Se depender do projeto Negro Muro, que reverencia a memória negra por meio da arte urbana, o Largo de São Francisco da Prainha, na Região Portuária do Rio, já pode se chamar “Largo de Conceição Evaristo”. A escritora é a estrela de um novo mural inaugurado no último dia 29 na área. A arte, com 30 metros de altura por 20 de largura, foi inspirada em uma imagem produzida em 2022 pelo fotojornalista Leo Martins, do GLOBO.
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— Essa é a uma foto muito especial da Conceição, que é uma entidade da nossa cultura — diz o produtor cultural e pesquisador Pedro Rajão, idealizador do Negro Muro com o artista Fernando Sawaya (Cazé). — Na imagem, ela está com um olhar e uma postura de quem paira como uma guardiã daquele espaço. O nosso projeto é focado na relação do artista com o seu território e, por ela ser moradora ali do Morro da Conceição, acho que coube bem essa homenagem.
Rajão nota que o mural é a única lateral de prédio da área. Como os prédios vizinhos são muito menores, a escritora aparece como “soberana” no alto.
O Largo de São Francisco, vale lembrar, é um dos lugares mais importantes para a história da diáspora africana no Rio. A poucos metros do seu mural, Conceição inaugurou, em 2022, a Casa de Escrevivência, um centro cultural que abriga o acervo da autora e promove oficinas. O espaço fica no Beco João Inácio, número 4.
Foi na ocasião da abertura oficial do espaço, em 2022, que Leo Martins fez a agora icônica fotografia da escritora. A imagem foi publicada junto com uma entrevista da repórter Maria Fortuna no Segundo Caderno do dia 10 de dezembro daquele ano. Conceição fez as fotos e a entrevista dez dias após seu aniversário e, como lembra a repórter, tinha tido um pico de pressão na véspera. Mas deixou claro que seguiria as comemorações de aniversário com muitas cervejinhas (“a pressão que pare de subir”, disse a escritora mineira).
Às vezes, pequenos detalhes mudam o impacto de uma foto. Leo Martins pediu para que Conceição trocasse o adereço vermelho em sua cabeça por um de cor amarela. O fotógrafo queria uma cor mais pura para contrastar com as cores primárias. O adereço amarelo chamou a atenção de Rajão e Cazé, que o destacaram no mural.
Entre os cliques feitos naquele dia pelo fotógrafo, Conceição aparece ora de costas, olhando para a paisagem da Zona Portuária, ora de frente, com as venezianas azuis de sua janela ao fundo.
— Cismei com essa janela — lembra Martins. — Fiz várias opções, tanto com ela em casa, no ambiente dela, quanto com o olhar aberto para a cidade. As fotos vão para dentro e para fora, mostram uma meia janela e uma janela inteira, resumindo bem a personalidade da autora.

