Assassinado com mais de 20 tiros no oitavo andar do Hotel Transamérica, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, Haylton Carlos Gomes Escafura — filho do bicheiro José Caruzzo Escafura, o Piruinha — já sabia que era um homem marcado para morrer.
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A confirmação desse pressentimento está nas mensagens extraídas de seus celulares, apreendidos no local do crime. Em uma delas, Haylton desabafa: “Já não chega ele me ameaçar”. O relatório de análise de dados telefônicos do Ministério Público do Rio (MPRJ), ao qual o Blog Segredos do Crime teve acesso, aponta que o autor da ameaça seria o contraventor Marcelo Simões Mesqueu, o Marcelo Cupim.
O crime ocorreu em 14 de junho de 2017, apenas seis meses após Haylton deixar o presídio. Na ocasião, ele estava acompanhado da policial militar Franciene de Souza, que também foi morta. Duas semanas depois, em 30 de junho, a 4ª Vara Criminal da Capital decretou a prisão preventiva de Cupim, acusado de ser o mandante, com base em denúncia do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MPRJ. Na semana passada, a defesa tentou reverter a decisão por meio de habeas corpus, mas a 1ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça manteve a prisão.
O que revelaram os celulares de Haylton
As mensagens encontradas nos celulares de Haylton permitiram aos analistas do Gaeco reconstruir uma negociação iniciada em abril de 2017. Nessas conversas, o interlocutor mais frequente não era Cupim, mas seu braço direito: o policial inativo Adriano Maciel de Souza, o Chuca. Apresentando-se como amigo, ele intermediava as tratativas para manter a vantagem do patrão sobre os pontos do jogo do bicho que pertenciam a Piruinha e haviam sido arrendados a Cupim após a prisão do herdeiro, em 2012. A área do clã Escafura corresponde a pelo menos15 bairros da Zona Norte, de Madureira ao Engenho Novo.
Os diálogos extraídos com o uso do software Cellebrite revelam que Haylton pretendia pagar um valor que considerava justo para reaver o negócio. Ele deixava claro que o retorno dos pontos contava com o apoio do pai e, segundo dava a entender, com a anuência da velha cúpula da contravenção, da qual Piruinha fazia parte. O veterano bicheiro morreria anos depois, em janeiro deste ano, vítima de pneumonia.
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Em uma troca de mensagens datada de 26 de abril de 2017 — menos de dois meses antes da execução —, Chuca aconselha Haylton a acelerar o pagamento:
“Pelas contas q vcs fizeram. Faz o possível p arrecadar o maximo e da logo p ele. Entendeu?” (sic).
Surpreso, Haylton pergunta:
“Não te falei nada tá. Vê o que vc tem q da pra ele de $$$ e da logo. Qualquer coisa vc quis me chamar e mandou eu entregar”.
O filho de Piruinha, então, atribui o atraso a Cupim:
“Mas pq quem ta atrasando e ele nao eu”. (sic).
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Segundo a denúncia do Gaeco, Chuca teria explicado que o pagamento rápido evitaria problemas futuros — alerta que fez Haylton sentir-se ameaçado. Por isso, respondeu:
“Problema po irmão acha q to com medo e meu pai querendo e nao to sozinho nao. Tem mais nao fiz isso sem respaldo de quem pode falar”. (sic).
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O acordo inicial para a retomada dos pontos de bicho havia sido fechado em R$ 500 mil, além de um “adiantamento” de R$ 50 mil feito por Piruinha aos arrendatários. Uma planilha encontrada no telefone de Haylton indicava que ele já havia pago R$ 550 mil. O mesmo documento registrava a arrecadação das bancas, somando cerca de R$ 790 mil — possivelmente por mês — das que ainda estavam sob o domínio do clã Escafura.
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Apesar disso, Cupim teria exigido mais dinheiro para fechar o negócio, o que gerou desconfiança na vítima. Chuca decidiu se afastar da negociação e aconselhou o filho de Piruinha a falar com o irmão do arrendatário, Cláudio Mesqueu.
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Em um diálogo de 27 de abril de 2017, Haylton disse a Chuca que a situação tinha ficado “feia” devido à falta de palavra de Cupim nos negócios e que Piruinha estava “pilhado”. Por isso, afirmou que tomaria “cuidados”. Segundo a denúncia do Gaeco, essa conversa demonstrou a “deterioração” da relação com Cupim e a “real possibilidade — posteriormente concretizada — de ser alvo do seu concorrente”:
“E ficou feio aqui meu pai ta pilhado. E sabe q agora ta serio vo tomar meus cuidados mas relembrando q vc so sai se quiser” (sic), disse Haylton.
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A primeira remessa, de R$ 550 mil, foi entregue pessoalmente por Haylton na “boate de pocker” de Cupim, na Barra — que os investigadores acreditam ser a Boate All In. Antes do encontro, ele confidenciou a Chuca que estava preocupado com um possível ataque. Ainda assim, decidiu ir sozinho, justificando que confiava nele:
Valeu posso ir eu q não vai ter ko na rua ne irmao vou sozinho na sua confiança. Sua e mais nada. Eu sozinho entrego a você”, disse.
No dia 30 de abril, Haylton reclamou que Cupim havia inventado novas despesas que, somadas, chegariam a R$ 2,5 milhões — sem contar os R$ 550 mil já pagos. A conta ultrapassava os R$ 3 milhões. Foi nesse momento que ele afirmou que Cupim teria que matá-lo. Pouco tempo depois, foi exatamente o que aconteceu.
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O medo já o acompanhava. Uma testemunha ouvida na Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) relatou que, após ser solto, Haylton “não saía muito” porque estava com receio. Um parente confirmou a versão, contando que, ao deixar a prisão, ele disse que, se “durasse um ano, estaria no lucro”. Sobreviveu apenas metade desse tempo.