trump, Stephen Miller, considerado um “falcão” da política antimigratória, compartilhou no X um vídeo da chegada de migrantes a Ceuta e também criticou os democratas.
Além dos cálculos de política interna, Trump está envolvido em um impasse diplomático tenso com o governo Sánchez, um dos mais hostis à sua diplomacia agressiva. Os Estados Unidos consideram a Espanha um parceiro deficiente na Otan (aliança militar ocidental), uma vez que Sánchez se recusou a elevar os gastos militares para 5% do PIB, como fizeram outros membros da organização.
Initial plugin text
Sánchez também se opôs ao uso de instalações militares dos EUA em território espanhol para uma ofensiva contra o Irã e criticou duramente a morte de civis em Gaza por parte de Israel. Ao mesmo tempo, o governo Trump fortaleceu os laços com o governo do Marrocos, um de seus aliados na África.
Fluxo similar à população local
O governador espanhol da região de Ceuta, Juan Jesus Vivas, anunciou nesta sexta que o total de travessias já havia quase igualado a população total do enclave, que é de cerca de 83 mil pessoas.
— As estimativas indicam que cerca de 60 mil pessoas entraram na nossa cidade como resultado deste evento — afirmou Vivas. — Esse número demonstra que é impossível absorver tamanha pressão. É completamente impossível.
Em meio à rápida evolução da situação, o Ministério do Interior da Espanha apresentou uma estimativa um pouco mais baixa, informando que cerca de 50 mil pessoas haviam entrado no território. Deste total, disse, mais de 25 mil das pessoas que haviam atravessado já deixaram o local.
Multidão tenta atravessar para a Espanha após falsos rumores de abertura da fronteira
O motivo exato da súbita onda de migração procedente do Marrocos ainda não está claro. A rede britânica BBC apontou que o pico de travessias ocorreu após uma decisão da Suprema Corte espanhola sobre a interceptação de migrantes no mar ao tentar chegar a Ceuta ou a Melilla (cidade autônoma espanhola localizada no norte da África, às margens do Mar Mediterrâneo), indicando que eles não podem mais ser sumariamente devolvidos ao vizinho africano. Já várias pessoas entrevistadas pela AFP mencionaram boatos sobre a abertura das fronteiras e uma grande quantidade de publicações nas redes sociais ou em plataformas muito utilizadas pelos jovens, como o Discord.
Politicamente, os governos espanhol e marroquino também passam por um momento de turbulência. Sánchez visitou a Argélia, país que apoia a independência do Saara Ocidental, um território reivindicado por Rabat, em 20 de julho. Em 2021, quando outra grande crise foi registrada na fronteira, com 10 mil migrantes cruzando em direção a Ceuta, o governo marroquino flexibilizou controles fronteiriços após a Espanha receber em seu território, para tratamento médico, o líder da Frente Polisário, que luta pela independência do Saara Ocidental.
Com New York Times e AFP

