Em outubro de 2026, a Defesa Civil do Rio Grande do Sul voltou a emitir alertas vermelhos para risco de inundação. Mais de dois anos depois das enchentes que afetaram cerca de 2,4 milhões de gaúchos e deixaram 185 mortos, a questão que interessa a gestores públicos e privados diz respeito menos à chuva e mais à memória institucional: o que as organizações guardaram do que viveram em 2024?
Poucos acompanharam tantas tragédias recentes de tão perto quanto o Capitão Roberto Farina. Como porta-voz da Defesa Civil do Estado de São Paulo, ele esteve à frente da comunicação do órgão nas chuvas que devastaram o litoral norte paulista em 2023 e acompanhou a atuação paulista no apoio ao Rio Grande do Sul no ano seguinte. Dessa vivência saiu a dissertação “O papel da informação na gestão do conhecimento em desastres naturais: o caso da Defesa Civil de São Paulo na tragédia do Rio Grande do Sul”, defendida e aprovada em 2026 no Mestrado em Administração da ESPM.
O que é gestão do conhecimento em desastres naturais?
Toda operação de resposta produz dois tipos de saber. Um é explícito, o que vai para relatórios, mapas e planilhas. O outro é tácito, o que fica com as pessoas: qual estrada cedeu primeiro, que abrigo recebia doações em excesso, qual liderança local resolvia problemas. Gestão do conhecimento é o conjunto de práticas que transforma essa experiência individual em patrimônio da instituição.
A literatura brasileira já apontava o problema. Artigo de Érico Soriano, Wanda Hoffmann e Camila de Araujo, publicado em 2017 na revista Em Questão, da UFRGS, observa que o conhecimento dos profissionais de defesa civil costuma se perder por causa da fragilidade institucional dos órgãos, sobretudo nos municípios. A pesquisa de Farina acrescenta uma camada: sem informação estruturada durante a crise, não sobra conhecimento para preservar depois.
“No Rio Grande do Sul, a informação existia. O problema é que ela chegava picada, por mensagem, por planilha, por ligação, e cada equipe enxergava um pedaço diferente da mesma tragédia”, afirma Farina.
Em que momentos o aprendizado se perde?
O primeiro é a própria operação, quando dados sobre resgates, abrigos e donativos circulam por canais paralelos. O segundo é a desmobilização, quando as equipes de apoio voltam aos estados de origem levando o que aprenderam.
“Quando a operação termina e as equipes voltam para casa, muito do que se aprendeu volta junto, na cabeça de cada um. Se ninguém registra e organiza, a próxima crise começa do zero”, diz.
O terceiro é o registro oficial. Levantamento da CNM (Confederação Nacional de Municípios) sobre o período de 2013 a 2025 mostra que desastres climáticos atingiram 95,1% dos municípios do país e somaram R$ 785,4 bilhões em prejuízos, mas só 47% das prefeituras que decretaram emergência conseguiram lançar o valor dos danos no S2iD (Sistema Integrado de Informações sobre Desastres). Em pesquisa anterior, com 2.871 municípios, a entidade apontou que apenas 12% contavam com um órgão específico de proteção e defesa civil.
Como a pesquisa virou tecnologia e formação?
O diagnóstico levou o Grupo NEOeX, a um benchmark com o mercado de defesa e a uma parceria com Bruno Rosa, CTO da Teltex, empresa credenciada como EED (Empresa Estratégica de Defesa). Daí surgiu a proposta de uma plataforma autônoma de superioridade decisória, liderada pela Teltex, com base científica no ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), sob coordenação do Comandante Marcos dos Santos e participação do professor Miguel Lellis, do ITA Fortaleza, e na UFCG (Universidade Federal de Campina Grande). A ferramenta organiza a informação em tempo real e guarda o conhecimento de cada operação para a seguinte.
“A plataforma nasce para que a próxima crise encontre líderes mais preparados, com a informação organizada em tempo real e o conhecimento da última operação disponível para a seguinte”, afirma.
A outra forma de preservar conhecimento é passá-lo a pessoas. Pelo Grupo NEOeX, que tem experiência na segurança de shopping centers, Farina oferece treinamento para capacitar profissionais de segurança privada a assumir cargos de liderança e chefia, com conteúdos de gerenciamento de crise, análise de risco, comunicação e tomada de decisão.
“O que aprendi na Defesa Civil só faz sentido se eu conseguir passar adiante. Formar quem vai estar no comando na próxima crise é a melhor forma de fazer isso”, diz.
O que gestores podem fazer antes da próxima temporada de chuvas?
Algumas medidas independem de tecnologia. Designar, já na mobilização, alguém responsável apenas por registrar decisões e ocorrências. Padronizar os formulários usados em campo. Fazer a revisão pós-operação com quem esteve na linha de frente, enquanto a lembrança está viva. E deixar esse acervo acessível a quem vai atuar na próxima emergência, inclusive equipes de outros estados. Os alertas de outubro lembram que o intervalo entre uma tragédia e outra pode ser curto.
Gestão do conhecimento em desastres: o que as enchentes do RS ensinaram
