Com a sala cheia e clima de celebração, o Festival de Cinema de Vitória encerrou, no último dia 24, sua 32ª edição com números inéditos e homenagens marcantes. Realizado no histórico Teatro Glória, no Centro da capital capixaba, o evento exibiu 106 obras audiovisuais — mais de um terço deles produzidos no Espírito Santo — e recebeu um recorde de 1.374 obras inscritas, consolidando-se como a principal vitrine audiovisual do estado e uma das mais longevas do Brasil.
“O cinema brasileiro vive um dos momentos mais bonitos. Três indicações ao Oscar para “Ainda Estou Aqui” e uma estatueta na categoria Melhor Filme Internacional dizem muito sobre o que representa essa marca inédita. O nosso setor está pulsando”, acredita Lucia Caus, diretora do Festival de Cinema de Vitória.
De 19 a 24 de julho, o público teve acesso gratuito a uma programação que incluiu 11 mostras competitivas com curtas, longas e videoclipes, debates com realizadores e votações populares. Para a produtora executiva do festival, Larissa Delbone, que vivencia o evento desde a infância, a acessibilidade é parte fundamental do sucesso.
“Temos todo o cuidado para incluir o público de diversas regiões da Grande Vitória. A plateia é plural nas esferas de classe, gênero e raça. O sucesso do festival se consolida na expressiva participação das pessoas. Foram cerca de 22 mil nesta 32ª edição. Em um mundo de telas pequenas, é mágico ver salas de cinema lotadas”, disse Larissa, filha de Lucia, que relembrou os primeiros anos da festividade com projeções em película.
“Eu achava mágico quando as luzes se apagavam e começava a ouvir o som do projetor girando. Desde aquela época já achava o festival gigante. É um lugar onde os sonhos são possíveis, onde o encantado e a realidade se misturam, nem que seja por 60 minutos”, revela.
A edição de 2025 também refletiu o fortalecimento do mercado local. Segundo Larissa, o audiovisual capixaba vive uma fase de identidade consolidada, com obras contemporâneas, potentes e bem-produzidas, que dialogam com temas nacionais.
O reconhecimento veio em forma de prêmios. “O Deserto de Akin”, de Bernard Lessa, levou o Troféu Vitória de Melhor Filme pelo Júri Popular e Melhor Fotografia, para Heloísa Machado. “A Invenção do Orum”, de Paulo Sena, foi eleito o Melhor Filme da Mostra Competitiva Nacional de Curtas pelo Júri do Prêmio Canal Brasil de Curtas e “Sola”, de Natália Dornelas, foi escolhido como Melhor Filme pelo Júri Popular na Mostra Competitiva Nacional de Curtas.
“Ser selecionada para um festival como o de Vitória é uma chance de trocar com o público, com outros diretores, com gente que está fazendo cinema no Brasil. É um espaço de encontro, de reconhecimento e de escuta. Mas é também uma forma de afirmar que o cinema é um lugar onde insistimos em existir e contar as nossas histórias”, celebra a diretora Natália Dornelas, nascida em Viana, no Espírito Santo.
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O curta “Sola”, que teve sua estreia nacional no evento, aborda, de forma sensorial, as trajetórias de mulheres negras que, mesmo em espaços de poder, ainda enfrentam invisibilidade. Após a sessão, a cineasta conta que recebeu inúmeros desabafos, principalmente de parte do público que se identificou com a personagem. “Foi muito potente perceber que o filme conseguiu tocar as pessoas dessa forma.”
Das 1.374 inscrições nesta edição, 443 foram de filmes dirigidos por pessoas com identidade de gênero feminina. Para Lucia Caus, esse número representa um avanço importante.
“As mulheres estão presentes em quase 100% das produções deste ano. Temos acompanhado o crescimento da presença delas não só na direção, mas em diversas funções do cinema”, comemora a diretora do festival.
A 32ª edição foi marcada pela homenagem a Ney Matogrosso, um dos mais cultuados nomes da cultura brasileira. Em uma cerimônia emocionante, o artista, que neste ano comemora 50 anos de carreira solo, subiu ao palco para receber o Troféu Vitória e o “Caderno de Homenagem”, uma publicação biográfica inédita sobre sua vida e obra, escrita pelos jornalistas Leonardo Vais e Paulo Gois Bastos. Em breve, o material estará disponível gratuitamente no site do festival.
“Desde criança, sempre fui ao cinema e ficava muito impressionado com as pessoas naquela tela. Sou da música, mas também sou dos filmes”, disse o artista, aplaudido de pé por uma plateia que, em um dos momentos mais acalorados da noite, vestiu máscaras inspiradas em sua maquiagem da época do grupo Secos & Molhados. A cerimônia foi seguida da exibição do longa-metragem “Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha”, de Helena Ignez, no qual Ney interpreta um dos criminosos mais temidos dos anos 1960.
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A programação também celebrou a atriz, diretora e produtora Verônica Gomes, uma das mais importantes artistas do Espírito Santo, com uma trajetória expressiva nos palcos e nas telas.
Compromisso com o acesso e a cultura
Desde sua criação, o Festival de Cinema de Vitória mantém entrada gratuita, com o objetivo de formar plateias e democratizar o acesso ao audiovisual brasileiro. A 32ª edição teve patrocínio da Petrobras e patrocínio institucional do Instituto Cultural Vale e do Banestes, por meio da Lei de Incentivo à Cultura. A realização é da Galpão Produções e do Instituto Brasil de Cultura e Arte (IBCA).