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Filme sobre Elon Musk levanta suspeita de interferência eleitoral e relaciona desejo por 'legião de filhos' a medo do apocalipse

Às vésperas da eleição presidencial americana de novembro de 2024, Elon Musk teria demonstrado uma segurança incomum na vitória de Donald Trump. Antes da divulgação dos resultados oficiais, ele teria dito à influenciadora Ashley St. Clair, mãe de um de seus 14 filhos conhecidos, que iria “liberar a anomalia na matriz” e que tinha “10 […]


Às vésperas da eleição presidencial americana de novembro de 2024, Elon Musk teria demonstrado uma segurança incomum na vitória de Donald Trump. Antes da divulgação dos resultados oficiais, ele teria dito à influenciadora Ashley St. Clair, mãe de um de seus 14 filhos conhecidos, que iria “liberar a anomalia na matriz” e que tinha “10 mil lasers no espaço”. O relato tem sido apontado pela mídia estrangeira como um dos mais impressionantes de “Musk”, novo documentário do cineasta americano Alex Gibney, que estreou nesta terça-feira (8) no Festival de Cinema de Veneza e levanta suspeitas sobre o poder do homem mais rico do mundo para interferir na política americana.
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Segundo St. Clair, que é uma das principais personagens do longa de quase quatro horas, Musk demonstrava, ainda antes da apuração dos votos, “um grau de certeza” que ela nunca tinha visto. Embora não apresente provas de que o magnata tenha interferido na eleição, Gibney relaciona a declaração de St. Clair ao aparato tecnológico controlado pelo bilionário, que inclui a rede de satélites Starlink.
A preocupação sobre possíveis interferências de Musk no processo democrático é reforçada pelo cientista Geoffrey Hinton, vencedor do Prêmio Nobel de Física e conhecido como um dos “padrinhos da inteligência artificial”. Ex-amigo do dono da Tesla, ele teme que o empresário possa usar dados obtidos durante sua passagem pelo Departamento de Eficiência Governamental (Doge), criado no segundo mandato de Trump, para interferir em futuras eleições. “Se você quisesse corromper as eleições de meio de mandato (marcadas para novembro) e usar inteligência artificial, tudo o que precisaria fazer seria obter informações detalhadas sobre os cidadãos americanos. E o que o Doge fez se parece exatamente com o que você faria”, diz Hinton.
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À frente do Doge, Musk participou de cortes na máquina federal e obteve acesso a bases de dados governamentais. O filme sugere que esse interesse por informações dos cidadãos americanos pode estar ligado também aos projetos de inteligência artificial do empresário.
É dessa concentração de poder que nasce a pergunta mais inquietante de “Musk”: o que pode fazer um homem que controla simultaneamente uma rede social global, uma empresa de inteligência artificial, uma constelação de satélites, uma montadora que recolhe grandes volumes de dados e uma companhia espacial profundamente ligada ao governo americano?
Com 225 minutos de duração, “Musk” acompanha o empresário desde os tempos de jovem empreendedor do Vale do Silício até sua conversão ao trumpismo, quando se tornou personagem central da política americana. Gibney, vencedor do Oscar e autor de documentários sobre a Igreja Católica, Vladimir Putin e a fraude da empresa de biotecnologia Theranos, começou o projeto no fim de 2022, antes da aproximação mais explícita de Musk com o movimento Maga (“Make America Great Again”).
O bilionário se recusou a ser entrevistado e classificou o projeto como um “hit piece”, expressão usada para trabalhos concebidos para destruir a reputação de alguém. Em resposta à negativa, o diretor decidiu usar inteligência artificial para criar um avatar digital de Musk, treinado a partir de declarações reais do empresário. O personagem aparece ao longo do longa falando sobre Marte, exploração espacial e sua crença de que a realidade pode ser uma simulação.
‘Legião de filhos’
Musk tem 14 filhos conhecidos publicamente, mas fontes ouvidas por Gibney afirmam que pode haver outros. De acordo com St. Clair, o empresário lhe escreveu dizendo que precisava ter uma “legião de filhos antes da guerra civil”. Depois que a relação dos dois terminou, ela afirma ter recebido uma proposta de US$ 15 milhões, mais US$ 100 mil mensais durante 21 anos, condicionada à assinatura de um acordo de confidencialidade. Ela recusou. A influenciadora diz ainda que Musk procurava outras mulheres pelas redes sociais com o objetivo de engravidá-las e descreve a abordagem como uma “metralhadora de esperma nas DMs”.
O filme associa a obsessão de Musk pela natalidade a seu temor de um colapso civilizacional e procura as raízes desse medo na infância na África do Sul, durante o Apartheid. Errol Musk, pai do empresário, relata no documentário ter matado a tiros três homens que invadiram a casa da família. “Não há dúvida de que ele teve uma infância traumática. Agora ele está projetando seu trauma sobre todos nós”, disse Gibney em Veneza.
‘Cara de engenheiro’
Um dos principais alvos do escrutínio de Gibney é a Tesla. O diretor destaca tanto as promessas de Musk sobre a capacidade de direção autônoma de seus carros como os acidentes envolvendo o Autopilot. Um dos casos ocorreu na Flórida, em 2019, quando um Tesla atravessou um cruzamento e bateu em outro veículo, matando a jovem Naibel Benevides Leon, de 22 anos, e ferindo seu namorado. Um júri considerou a empresa parcialmente responsável pelo acidente e determinou o pagamento de US$ 243 milhões em indenizações. A Tesla recorre.
O filme também explora as contradições da ideologia capitalista de Musk: embora ele tenha se tornado um crítico feroz do tamanho do Estado, suas empresas cresceram com contratos e incentivos governamentais. A SpaceX, por exemplo, tornou-se fornecedora da Nasa e das Forças Armadas.
Gibney reconhece, porém, que Musk se diferenciou de outros milionários do Vale do Silício ao investir a fortuna obtida com empresas como Zip2 e PayPal em engenharia, carros elétricos e foguetes. Imagens antigas mostram um Musk tenso durante lançamentos da SpaceX. Sua primeira mulher, Justine Musk, conta que até a aparência dele era cuidadosamente planejada: ele dizia que não podia parecer “cool” porque precisava “ter cara de engenheiro”.
O documentário recupera ainda os conflitos do bilionário com a primeira esposa e com Vivian Jenna Wilson, sua filha trans, de quem ele se afastou, e contrapõe sua ambição de “salvar a humanidade” à dificuldade de demonstrar empatia nas relações pessoais.
Exibido fora de competição em Veneza, “Musk” estreia nos cinemas americanos em 16 de outubro. Depois da première, uma ex-integrante da equipe de comunicação do Doge classificou o documentário como “ficcional” e um “ataque de um diretor de Hollywood”. Musk respondeu à publicação com uma palavra: “Exatamente”.

Filme sobre Elon Musk levanta suspeita de interferência eleitoral e relaciona desejo por 'legião de filhos' a medo do apocalipse

Autor

BRCOM