A promulgação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala de trabalho 6×1 reuniu autoridades do Executivo e do Legislativo, além de integrantes da coordenação da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A sessão expôs o clima amistoso entre o petista e os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e foi marcada pela ausência de aliados de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e do próprio presidenciável.
A sessão desta sexta-feira mostrou um alinhamento entre os chefes do Congresso e Lula em meio ao processo eleitoral, num momento em que os partidos dos dois parlamentares anunciaram apoio a Flávio. Antes de começar a sessão, Alcolumbre recebeu Lula na porta da sala da presidência do Senado. Eles ficaram no local por cerca de dez minutos e saíram andando lado a lado com Motta até entrarem no plenário.
O presidente posou para fotos e cumprimentou aliados no caminho até a mesa das autoridades. Pouco antes de começar a sessão, o ex-ministro da Educação Camilo Santana se levantou e levou ao presidente uma cópia da Constituição — exemplar que Lula ergueu no momento em que foi promulgada a PEC e depois após encerrar seu discurso. Camilo passou a ser um dos aliados mais próximos do presidente e ganhou influência junto à coordenação da campanha do petista após o resultado das urnas no primeiro turno.
Ao longo da sessão, Alcolumbre e Lula cochicharam ao pé do ouvido algumas vezes. Em uma delas, as duas autoridades deram risadas. Os dois congressistas fizeram falas elogiosas a Lula. Motta disse que “quis Deus que nosso destino fosse cruzado com esse grande brasileiro” antes de citar o nome do petista. Alcolumbre, por sua vez, afirmou que a presença do presidente na sessão reforçava “imensamente a importância deste momento para o país”. O chefe da República abriu sua fala citando as autoridades presentes e chamou Motta e Alcolumbre de seus amigos.
O clima amistoso tem como pano de fundo as eleições. Lula e Alcolumbre ficaram três meses sem se falar, mas retomaram o contato em agosto, com objetivo do presidente em destravar as propostas de um pacote eleitoral no Congresso. Motta declarou apoio público a Lula antes do primeiro turno, posou para fotos usando bonés vermelhos com o nome do petista e participou de atos eleitorais do presidente na Paraíba. Alcolumbre destravou as pautas de interesse de Lula. Às vésperas do primeiro turno, pautou a PEC do fim da escala 6×1, bandeira da campanha do petista.
Lula citou o momento de ruído na relação com Alcolumbre no discurso e fez uma fala acenando a deputados e senadores ao dizer que o voto que elege o presidente da República é o mesmo que elege os parlamentares (“o voto de um não é melhor que o voto de outro, são iguais, é o mesmo povo que está votando”).
—Outro dia, parecia que eu e você (Alcolumbre) éramos dois inimigos— disse Lula.
Alcolumbre, então, respondeu:
— Eu não fui avisado disso.
O presidente seguiu:
— De vez em quando tem uma futrica colocando a inimizade do presidente da República, os deputados, os senadores. Isso é uma bobagem (…) Muitas vezes é ruim a nossa convivência por conta da divergência, mas sem ela seria muito pior. Se eu não pudesse divergir de vocês e vocês de mim, a democracia estava sendo jogada no lixo. Quero parabenizar o Congresso Nacional, Senado e Câmara, por esses dois presentes que deram ao povo brasileiro.
Além dos interesses eleitorais nos respectivos estados, os parlamentares querem apoio de Lula, do governo e do PT para buscar a recondução no comando da Câmara e do Senado, em fevereiro de 2027. Por isso, contam com a eleição do petista. Os dois estão pressionados após o PL aumentar expressivamente a sua bancada e demonstrar interesse em lançar candidatos. Um integrante da campanha de Lula que acompanhou a cerimônia disse que a retomada da relação entre eles tem sido importante nesta reta final e fala do “modo sobrevivência” de Alcolumbre. O chefe do Senado enfrenta mais dificuldades para conseguir se reeleger.
O presidente vinha sendo aconselhado por aliados a acompanhar in loco a promulgação da PEC, reforçando a vinculação do tema ao seu governo. A proposta é uma bandeira eleitoral e vitrine de sua gestão. As duas primeiras fileiras do plenário foram ocupadas por ministros do governo —a primeira-dama, Janja da Silva, acompanhou a cerimônia em uma dessas cadeiras. Atrás, integrantes da campanha de Lula, como o presidente do PT, Edinho Silva, o ministro da Secom licenciado Sidônio Palmeira, o presidente do PSB, João Campos, e o governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT).
A sessão desta sexta foi marcada também pela ausência de aliados de Flávio Bolsonaro e do próprio candidato à Presidência —nenhum senador alinhado ao filho do ex-presidente Jair Bolsonaro compareceu. Flávio está no Rio de Janeiro.
O presidenciável tem sido criticado por Lula e aliados pela atuação contrária ao avanço do fim da escala de trabalho 6×1. O senador fez uma série de declarações críticas à PEC, defendeu uma proposta alternativa em que os trabalhadores negociem jornadas flexíveis junto a seus empregadores e atuou para adiar a votação da proposta. Na véspera, entretanto, recuou e deu declaração favorável à medida, diante da pressão popular e mirando evitar desgastes nas urnas. Ele não participou da votação na quarta-feira, no entanto. Votou favorável à distância. A interlocutores do setor empresarial disse que a PEC poderá ser revisada pelo Congresso, caso ele seja eleito presidente da República.
Fim da escala 6×1: sem aliados de Flávio, sessão expõe sintonia de Lula, Alcolumbre e Motta às vésperas do 2º turno
