Na tarde da terça-feira passada, Gizelle Lucena Tavares, de 31 anos, estava com o marido e o filho, um bebê de apenas 2 meses, no Boteco do Búfalo, na Estrada Rio da Prata, em Bangu, na Zona Oeste. Um homem armado invadiu o estabelecimento, anunciou assalto e foi até um cliente que estava na mesa ao lado de Gizelle. Segundo relatos, ele o agrediu com uma coronhada, a vítima reagiu, e foram feitos disparos. Um deles atingiu Gizelle na cabeça, que permanecia internada em estado grave no Hospital Sangado Filho, no Méier, até a noite de ontem. No fim de semana anterior, dois homens morreram e outros dois ficaram feridos num ataque em bar na Vila Rosário, em Duque de Caxias, no sábado (19). No domingo (20), um policial militar do 16º BPM (Olaria) foi executado a tiros dentro de um bar em Maricá.
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Números da plataforma Fogo Cruzado mostram que de 1º de janeiro deste ano até a última quinta-feira, 52 pessoas foram baleadas em bares da Região Metropolitana. Entre as vítimas, 28 morreram e 24 ficaram feridas. A Baixada Fluminense concentrou 61,5% dos casos. Ao todo, 32 pessoas foram alvos de tiros na região. Destas, 18 morreram e 14 ficaram feridas. Na capital, a maioria das ocorrências se concentra na Zona Oeste, com 13 baleados, sendo seis mortos e sete feridos. A maior parte dos casos tem características de execução e muitos dos atingidos são inocentes.
No comparativo com o período anterior analisado e considerando a mesma quantidade de dias, observa-se que o número de ocorrências do tipo dobrou: de 1º de janeiro a 24 de julho de 2024 foram 26 ataques em bares, que resultaram em 14 mortos e 12 feridos.
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Na Baixada Fluminense, Nova Iguaçu concentra a maioria dos baleados em bares em 2025: 17 no total, sendo nove mortos e oito feridos. Duque de Caxias vem em seguida, com dez baleados em bares, sendo quatro mortos e seis feridos. Na Região Metropolitana, o perigo ronda bares de São Gonçalo: cinco baleados.
Sobreviventes, parentes de vítimas e donos de bares evitam o assunto. E quando decidem falar, pedem anonimato, com medo de represálias. Uma comerciante do Centro de Nova Iguaçu conta que recorreu ao uso de grades:
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— As pessoas temem sair, principalmente de madrugada. Com isso, os bares estão fechando no máximo às 23h.
Outro comerciante que prefere não ser identificado denuncia:
— No bairro Moquetá, quase todos os estabelecimentos passaram por assaltos à mão armada ou os donos sabem de algum comerciante que sofreu com ações de criminosos nos últimos anos. A Rua Dom Adriano Hipólito, que corta o bairro, é rota de fuga para os bandidos motorizados que seguem em direção a Rodovia Presidente Dutra para escapar. Dia desses, mataram um rapaz no quiosque aqui na praça.
Vivi para contar: ‘Escutei um deles falar para outro me mandar ir embora, antes que me desse um tiro’
A maioria dos crimes tem características de emboscada, que é quando o criminoso chega em busca do desafeto e abre fogo, muitas vezes atingindo inocentes. Essa é a avaliação do jornalista Fábio Leon, membro do Fórum Grita Baixada, que atua na região:
— Acontece desde 1960, quando surgiram aqui os primeiros pistoleiros e justiceiros pagos para promover uma higienização à bala de potenciais inimigos. Quem estiver em volta acaba assassinado, porque ninguém pergunta se é inocente — observa o jornalista Fábio Leon, do Fórum Grita Baixada.
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A Associação Brasileira deBarese Restaurantes do Estado do Rio de Janeiro (Abrasel), que representa também o comércio da região, vê com preocupação o aumento da violência embarese outros estabelecimentos. E diz que tem buscado o diálogo com as autoridades públicas, solicitando ações eficazes que garantam a segurança dos proprietários, dos funcionários e dos frequentadores desses locais.
Polícia Civil diz desconhecer metodologia
A Polícia Civil diz desconhecer a metodologia utilizada pelo Fogo Cruzado, bem como a possibilidade de rastreamento dos dados. O órgão afirma que sua atuação operacional se baseia em informações de inteligência e investigação, além de dados oficiais do Instituto de Segurança Pública (ISP), que norteiam ações estratégicas das forças de segurança. E pontua que os assassinatos na região são investigados pela Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF), “que emprega as mais modernas técnicas investigativas para apurar autoria e motivação dos crimes”.