Quando a aposentadoria do Big 3 começou a se desenhar — primeiro, com Roger Federer; depois, com Rafael Nadal; e, em breve, com Novak Djokovic —, o mundo do tênis se viu diante de um ponto de inflexão: o que seria do esporte que por duas décadas nos proporcionou os sentimentos mais sublimes? Os mais sóbrios já vislumbravam a renovação de talentos que garantiria a sobrevivência do jogo. Já aqueles mais apocalípticos tinham a certeza de que a era de ouro ficaria para trás. Se ainda restava dúvidas de que o primeiro grupo estava com a razão, a final de Roland Garros deste domingo serviu para, enfim, converter até os mais pessimistas.
Ao longo de 5h29, o espanhol Carlos Alcaraz construiu uma virada que ficará marcada na História: bateu o italiano Jannik Sinner por 3 sets a 2, com parciais de 4/6, 6/7 (4), 6/4, 7/6 (3) e 7/6 (2), e conquistou o bicampeonato consecutivo do Grand Slam de Paris.
A final mais longa da história de Roland Garros somente alcançou tamanho grau de intensidade, técnica e emoção porque, em lados opostos, estavam os jogadores mais virtuosos a surgir depois do Big 3. Produtos deste século, eles eclipsaram por completo a safra dos nascidos nos anos 1990. Juntos, Sinner e Alcaraz levaram os últimos seis Grand Slams: três para o italiano, todos na quadra dura, e três para o espanhol, dois deles no saibro e um na grama. E devem ir muito além disso.
— Obrigado por esta final. É uma honra dividir a quadra com você. Você é uma inspiração enorme para pessoas no mundo todo, para muitas crianças e para mim — reconheceu Alcaraz em suas primeiras palavras depois de levantar a taça.
É impossível discordar.
Os primeiros atos do jogo não ofereciam pistas da carga dramática que estava por vir. Pelo contrário. Sinner acumulava uma sequência de 20 vitórias em Slams e havia ganhado os últimos 29 sets que disputara nesse tipo de torneio. O modo máquina que permitiu essas estatísticas apareceu cedo na Philippe-Chatrier. O italiano quebrou o serviço de Alcaraz em momento oportuno, para fechar a primeira parcial em 6/4, e, quando o segundo set se arrastou para um tiebreak, soube pressionar o rival e garantir o 7/6.
Mas a magia dos jogos em melhor de cinco sets — que nos últimos tempos se tornaram alvo de pessoas interessadas em mudar as regras do jogo para torná-lo supostamente mais atraente — novamente deu as caras. No terceiro ato, o mais instável do confronto, com quebras para os dois lados, Alcaraz começou a reverter uma estatística negativa de seu currículo: ele havia perdido todas as oito partidas em que o adversário abrira 2 sets a 0.
Mas era mesmo dia de fazer História. Depois de garantir um 6/4 a seu favor, o espanhol lidou com novos momentos desafiadores: no quarto set, salvou três match points no próprio serviço e precisou de um tiebreak para impedir a festa do italiano; no quinto, foi a sua vez de sacar para o jogo e ver o rival sair do buraco. E, para garantir o desfecho mais épico possível, o duelo novamente foi ao tiebreak.
A partir daí não houve mais espaço para reviravoltas: com uma sequência de pontos irretocáveis, quase inverossímeis depois de mais de cinco horas de luta, Alcaraz fechou em 10 a 2 e se jogou no saibro de Paris para festejar o título e o alívio.
Um segundo olhar para a decisão levanta pontos intrigantes para o resto do ano. Claro está que Sinner voltou tão bem quanto se poderia estar da suspensão por doping. Para os outros jogadores, o número 1 continuará sendo o cara a ser batido, a máquina de um funcionamento quase perfeito. Já para Alcaraz a leitura é outra: após cinco triunfos seguidos sobre Sinner, ele tem a missão de se manter letal diante do italiano e de replicar essa força contra rivais que deveria dominar.
Com 22 anos recém-completados, Alcaraz chegou ao quinto título de Grand Slam — marca idêntica à de Nadal — e diminuiu para cerca de 2 mil pontos sua desvantagem em relação a Sinner, de 23, no ranking. A gira de grama, que começa hoje, tem os dois como favoritos. Mas não há pressa. Esta é uma rivalidade para a História.

