O governo Lula afirmou que rejeita qualquer “interferência” e que a soberania é “inegociável” após os Estados Unidos classificarem PCC e CV como organizações terroristas.
“A segurança da nossa população é importante demais para ser manipulada politicamente por traidores que tentam confundir esses conceitos. Por falsos patriotas, envolvidos com o crime organizado, que pedem a autoridades estrangeiras a interferência em assuntos brasileiros.”
Leia a íntegra
O Brasil é uma nação soberana que tem travado combate permanente contra o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV) e as demais facções e milícias que praticam o terrorismo nos territórios em que vivem milhões de famílias. Enfrentar essas organizações criminosas com firmeza é, e continuará sendo, prioridade do Estado brasileiro.
O terror causado por essas organizações em comunidades busca obter lucro através do crime, especialmente pelo tráfico de drogas e armas, e não pode ser confundido com o tipo de ação por motivos ideológicos, políticos e religiosos do terrorismo internacional.
A segurança da nossa população é importante demais para ser manipulada politicamente por traidores que tentam confundir esses conceitos. Por falsos patriotas, envolvidos com o crime organizado, que pedem a autoridades estrangeiras a interferência em assuntos brasileiros.
É deplorável que mais uma vez integrantes da família Bolsonaro viajem aos Estados Unidos para defender intervenção estrangeira no Brasil, como já fizeram no tarifaço, que causou tantos danos ao nosso país.
Aprovamos recentemente uma lei de combate às facções e milícias com penas que chegam a até 80 anos de prisão – a maior prevista em toda a legislação brasileira. O Governo do Brasil conduz o programa “Brasil contra o Crime Organizado”, que combate as facções e milícias desde o seu braço armado nas esquinas até o seu andar de cima.
O crime organizado não respeita fronteiras e seu combate exige ação conjunta. Construímos, ao longo de décadas, parcerias com vários países, inclusive com os Estados Unidos. O Brasil apresentou em 16 de abril deste ano, ao Departamento de Estado dos EUA, uma proposta focada na inteligência e na cooperação internacional que inclui ampliação dos controles sobre a lavagem de dinheiro praticada no exterior e sobre o tráfico de armas enviadas ao Brasil.
Qualquer colaboração internacional para o combate às facções será bem-vinda. Seguimos dispostos a construir soluções conjuntas benéficas aos países envolvidos. Mas não aceitaremos o uso de medidas arbitrárias vindas do estrangeiro como pretexto para atacar a nossa soberania e a nossa economia.
Medidas unilaterais, não negociadas, podem enfraquecer o combate aos criminosos e gerar ações que colocam em risco a vida das pessoas que nada têm a ver com o crime. Podem reduzir a capacidade de compartilhamento de informações entre as polícias. Podem afetar nosso sistema financeiro e inovações nacionais como o PIX, que incomodam interesses estrangeiros.
Em resumo, trata-se de possível retrocesso no combate ao crime, risco à vida das pessoas e prejuízos econômicos ao país.
A soberania nacional é inegociável. O Brasil rejeita qualquer forma de interferência externa em seus assuntos internos. Quem define como o crime é classificado e combatido dentro do Brasil são os brasileiros, com suas instituições, suas leis e suas forças de segurança.”
Como mostrou O GLOBO, o governo havia decidido insistir no tema soberania em resposta.
O caminho é visto como uma forma de se contrapor ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato a presidente, que comemorou a decisão, tomada dois dias depois de sua visita ao presidente americano Donald Trump.
Assim como feito na época da decretação do tarifaço em julho do ano passado, Lula e seus aliados devem frisar que a família Bolsonaro trabalha contra os interesses do país, já que a classificação das facções como grupos terroristas pode prejudicar empresas brasileiras.
A amplitude da medida pode ter impactos no mercado financeiro, pela possibilidade de sanções diante da infiltração do crime organizado em setores formais da economia, e nas relações diplomáticas os dois países, uma vez que os EUA já usaram o combate ao “narcoterrorismo” como justificativa para ações militares fora do seu território.
Depois do encontro de Lula com Trump no dia 8, o governo brasileiro considerava que a possibilidade de classificação do PCC e do CV não estava na perspectiva imediata dos americanos. Por causa do clima amistoso entre os dois presidentes, a expectativa era que um anúncio desse tipo não ocorresse. Assim, o Planalto foi pego de surpresa com a decisão de quinta-feira do Departamento de Estado dos EUA.
Na semana passada, em entrevista ao GLOBO, o ministro Wellington Lima e Silva havia dito que não via possibilidade de a medida ser adotada em um “horizonte próximo”.
O governo ainda calibra o tom da reação oficial à decisão dos Estados Unidos com o temor que uma manifestação muita enfática possa ser lida pela população como “defesa de bandidos”.

