Em 28 de fevereiro, o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou guerra ao Irã. Na semana seguinte, convocou o Homem de Ferro, Walter White (personagem principal da famosa série de TV “Breaking Bad“) e Bob Esponja. Essas e outras figuras de filmes, séries de TV, esportes, música e memes de videogames, apareceram em uma série de vídeos curtos e provocativos publicados pela Casa Branca em plataformas como TikTok e X. As imagens reduzem a carnificina e a turbulência da guerra a uma diversão distópica e irreverente.
- Lesões cerebrais, ferimentos e queimaduras: Ataque iraniano que matou seis soldados no Kuwait foi mais grave do que o divulgado
- ‘Estratégia do Mosaico’: Saiba como funciona a guerra assimétrica do Irã contra EUA e Israel e seus potenciais erros de cálculo
Para o General William Tecumseh Sherman, referência militar que atuou durante a Guerra de Secessão americana, a guerra era o inferno. Mas, como representada pelas redes sociais da Casa Branca de Trump, a guerra é pura diversão.
Num dos vídeos publicados, imagens de explosões são intercaladas com um trecho de Bob Esponja dizendo: “Quer me ver fazer de novo?”. Em outro, tackles de futebol americano — movimento em que um jogador usa o próprio corpo para desarmar o adversário — e detonações em campo de batalha são sincronizados com a música “Thunderstruck” do AC/DC. Pete Hegseth, o secretário de Defesa dos EUA, faz um briefing ao som de “Enter Sandman” do Metallica — cujo uso pelo governo Trump a banda protestou no ano passado — e munições atingem seus alvos ao som de “Here Comes the Boom” de Nelly.
Um clipe do jogo “Grand Theft Auto“, popularmente conhecido em todo o mundo como “GTA”, abre um outro vídeo. Uma cena de guerra do jogo “Call of Duty” inicia mais um. Em outro ainda, munições detonam repetidamente enquanto um lagarto animado — retirado de uma cena pós-créditos de “Elio” — pressiona um ícone de lagarto em uma tela sensível ao toque e uma voz repete “Lagarto”, inaugurando a era da propaganda de guerra que corrompe o cérebro.
A obra-prima do gênero, no entanto, é uma mistura de 42 segundos de citações e memes de filmes, séries e jogos com muita adrenalina e efeitos pirotécnicos de campo de batalha. Cenas de obras como “Coração Valente”, “Better Call Saul”, “Deadpool”, “John Wick” e outras se misturam com impactos de mísseis e torpedos ao som de uma trilha sonora frenética, culminando na declaração de “Vitória impecável!” da franquia de jogos arcade dos anos 90, Mortal Kombat.
O que tudo isso significa? Poderíamos dizer que, assim como grande parte das postagens online que o governo adotou para elogiar suas próprias políticas de imigração, além de outras mais, o objetivo é uma espécie de anti-significado descarado, meio brincadeira, meio verdade, uma aura de domínio sem limites de narrativa, razão ou argumento moral.

Governo Trump promove espetacularização da guerra contra o Irã com memes
Os vídeos falam a linguagem percussiva dos trailers de filmes de ação — pura explosão e nenhuma trama. Eles também foram comparados a “vídeos de hype”, aqueles vídeos de alta octanagem criados para empolgar os fãs de esportes. Sugerem que a retórica do entretenimento, do governo e das postagens provocativas agora são idênticas. Elas ignoram a consciência racional para atingir o tronco cerebral do espectador.
No entanto, há muito o que analisar nesses breves vídeos. Às vezes, eles parecem uma visita ao subconsciente do presidente. Trump há muito tempo privilegia imagens violentas em seus discursos e entretenimento violento em suas telas. Ele criticou as penalidades da NFL, a liga de futebol americano, por colisões frontais, alegando que elas tornaram o jogo “fraco”. Agora, seu governo está exaltando a virilidade de sua ofensiva militar com tackles brutais e repetidos.
- O GLOBO responde: ‘Há risco de o conflito no Oriente Médio se tornar uma Terceira Guerra Mundial?’
Há também um sinal nada sutil nos personagens que a Casa Branca escolheu para os vídeos. Para começar, são quase todos homens, em consonância com o uso de memes nas redes sociais pelo governo para alcançar jovens e com sua retórica de restaurar a masculinidade, especialmente nas forças armadas. Nas palavras de Tony Stark/Homem de Ferro, interpretado por Robert Downey Jr., que abre um dos vídeos, o subtexto é “Papai chegou”.
Mas observe também o tipo de homens que os vídeos recrutam. O Superman de Christopher Reeve, jurando lutar pela “verdade, justiça e o estilo de vida americano”, dá lugar diretamente a Walter White, de “Breaking Bad”, rosnando: “Eu sou o perigo”. Maximus, de “Gladiador”, e o guerreiro sombrio Kylo Ren, de “Star Wars”, dividem o mesmo protagonismo.
O que eles têm em comum? Principalmente, a reputação de serem durões. Fora isso, heróis, anti-heróis e vilões são intercambiáveis aqui. Não existe bem e mal, apenas força e fraqueza, vitória e derrota.
Essa não é necessariamente a filosofia das obras das quais os memes são extraídos. A franquia “Star Wars”, apesar de todos os seus disparos de laser, está repleta de alertas contra a guerra punitiva e a submissão ao ódio. “Gladiador” foi uma denúncia de uma sociedade que transformou o esporte sangrento em teatro. “Vocês não estão se divertindo?”, diz o protagonista em um momento crucial da trama.
Mas os vídeos da Casa Branca sobre o Irã não defendem ideais além da dominação e do poder. Há pouco sentido nessas imagens em relação ao propósito da guerra, além de vencê-la. A mensagem pode ser resumida no refrão da música “Bazooka”, da banda Miami XO, que se tornou um meme e foi usada em um dos vídeos: “Ka-blow/Ka-boom”, onomatopeia usada para “sonorizar” explosões no território iraniano.
- Embarcações atingidas: Irã amplia ataques contra navios no Golfo Pérsico e no Estreito de Ormuz apesar de ameaças de Trump
Esta não é a primeira administração a ser acusada de adotar uma abordagem dessensibilizante em relação às imagens militares. Em 1991, os briefings do Pentágono durante a Operação Tempestade no Deserto, com sua ênfase em imagens sem derramamento de sangue de armamentos de alta tecnologia, foram acusados de inaugurar uma era de “Guerra Nintendo”.
Esta também não é a primeira vez que guerra e cultura pop se misturam. Veja, por exemplo, os curtas pró-guerra dos Looney Tunes produzidos durante a Segunda Guerra Mundial, ou os aviões de guerra decorados com fotos de Rita Hayworth.
- Órgão da ONU: ‘Discurso de ódio racista’ de Trump incentiva violações dos direitos humanos, diz órgão da ONU
Ainda assim, havia limites. As vozes oficiais ao menos faziam alusão à gravidade de pedir aos soldados que matassem e morressem. Um desenho do Pernalonga era um desenho do Pernalonga, não um órgão do mais alto cargo do país. Franklin D. Roosevelt não divulgava cinejornais intercalando imagens de combate com trechos dos “Três Patetas”.
Mas nas redes sociais da Casa Branca, um vídeo sombrio do presidente recebendo os corpos de soldados americanos mortos em combate agora existe em pé de igualdade com referências a Mortal Kombat.
Houve reações negativas por parte de algumas das pessoas usadas involuntariamente nos vídeos, incluindo Ed Reed, ex-jogador de futebol americano do Baltimore Ravens, e o dublador Steve Downes do videogame “Halo”. O diretor Ben Stiller insistiu que a Casa Branca removesse um trecho de seu filme “Tropic Thunder”, escrevendo: “Guerra não é filme”.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2026/4/t/9NInnYScmN9TpOclkCEA/captura-de-tela-2026-03-11-as-18.43.56.png)
Mas os vídeos que viralizam sugerem que guerra é filme, e que filmes são guerra, assim como esportes e jogos — que toda a cultura americana, com suas bolas de fogo, pancadarias e tiroteios, faz parte da estética militarista do governo.
Antes, apenas os críticos mais ferrenhos da cultura pop argumentavam que o entretenimento machista estava preparando o público para a guerra. Agora, essa é simplesmente a posição implícita da Casa Branca. Cada jogo de tiro em primeira pessoa que você jogou, sugerem esses vídeos, cada filme de super-herói que você assistiu, cada lance de ação que você vibrou a vida toda — aquilo foi apenas o ato de abertura. Este é o grande espetáculo.

