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Pouco antes da votação sobre o shutdown na Câmara, a deputada democrata Adelita Grijalva — eleita em uma votação especial no final de setembro — finalmente assumiu sua cadeira e deu a última assinatura em uma petição legislativa exigindo que o Departamento de Justiça torne públicos os documentos sobre Epstein, que morreu em 2019. O presidente da Câmara, o republiicano Mike Johnson, protelou durante sete semanas a posse da deputada, que ligou a demora ao fato de que tinha prometido assinar a petição.
A manobra, conhecida como “petição de desobstrução”, permite que um projeto siga para o plenário sem passar por comissões, e estabelece um prazo máximo para ser pautado. Para que prospere, são necessárias 218 assinaturas — maioria simples —, e no caso da proposta sobre Epstein, ela contou com o apoio de quatro republicanos. Em resposta, a Casa Branca lançou uma força-tarefa, liderada pelo presidente, para convencê-los a retirarem seus nomes.
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O primeiro alvo foi a deputada Laura Boebert, do Colorado. Ela se reuniu com a secretária de Justiça, Pam Bondi, e com o diretor do FBI, Kash Patel, na Sala de Crise da Casa Branca, na quarta-feira, e havia conversado com Trump por telefone na véspera. Boebert, afeita a teorias da conspiração, criticou a decisão do governo de arquivar o caso, em julho, e afirmou em mais de uma ocasião que “as pessoas estavam frustradas”. Após as conversas, ela agradeceu à Casa Branca pela “transparência”, mas não quis retirar seu nome da petição.
Trump também ligou para Nancy Mace, mas não conseguiu falar com a deputada pela Carolina do Sul, de acordo com fontes ouvidas pelo New York Times. Mas ao contrário de Boebert, cujas convicções estão enraizadas em teorias da conspiração, Mace usou sua própria história para justificar o apoio à medida: em publicação na rede social X, ela afirma que foi vítima de abuso sexual na adolescência e na vida adulta, e que, apesar de defender Trump, ela “jamais abandonará outros sobreviventes”. Ao portal NOTUS, integrantes do governo sugeriram que isso poderá lhe custar o apoio do presidente nas primárias para o governo da Carolina do Sul, cargo que pretende disputar em 2026.
A petição contou ainda com o apoio de Marjorie Taylor-Greene, uma trumpista radical que tem incomodado a Casa Branca por sua recente defesa dos gastos com saúde, e Thomas Massie, republicano que foi um dos co-autores do texto, ao lado do democrata Ro Khanna. Uma vez assinada e entregue à Mesa, os deputados não podem retirar seus nomes, mesmo em caso de morte, afastamento ou renúncia, como acontecerá com a democrata Mikie Sherrill, que deixará a Câmara para assumir o governo de Nova Jersey.
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Mike Johnson sinalizou que não vai tentar atrasar o processo. Pelas regras, a partir do momento da apresentação da petição, começa a contar um prazo de sete dias de trabalho legislativo até que o texto seja levado a plenário. Johnson, que é contrário à iniciativa, poderia atrasar deliberadamente o processo, mas já anunciou que a votação pode acontecer já na próxima semana, antes do recesso do Dia de Ação de Graças.
A expectativa é de que ela seja aprovada sem problemas, com muitos votos republicanos, mas o caminho até que seja aplicada é longo. O projeto precisaria ser aprovado por maioria qualificada no Senado (60 votos), onde não há tantos aliados ávidos pelos documentos. Trump pode vetar o texto, mas mesmo que não o faça, o Congresso teria que obrigar judicialmente o Departamento de Justiça a cumprir suas ordens. Apesar de simbólico, o voto não deixa de ser uma derrota para o governo.
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Poucos escândalos causaram tanto frisson político nos EUA como as revelações sobre o esquema de tráfico humano e abuso de menores liderado por Epstein, que morreu em 2019 enquanto aguardava julgamento. A proximidade do financista com o jet-set global influenciou teorias que tinham em um suposto livro de clientes um Santo Graal. O próprio Trump se beneficiou da lenda, e prometeu durante a campanha que a publicaria caso retornasse à Presidência. Em julho, o FBI reconheceu que a lista não existe, apesar de Pam Bondi ter sugerido, meses antes, que ela estava sobre sua mesa.
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Para a Casa Branca, afastar a sombra de Epstein pareceu um movimento natural, diante da proximidade entre o financista e Trump, reiterada em e-mails, fotos e desenhos comprometedores — nas mensagens reveladas na quarta-feira, Epstein alegou que o então empresário Trump “sabia das meninas”, e que ele ficou “por um longo tempo” com uma das vítimas de abuso, Virginia Giuffre, que morreu em abril. Não se sabe se o republicano sabia que a tal Lista de Epstein não passava de ficção antes de chegar ao cargo.
O cálculo não se aplica a todos seus aliados. A maior pressão pelos documentos sobre Epstein em poder do Departamento de Justiça — os arquivos divulgados na quarta-feira vieram do espólio do financista — vem de republicanos que embarcaram que ficaram incomodados com a tentativa do governo de abafar o caso. Os democratas, em busca de caminhos para atingir o presidente, ajudaram a impulsionar a ideia.
Nas ruas, apoiadores do presidente chegaram a queimar seus bonés vermelhos após a confirmação de que não existe a Lista de Epstein, e passaram a inundar os telefones de seus parlamentares. Há alguns meses, por pouco a resistência de deputados que queriam a liberação de documentos não fez naufragar o projeto orçamentário de Trump, chamado de “Grande e Bonito”.
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Segundo pesquisa divulgada no mês passado pela rede pública PBS, 77% dos americanos querem que o Departamento de Justiça derrube o sigilo do caso Epstein, e menos da metade dos republicanos (45%) aprova a atuação da Casa Branca no episódio. No ano que vem, todos os assentos da Câmara e parte do Senado estarão em disputa, e ninguém parece disposto a desagradar seus eleitores, ainda mais com o governo Trump nas cordas e ostentando seus piores índices de popularidade.
— O que temos discutido desde que Donald Trump entrou no cenário político, há uns 10 anos, é que, apesar das coisas que ele fez e disse, nada parece colar, mas o caso Epstein certamente representa uma exceção que confirma a regra — afirmou à PBS o diretor do instituto de pesquisas da Universidade Marista, co-autora da sondagem. — Por algum motivo, essa [questão] parece ter me afetado mais do que qualquer outra.

