A frota naval dos Estados Unidos deslocada para o Mar do Caribe após o presidente Donald Trump ordenar o uso das Forças Armadas no combate ao narcotráfico deve chegar à região de Curaçao ao longo dos próximos dias, segundo autoridades e pessoas informadas sobre a operação. A ilha caribenha fica a pouco mais de 60 quilômetros de distância da costa da Venezuela, cujo líder, Nicolás Maduro, é acusado pela Casa Branca de chefiar um cartel de drogas. Embarcações americanas são equipadas com helicópteros, canhões e mísseis, que podem viajar por mais de 1.600 quilômetros.
- Maduro em alerta: Frota naval americana faz Venezuela temer interceptação e ataque cirúrgico
- Impactos regionais: Movimentação naval dos EUA perto da Venezuela acende alerta no Brasil
Um dos três contratorpedeiros que acompanham a missão, o USS Jason Dunham, é esperado nas águas da ilha caribenha já nesta quinta-feira, segundo o primeiro-ministro de Curaçao, Gilmas Pisas. De acordo com ele, os outros dois navios de escolta, o USS Gravely e o USS Sampson, devem chegar nos próximos dias. Já o USS Lake Erie, um cruzador de mísseis guiados, e o USS Newsport News, um submarino nuclear de ataque rápido, estão previstos para se juntarem à frota americana no Caribe no início da próxima semana, segundo fontes informadas sobre o deslocamento das embarcações, que falaram à Reuters sob condição de anonimato.
A previsão de chegada do Grupo de Prontidão Anfíbia Iwo Jima, composto pelo navio de assalto anfíbio USS Iwo Jima (LHD-7) e dos navios de transporte anfíbio USS Fort Lauderdale (LPD-28) e USS San Antonio (LPD-17), ainda é desconhecida. As embarcações deixaram o porto de Norfolk, na Virgínia, separadamente, no domingo, mas desligaram seu Sistema de Identificação Automática (AIS, na sigla em inglês) poucas horas após o início da viagem.
Sabe-se, porém, que esses navios têm capacidade de viajar a uma velocidade máxima em torno de 40 km/h, o que significa que levarão ao menos cerca de 60 horas para alcançar Curaçao. Uma primeira tentativa de navegação em direção às águas próximas da Venezuela foi iniciada em 14 de agosto, mas teve de ser interrompida cinco dias depois devido ao furacão Erin.
À bordo do Grupo de Prontidão Anfíbia Iwo Jima estão cerca de 4.500 militares, incluindo 2.200 fuzileiros da 22ª Unidade Expedicionária de Fuzileiros Navais, que atuarão no Caribe sob o comando do Comando Sul dos EUA (Southcom). (veja infográfico ao final)
— O serviço de Segurança Nacional está em constante contato com nossos parceiros internacionais e não há indícios de combate direto — declarou o premier de Curaçao nesta quarta-feira, embora tenha aconselhado os cidadãos de seu país a “não viajarem para a Venezuela até novo aviso”.
Outro país da região, Trinidade e Tobago, declarou seu apoio ao desdobramento da Marinha dos EUA e disse que permitirá que as forças americanas usem seu território se a Venezuela atacar a vizinha Guiana, com quem atualmente mantém uma acirrada disputa territorial pela rica região de Essequibo.
O Pentágono não anunciou quais exercícios ou operações serão realizados pela unidade enquanto navega no Caribe, mas o deslocamento ocorre após a assinatura pelo presidente Donald Trump de uma diretiva secreta, no início do mês, que autoriza a utilização das Forças Armadas na luta contra o narcotráfico. As fontes ouvidas pela Reuters também se recusaram a detalhar a missão específica das mobilizações, mas disseram que os movimentos recentes visam abordar ameaças à segurança nacional dos EUA vindas de “organizações narcoterroristas” especialmente designadas na região.
A iniciativa gerou forte reação na Venezuela, especialmente depois que a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou na semana passada que os EUA usarão “toda a força” contra o regime de Nicolás Maduro. Em julho, o Departamento do Tesouro incluiu o chamado Cartel de los Soles na lista de organizações terroristas e acusou o presidente venezuelano de chefiá-lo, colocando sua cabeça a prêmio por US$ 50 milhões.
Em resposta, Maduro convocou 4,5 milhões de reservistas da Milícia Bolivariana, um corpo vinculado às Forças Armadas que integra civis e que seus críticos afirmam ter uma forte carga ideológica. Especialistas contestam o número.
Uma possível invasão americana se tornou pauta de discussões nas ruas da Venezuela, entre piadas e preocupação. No entanto, analistas veem distante o cenário de uma operação direta contra a Venezuela.
— Acho que o que estamos vendo representa uma tentativa de criar ansiedade nas esferas do governo e obrigar Maduro a negociar algo — explicou à AFP o analista Phil Gunson, do Crisis Group.
Caracas exigiu na terça-feira, nas Nações Unidas, “o cessar imediato do deslocamento militar americano no Caribe”, segundo um comunicado. O chanceler Yván Gil pediu o apoio do secretário-geral da ONU, António Guterres, para “restabelecer o bom senso”.