A transformação pela qual passa a região do Centro de Niterói, com foco em transição econômica e atração de novos moradores, foi o ponto principal da segunda edição do encontro Caminhos de Niterói, evento realizado pelos jornais O GLOBO e Extra com apoio da Prefeitura de Niterói. Dois painéis apresentaram estratégias e investimentos, numa parceria entre os setores público e privado, que buscam mudar o perfil urbano da região. E mostraram como a cidade pretende migrar de uma arrecadação baseada nos royalties do petróleo para uma economia voltada à inovação tecnológica, que inclui parcerias com grandes empresas, como a IBM, e com o maior polo de produção científica do Leste Fluminense, a UFF, dentro do Distrito de Inovação da Cantareira. O debate contou com a mediação do editor de Rio do GLOBO e do Extra, Rafael Galdo.
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Amaral Peixoto: reforma
Todos os projetos abordados fazem parte do programa Reviver Centro, que reúne intervenções de requalificação urbana, habitação e atração de investimentos para a região, com destaque para a reforma da Avenida Amaral Peixoto — que vai abranger 35 mil metros quadrados, ao custo de R$ 78,9 milhões e tem conclusão prevista para 2027 —; um fundo imobiliário de R$ 400 milhões operado pela Caixa Econômica Federal para retrofit de prédios antigos; o programa Aluguel Universitário, que subsidia mais de 1.150 estudantes com R$ 700 mensais para moradia no Centro; a conversão do histórico Edifício Nossa Senhora da Conceição em habitação de interesse social com comércio no térreo; e a reurbanização da Praça da República.
O primeiro painel, intitulado “Centro vivo: como trazer pessoas de volta à zona central”, abordou estratégias para reocupar a área e ampliar a presença de moradores na região. Durante a conversa, o prefeito Rodrigo Neves destacou que, após 50 anos de degradação e decadência, o Centro voltou a registrar valorização expressiva no mercado imobiliário, com aumento de 13% nos aluguéis em relação a 2024. Ele apontou que a região já conta com cerca de seis mil imóveis contratados para construção nos próximos três anos, no contexto do Fundo Imobiliário de R$ 3 bilhões. A intenção é atrair cerca de 50 mil moradores em 20 anos para os novos empreendimentos. O prefeito também afirmou que 50% dos compradores desses imóveis são moradores de outras cidades, como Rio de Janeiro e São Gonçalo.
— Fato é que a gente sempre teve no Centro mais de 40 mil moradores. Foram 50 anos de degradação, e chegamos hoje a 18 mil moradores, ou seja, 5% da população da cidade vivendo lá. Digo para vocês que o projeto do Centro de Niterói não é uma promessa, é realidade — afirmou.
Rodrigo lembrou ainda que a cidade venceu o Prêmio Nacional do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) 2025, na categoria “Urbanismo, arquitetura da paisagem, planejamento e cidades”, com o projeto de revitalização da orla do Centro. E adiantou ainda que a prefeitura tem intenção de construir uma marina e um centro de convenções no Caminho Niemeyer.
A urbanista e consultora internacional Verena Andreatta destacou que, do ponto de vista urbanístico, Niterói se apresenta como um caso exemplar, alinhado às melhores práticas internacionais de requalificação e revitalização de frentes marítimas.
— Movimentos como esse aconteceram em Roterdã; em Puerto Madero, em Buenos Aires; e em diversas cidades brasileiras. A revitalização dessas áreas centrais permite aproveitar paisagens extraordinárias e criar ambientes mais agradáveis, vivos e com uma série de equipamentos. Hoje, o Centro de Niterói está equipado, é um Centro vivo, e isso tende a atrair moradores — destacou.
Julio Kezem, presidente da Ademi e vice-presidente da construtora Soter, lembrou o movimento histórico do setor imobiliário em direção a Icaraí, na Zona Sul da cidade, e o esvaziamento do Centro ao longo dos anos. Agora, segundo ele, a região reúne condições para um novo ciclo de valorização, incluindo uma rede hoteleira.
— Sou frequentador diário do Centro. A sede da minha empresa está há 60 anos lá. Vivenciei esse processo de degradação. Antes, muitas empresas tinham sede na região, mas, aos poucos, migraram para Icaraí, e o Centro foi se esvaziando — lembrou.
No segundo painel do encontro, “Economia do futuro: inovação e novos polos de desenvolvimento”, a secretária municipal de Habitação e Regularização Fundiária, Marcele Sardinha, destacou o planejamento urbano para a abertura do novo polo estratégico de inovação e economia criativa.
— Trazer novos moradores para o Centro é fundamental para ativar o ciclo de desenvolvimento. Onde as pessoas moram, elas consomem, circulam e criam novos negócios. Esse é o fio condutor do projeto que estamos executando— explicou.
A secretária de Habitação, Marcele Sardinha (à esquerda); Julia Zardo, da Firjan; e o reitor da UFF, Antonio Nóbrega, no segundo painel do Caminhos de Niterói
Fabiano Rocha
Impacto social
O reitor da UFF, Antonio Claudio Lucas da Nóbrega, destacou o papel da universidade no projeto, que pretende integrar diferentes tecnologias.
— Mesmo em um mundo cada vez mais digital, a presença física ainda é fundamental para a criação de soluções. A convivência em um mesmo espaço tem papel decisivo nesse processo. O projeto da Cantareira nasce com esse objetivo e com a convicção de que a inovação também deve gerar impacto social — afirmou.
Para Júlia Gama Zardo, especialista em ambientes de inovação da Firjan, Niterói reúne condições para se posicionar como referência nacional na economia criativa. Segundo ela, o diferencial está na combinação entre produção de conhecimento, diversidade social e planejamento urbano.
— Niterói foi classificado como o município com maior soft power do estado do Rio. O desafio agora é transformar seus ativos culturais, naturais e urbanos em valor econômico, atraindo investimentos e gerando produtos e serviços com identidade — ressaltou.
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