A gravação conjunta de Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro (PL) nesta terça-feira abriu espaço para que a campanha presidencial tente ampliar a participação da ex-primeira-dama na corrida ao Planalto, mas não deve representar uma mudança significativa na postura adotada por ela até agora. Aliados de Michelle avaliam que o reencontro cumpriu um gesto político necessário depois da crise entre os dois, mas não significou uma adesão irrestrita à campanha. A expectativa é que ela continue numa posição intermediária: presente em vídeos, redes sociais e alguns compromissos específicos, mas sem assumir uma rotina intensa ao lado do enteado.
A campanha de Flávio já busca uma nova oportunidade para reunir os dois. O presidenciável estará em Brasília no próximo dia 19, e integrantes de seu entorno gostariam de aproveitar a passagem para realizar o primeiro evento eleitoral conjunto desde a reconciliação. A presença de Michelle, porém, não é esperada neste momento. A previsão entre aliados é que as aparições dos dois continuem espaçadas.
Pessoas próximas à ex-primeira-dama afirmam que a relação não seria recomposta definitivamente por um reencontro de pouco mais de uma hora diante de candidatos, dirigentes e integrantes da campanha. Para uma reconciliação mais profunda, avaliam, seria necessário que Michelle e Flávio tivessem uma conversa mais longa e reservada. Nesta terça, os dois chegaram a ficar a sós antes das gravações, mas a leitura entre aliados dela é que Michelle fez o gesto político que precisava fazer ao demonstrar unidade publicamente.
A própria ex-primeira-dama deu sinais dessa distância ao falar com jornalistas depois das gravações. Questionada sobre a possibilidade de viajar pelo país para ajudar Flávio, evitou assumir esse compromisso e destacou que sua contribuição poderá ocorrer principalmente pelas redes sociais e pela mobilização das mulheres com quem construiu relação enquanto comandava o PL Mulher.
— Viajar, eu não sei como vai ser. Acho que a gente vai ver um dia de cada vez, vai tentar se organizar, mas ele pode contar comigo nas redes sociais e contar também com a força feminina que está espalhada pelo Brasil — afirmou.
Michelle atribuiu a dificuldade de assumir uma agenda mais intensa aos cuidados com Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar. Disse que até mesmo sua participação na gravação desta terça exigiu uma reorganização da rotina em casa e que precisou pedir ajuda a uma funcionária para permanecer fora por mais tempo.
Ao falar da relação com Flávio, a ex-primeira-dama também adotou um discurso de pacificação, mas sem apresentar a reconciliação como um processo completamente concluído.
— Eu não guardo mágoa de ninguém. Meu coração é limpo, graças a Deus, até porque, se eu guardar mágoa, eu que não vou conseguir viver. (…) Acho que as coisas vão se ajustando aos poucos — disse.
Recados após a trégua
Aliados de Flávio enxergaram recados políticos em algumas das declarações dadas pela ex-primeira-dama justamente no dia escolhido para simbolizar a retomada da relação com o presidenciável.
Um deles ocorreu ao ser questionada sobre Alfredo Gaspar (PL-AL), escolhido pelo presidenciável para ocupar a vice. Durante a montagem da chapa, Michelle defendia que uma mulher ocupasse a posição e tinha entre suas preferências a deputada Priscila Costa (PL-CE). Nesta terça, embora tenha afirmado que apoiará Gaspar, fez questão de reiterar qual era sua preferência.
— É claro que eu, como representante das mulheres de bem do Brasil, gostaria que fosse uma mulher. Mas, como a Damares falou, se for um vice que vai realmente ter um olhar especial para as mulheres, para as mães atípicas, para as mamães com pessoas com deficiência, enfim, para todas aquelas que precisam, a gente está junto apoiando e vai dar tudo certo — disse.
A resposta chamou atenção no entorno de Flávio por ocorrer no mesmo dia em que o presidenciável reafirmou publicamente a permanência de Gaspar na chapa. Ao ser questionado sobre rumores de uma eventual substituição, Flávio descartou a hipótese e classificou o vice como uma pessoa “preparada” e “de coragem”.
Outro ponto sensível reapareceu quando Michelle foi questionada sobre o Ceará, epicentro da crise com Flávio. A ex-primeira-dama voltou a dizer que sua oposição à aliança do PL com Ciro Gomes (PSDB) é “visceral”.
Michelle foi além e voltou a expor sua frustração com a condução partidária. Disse que havia recebido autonomia para trabalhar candidaturas femininas quando assumiu o PL Mulher, mas que esse espaço não foi integralmente respeitado. Segundo ela, poderia ter indicado 17 mulheres e terminou conseguindo preservar nomes como Celina Leão (PP), Bia Kicis (PL-DF) e Carol de Toni (PL-SC).
A ex-primeira-dama revelou ainda que chegou a procurar a cúpula do PL em novembro para entregar a presidência do braço feminino da legenda, mas foi convencida a tirar uma licença. Segundo Michelle, se a saída tivesse sido aceita naquele momento, parte do desgaste posterior poderia ter sido evitada.
Apesar das críticas, ela classificou o episódio como “página virada” e afirmou que continuará apoiando as mulheres que ajudou a projetar e a própria candidatura de Flávio.
É nessa combinação que aliados dos dois lados enxergam o desenho da participação de Michelle daqui para frente. Para a campanha presidencial, a gravação desta terça foi um avanço importante: entregou a primeira imagem dos dois juntos depois da crise e produziu material que poderá ser usado para mostrar unidade durante a campanha.
Flávio também tem interesse eleitoral em ampliar essa presença. Michelle construiu capilaridade própria entre mulheres e evangélicos durante os anos em que comandou o PL Mulher e é considerada pela campanha um ativo especialmente importante para a tentativa do presidenciável de ampliar sua interlocução com o eleitorado feminino.
Do lado da ex-primeira-dama, porém, a prioridade imediata será a própria candidatura ao Senado pelo Distrito Federal e a rotina montada em torno de Bolsonaro. Michelle está focada em organizar suas agendas e articular apoios locais ao seu próprio projeto eleitoral.

