Charlie Kaufman vive um paradoxo. O diretor e roteirista nova-iorquino de 66 anos é um dos homenageados da 49ª Mostra de Cinema de São Paulo, onde apresenta o curta “Como fotografar um fantasma”, que teve sua estreia mundial no Festival de Veneza este ano. Na próxima quarta-feira (22), ele conversa com o público na Sala Petrobras de Cinema sobre trajetória que inclui os roteiros de “Quero ser John Malkovich” (1999), “Adaptação” (2002), ambos para Spike Jonze, “Brilho eterno de uma mente de sem lembranças”, (2004), de Michel Gondry, pelo qual recebeu o Oscar, e “Sinédoque, Nova York” (2008), um dos três longas que dirigiu.
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Pois o sujeito celebrado com razão como um dos mais criativos autores do audiovisual no planeta não consegue tirar do papel seu mais novo longa, “Later the war”, ainda sem título em português. Mesmo após escalar como protagonista o inglês Eddie Redmayne, que levou a estatueta de melhor ator em 2015 pelo papel de Stephen Hawking em “A teoria de tudo”.
Há cinco meses as filmagens foram subitamente interrompidas em Belgrado, capital da Sérvia, por falta de verba. E não se sabe se a história inspirada em texto do jovem e premiado israelense Iddo Geffen, em torno de um criador de sonhos que diversifica sua produção para investir em pesadelos, trama decididamente kaufmaniana, chegará às telas. Sinal dos tempos.
—Ainda tenho esperança de terminar de filmar essa história, mas fazer cinema hoje é muito, muito mais difícil. Nos Estados Unidos, há muito, muito menos interesse em se financiar aquilo que não é percebido de bate-pronto como comercialmente viável. Mas ainda não desisti — disse o diretor ao GLOBO, no Centro da capital paulista em manhã de primavera com temperatura típica de verão paulistano.
Apesar de o termômetro ultrapassar os 30 graus na rua Augusta, Kaufman veste três camisas. Uma branca básica por baixo, outra de gola em tom mais escuro por cima, e uma quase-jaqueta, marrom, a fim de enfrentar aparelhos de ar-condicionado. A barba está menos farta e o cabelo um pouco mais domado do que em imagens recentes. Apesar da voz baixinha, ele se revela mais inquieto e provocador do que nunca.
— Hoje, a vasta maioria dos títulos que Hollywood produz é nociva para o público. Com pouquíssimas exceções, são filmes que prejudicam, não mais elevam, a alma das pessoas — critica.
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“Como fotografar um fantasma” busca, claro, ele frisa, ser o oposto disso. O curta se dá em uma Atenas surreal. Tempos passados — tanto o da glória milenar grega quanto o dos horrores da ditadura dos anos 1970 — e o presente de uma cidade repleta de turistas e refugiados se interpõem. Uma das melhores sacadas é o paralelo feito entre os dois grupos para os quais europeus torcem cada vez mais o nariz, de causar um engasgo desconfortável na plateia.
As ruas da cidade são percorridas por dois jovens recém-falecidos, vividos pela irlandesa Jessie Buckley e por Josef Akiki, ator libanês celebrado no Oriente Médio. Seus personagens só enxergam de fato a beleza de suas breves existências (marcadas por doloridos embates com os respectivos pais) após perderem a vida.
Debruçar-se sobre a teia da mortalidade não é novidade na obra de Kaufman, mas esta é a primeira vez que ele o faz sem o uso de diálogos. Conta somente com as vozes dos atores e a da roteirista, a poeta canadense Eva H.D., radicada em Nova York.
— Nunca havia dirigido uma história sem falas além da narração. Foi um exercício difícil, mas recompensador — diz o diretor.
Kaufman veio ao Brasil acompanhado da escritora. Ela é sua parceira, além do filme no cardápio da Mostra, no curta que ele dirigiu ano passado, “Jackals & fireflies”, ambientado na cidade em que os dois vivem. E, na ponta do lápis, Eva H.D. também foi destaque no mais recente longa do diretor, “Estou pensando em acabar com tudo”, lançado pela Netflix há cinco anos.
Nele, a protagonista, vivida pela mesma Jessie Buckley (“atriz fenomenal, com quem quero sempre trabalhar”, diz Kaufman), se debruça em determinado momento sobre o poema “Bonedog”, dos versos “o Sol sobe e desce como uma prostituta exausta, o tempo está imóvel como um membro quadrado, enquanto você apenas segue envelhecendo”.
Assim como a literatura de Eva H.D., “Como fotografar um fantasma” convida a audiência a refletir sobre o legado construído por cada um de nós. A menos de um mês de chegar aos 67, Kaufman também olhou para trás, a pedido de O GLOBO, “algo que não faço amiúde”:
— A essa altura posso dizer que tentei, com meus trabalhos, não aumentar a quantidade de lixo oferecido pela indústria do cinema nos EUA. Busquei ser o mais honesto possível nas minhas experiências neste mundo. E naquilo que as transformei.

