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Geoglifo: no coração dos Andes, desenho gigante feito com pedras intriga arqueólogos; entenda

Por · setembro 27, 2026
Geoglifo: no coração dos Andes, desenho gigante feito com pedras intriga arqueólogos; entenda


Uma maravilha histórica é vista do céu, em Mendoza, no coração inóspito da Cordilheira dos Andes, na Argentina. De acordo com diferentes hipóteses, um geoglifo inédito foi descoberto por um andinista na região. Geoglifos são figuras geométricas de grande extensão feitas em morros ou regiões planas, feitos por escavação de valas ou da disposição de materiais como terra, pedras e cascalho. A descoberta será investigada por um grupo de cientistas argentinos e espanhóis.
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Especialistas acreditam que o local foi um “centro cerimonial” do período Inca ou anterior, construído com pedras e localizado em uma planície, entre encostas e montanhas. Na arqueologia, um centro cerimonial é um espaço sagrado ou arquitetônico voltado para a realização de rituais, festividades religiosas, sacrifícios ou celebrações comunitárias.
Embora ainda não se possa falar de uma “figura” em particular, os pesquisadores acreditam que o que se observa das alturas, com nitidez visível através do Google Earth, teria relação com a arte rupestre. A descoberta, na zona da cordilheira do Tigre, foi realizada pelo andinista Carlos Gobbi no ano passado, através da mesma ferramenta, que o permitiu observar a figura.
Após várias tentativas, no início do ano, e depois de três dias de expedição, ele finalmente chegou ao local, de difícil acesso, e conseguiu encontrar a estrutura feita com pedras, entre valas e corredores com formato de círculos e retângulos.
Agora, começam os preparativos para que os pesquisadores em arqueologia, que já estudam as características da descoberta, visitem o lugar junto com Gobbi. A expectativa é que a viagem aconteça nos próximos meses, em plena temporada de verão.
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– É uma grande descoberta, inédita e relevante, para a arqueologia mendocina. É uma estrutura de grandes dimensões, complexa, que corresponderia a um espaço cerimonial pré-hispânico. Gerenciamos as autorizações correspondentes na área de Patrimônio e nos preparamos, com apoio logístico, para o trabalho que faremos no verão, ao qual se somarão arqueólogos espanhóis da Universidade de Jaén – contaram os pesquisadores Cristina Prieto-Olavarría, diretora da iniciativa ArqueoAndes, e Horacio Chiavazza, codiretor.
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Prieto-Olavarría e Chiavazza, respectivamente, representam o Instituto Argentino de Nivologia (estudo da neve), Glaciologia e Ciências Ambientais (Ianiglia) do Grupo História Ambiental do Conicet, e o Laboratório de Arqueologia Histórica e Etnohistória, Instituto de Arqueologia e Etnologia, Faculdade de Filosofia e Letras, da Universidade Nacional de Cuyo (UNCuyo).
Estrutura e design, um mistério
Os objetivos da primeira campanha estão voltados para analisar a funcionalidade da estrutura, seu desenvolvimento ao longo do tempo, e um levantamento detalhado de sua arquitetura. Também está previsto fazer amostragens de sedimentos e escavações, bem como coletar materiais e amostras de perfis para analisar eventos paleoambientais e climáticos, e as ocupações humanas, com técnicas e metodologias específicas. Tudo será acompanhado com GPS de precisão, drones de alta resolução e imagens de satélites.
– Neste momento não podemos assegurar que seja uma figura em particular; deveríamos estabelecer que responde a um padrão de elaboração que se buscou concretizar em um projeto original e não sofreu transformações. Estabelecemos vínculos formais com algumas, refletidas na arte rupestre, e estamos elaborando hipóteses. Não podemos adiantar nenhuma neste momento, pois se devem consensuar aspectos com base em antecedentes que avaliamos como equipe – esclareceu Chiavazza, que acrescentou ainda sobre o ineditismo da descoberta atual:
– Não temos antecedentes de arquiteturas que formem esse tipo de figuras no centro-oeste argentino. De fato, no mundo andino constitui um dos geoglifos mais meridionais do Tahuantinsuyo (o nome do Império Inca na língua quéchua). Tudo isso estaria associado a um dos tampus ou tambos, que eram os espaços de dominação Inca mais importantes, neste caso com o Tambo de Ranchillos, no Vale de Uspallata, em Mendoza – afirma Chiavazza.
Quanto à estrutura, a hipótese principal é que se trata de um centro cerimonial próprio do mundo andino, do período dos Incas, mas não se descarta que seja ainda mais antigo. Enquanto isso, pelas características de design, ao ser visto do ar, gera imagens orgânicas que estariam associadas a um possível geoglifo.
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Quanto à altitude do geoglifo, ele fica sobre a encosta de uma colina, em uma espécie de planície, a cerca de 3.000 metros de altura. Por sua vez, as construções em pedra formam muros que se combinam arquitetonicamente para dar lugar a salas circulares e corredores. Em alguns casos, foi realizada a remoção de sedimento, com solos de cor avermelhada, e foram detectadas construções que se comunicam com essa forma orgânica, como um canal escavado e revestido com rochas que desembocam em uma cavidade empedrada.
– Sobre as cerimônias, há várias interpretações que podem ser relacionadas com a cosmovisão andina, do submundo, da superfície e do supramundo ou o céu, e há certas análises que se vinculam com a orientação astronômica, acerca da fertilidade da terra. Estamos trabalhando a partir de uma perspectiva inovadora: com o próprio andinista e com as comunidades originárias, com a aplicação de tecnologia de ponta. Tudo isso nos aproxima da imagem de como se concebia a paisagem de acordo com as cosmovisões dos povos originários, e contribui para os processos de ressignificação identitária, em um diálogo permanente com a ciência – explicou o profissional.
As conexões divinas
De acordo com os especialistas, um centro cerimonial pré-hispânico remete a um sítio sagrado e arquitetônico onde as civilizações antigas concretizavam rituais, oferendas, festividades religiosas e observações astronômicas, com o objetivo de conectar-se com suas divindades e sustentar “a ordem do cosmos”.
Enquanto isso, um geoglifo é um desenho de grandes dimensões gravado ou construído sobre a superfície da terra, geralmente em encostas de colinas ou em planícies desérticas, com uso de técnicas sobre o terreno. Neste caso, foi utilizado o método de “adição”, em que pedras e outros materiais escuros são empilhados sobre o fundo claro da terra para formar as linhas da figura.
Como pode ser observado nas imagens de satélite, são de escala monumental, por isso podem ser apreciados integralmente do ar. Atualmente, os arqueólogos discutem suas funções, mas elas são associadas a rituais religiosos, mapas astronômicos, guias de rotas comerciais ou delimitação de territórios de povos antigos. De fato, um dos exemplos mais conhecidos são as Linhas de Nazca, no deserto do Peru. O conjunto de geoglifos mais famoso do mundo mostra figuras de animais, como um macaco, um beija-flor e uma aranha, com linhas geométricas criadas por essa cultura há mais de 1.500 anos.
Sem dúvida, o impacto do que foi encontrado e visualizado do espaço traz à memória o caso peruano, até com o questionamento de se fazer uma comparação. No entanto, os responsáveis pelo projeto fazem uma ressalva.
– Não há um paralelismo, nem de design nem de técnicas de elaboração, com as Linhas de Nazca, que são feitas por valas, já que aqui se veem pircados, como uma construção por acumulação. Vale dizer que os geoglifos existem também no norte do Chile, e correspondem a distintas épocas e a distintas culturas. Não necessariamente são associáveis, e podem perseguir finalidades distintas. Mais do que a grandiloquência de uma figura que se vê do ar, não se pode assimilar com nada, por enquanto – esclareceu Chiavazza.

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