Três dias depois de os Estados Unidos concordarem em adquirir uma participação na fabricante de chips Intel, o presidente Donald Trump sinalizou, na segunda-feira, que pretende buscar investimentos semelhantes em outras grandes empresas, descrevendo sua nova estratégia econômica como uma tentativa de “pegar o máximo que eu puder”.
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A promessa de Trump destacou uma mudança significativa e potencialmente arriscada na relação entre governo e setor privado. Com foco especial em chips de computador de alto desempenho, a Casa Branca demonstrou um novo entusiasmo pela nacionalização de determinadas indústrias e tecnologias, de maneiras que conservadores, antes, poderiam ter considerado impensáveis.
A estratégia do presidente ficou mais clara na sexta-feira, quando o governo anunciou que adquiriria 10% de participação na Intel, uma gigante da tecnologia em dificuldades que já foi vista como o coração pulsante do Vale do Silício.
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A aquisição das ações da Intel é a intervenção mais notável em uma empresa privada desde a crise financeira de 2008, quando o governo dos EUA interveio para resgatar a Chrysler e a General Motors do colapso. Mas também se encaixa em um padrão emergente sob Trump, que recentemente tem tentado obter concessões favoráveis sempre que líderes corporativos precisam de sua ajuda.
Para assumir o controle da U.S. Steel, a japonesa Nippon Steel concordou em conceder ao governo americano uma golden share (ação de classe especial com poder de veto nas decisões do conselho de administração) a empresa combinada para influenciar suas decisões.
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Trump também conseguiu que fabricantes de chips, incluindo a Nvidia, se comprometessem a dar ao governo 15% da receita com a venda de chips avançados para a China — uma ideia que advogados do Departamento de Comércio estão tentando descobrir como implementar legalmente.
— As pessoas vêm até mim porque precisam de algo — explicou Trump, referindo-se especificamente ao acordo com a Intel. — Espero ter muitos outros casos como este.
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Para alguns economistas conservadores, a declaração de Trump pareceu ao mesmo tempo curiosa e problemática. Por gerações, os republicanos pregaram a ideia de que o governo não deveria interferir nos mercados livres nem apostar o dinheiro do contribuinte em vencedores e perdedores — e, no entanto, o próprio presidente pareceu reconhecer, na segunda-feira, suas táticas como uma nova forma de política industrial.
— Acho que o que estamos vendo não é tanto uma mudança estratégica e bem pensada em direção ao capitalismo de Estado, mas sim uma demonstração oportunista de extorsão corporativa — disse Michael R. Strain, economista do American Enterprise Institute, de orientação conservadora. — De qualquer forma, isso cria riscos significativos para as empresas que entram nesses acordos e para a prosperidade de longo prazo do povo americano.
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Um dos riscos, disse Strain, é o uso de dólares dos contribuintes caso o governo fique “relutante em sair” de arranjos com empresas que não estejam se saindo bem. Além disso, afirmou, a Intel e suas concorrentes podem passar a tomar decisões de negócios “com base em considerações políticas”.
Casa Branca recusa intervencionismo
A Casa Branca rebateu as alegações de que está intervindo indevidamente no mercado privado. Um funcionário disse que a administração Trump considera a medida justificada, dada a importância dos semicondutores para a economia e a posição única da Intel no mercado.
Mas críticos levantaram dúvidas sobre os planos do presidente. Pelo acordo anunciado na semana passada, o governo deve dar 8,9 bilhões de dólares à Intel — o restante do valor destinado à fabricante americana de chips como parte da Lei CHIPS, assinada pelo presidente Joe Biden.
O governo Biden havia condicionado o repasse desses recursos a uma série de marcos para garantir que a Intel produzisse chips nos EUA em troca do dinheiro dos contribuintes. Mas a administração Trump eliminou essas exigências, liberando os fundos imediatamente em troca da participação acionária.
Isso pode ser arriscado, dado o histórico de problemas tecnológicos da Intel. Autoridades do governo indicaram que poderiam usar a participação acionária para ajudar a empresa, por exemplo, pressionando outras companhias de tecnologia a se tornarem clientes da Intel e, assim, impulsionar o negócio. Mas, se a Intel não conseguir produzir os chips que os clientes desejam, o governo pode ter pouco poder para ajudá-la.
Mike Schmidt, ex-chefe do Escritório do Programa CHIPS da administração Biden, disse que dar participação ao governo teria um custo para a Intel, tornando-a menos competitiva e levantando “uma série de questões sobre a intervenção do governo na economia”.
— Como isso vai ajudar a Intel a ter sucesso? — perguntou.
O acordo também gerou preocupação entre os concorrentes da Intel, que se perguntam se serão os próximos. A administração Trump já está pressionando empresas a fazerem mais investimentos nos EUA para receberem os fundos da Lei CHIPS prometidos sob Biden, suspendendo a liberação de subsídios enquanto revisa o programa.
A Taiwan Semiconductor Manufacturing e a Micron anunciaram, nos últimos meses, planos para aumentar seus investimentos nos EUA, embora críticos digam que alguns desses projetos já estavam planejados ou podem nunca se concretizar. A Intel, por sua vez, enfrentava dificuldades para concluir seus investimentos e não estava em posição de fazer novas promessas.
Kevin Hassett, diretor do Conselho Nacional de Economia da Casa Branca, descreveu a Intel como um “caso muito especial” na CNBC, na segunda-feira. Ele disse que assessores de Trump, incluindo o secretário de Comércio, Howard Lutnick, “conversaram com a Intel sobre o progresso que estavam fazendo e os obstáculos que precisavam superar para receber o dinheiro, e não acho que estejam particularmente satisfeitos com esse progresso”.
Mas Hassett também sugeriu repetidamente que a Casa Branca poderia buscar investimentos semelhantes em outras empresas de tecnologia, especialmente nos setores de chips e inteligência artificial, comparando a estratégia a um “fundo soberano”, ideia que Trump já havia levantado antes.
— No passado, o governo federal entregava dinheiro rapidamente para as empresas, e os contribuintes não recebiam nada em troca — disse Hassett.
A questão agora é se empresas que não podem anunciar grandes investimentos em fábricas nos EUA ou encontrar outras maneiras de agradar ao presidente serão pressionadas a ceder participação acionária ou fazer outras concessões à administração Trump.
Executivos do setor de chips disseram que as companhias estão aguardando para ver como o governo colocará seus planos em prática.
A administração Trump também enviou, na segunda-feira, uma carta dizendo que anulará abruptamente os pagamentos a uma organização sem fins lucrativos criada para administrar um programa de pesquisa e desenvolvimento de semicondutores, parte da Lei CHIPS, chamando a entidade — Natcast — de “uma entidade externa sem responsabilidade”. O programa agora será conduzido diretamente pelo Departamento de Comércio.