Gestores de Aberdeen a Franklin Templeton mantêm o otimismo em relação ao Brasil. Eles apostam que o país resistirá à reviravolta inesperada no epicentro da guerra comercial do presidente americano Donald Trump. Um motivo: a economia brasileira, relativamente fechada, que depende muito mais da China do que dos Estados Unidos, provavelmente conseguirá suportar as tarifas de 50% mesmo que entrem em vigor, afirmam os gestores.
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Mas, além disso, há a suspeita de que a disputa entre Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva possa seguir um manual conhecido: um breve choque no mercado, seguido por uma recuperação à medida que o presidente dos EUA recua nas ameaças — um padrão por trás do que se tornou amplamente conhecido como o ‘TACO trade’.
“É muito cedo para fazer grandes mudanças”, disse Greg Lesko, gestor na Deltec Asset Management, focado em ações de mercados emergentes e que mantém uma posição overweight em relação ao Brasil. “Mesmo que as tarifas permaneçam altas, não é o fim do mundo.”
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O Brasil emergiu como uma das melhores opções de investimento em mercados emergentes em meio ao ressurgimento da demanda por ativos de países em desenvolvimento, conforme a política do “America First” de Trump e as mudanças políticas levaram investidores globais a reduzir a exposição aos mercados dos EUA.
O dólar despencou em relação à maioria das moedas emergentes no primeiro semestre, o que ajudou a impulsionar os ganhos de dois dígitos na dívida local de emergentes.
Embora o risco de uma escalada da guerra comercial dos EUA e as eleições brasileiras no próximo ano levem os operadores a adotar uma abordagem cautelosa, os mercados já mostram alguns sinais de estabilização. O real, que recuou quase 3% na quarta-feira, quando as tarifas foram anunciadas, subiu 0,7% na sessão seguinte e superou a maioria dos pares emergentes. O Ibovespa encerrou a quinta-feira com queda de apenas 0,5%, em recuperação de uma perda duas vezes maior logo após a abertura do mercado.
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“O fato de a economia brasileira não ser muito dependente das exportações a torna mais resiliente a choques tarifários”, disse Chetan Sehgal, gestor de portfólio de ações de mercados emergentes da Franklin Templeton, que tem o Brasil entre suas principais apostas. Ele não fará mudanças por enquanto.
“Normalmente, não operamos com base em um cenário de curtíssimo prazo e preferimos que as coisas se estabilizem antes de tomarmos decisões”, acrescentou ele.
Embora os EUA sejam o segundo maior parceiro comercial do Brasil, as exportações para a maior economia do mundo representam apenas 2% do PIB. Commodities como petróleo bruto, ferro, café e carne bovina representam a maior parte das vendas.
E o país planeja intensificar os esforços para abrir novos mercados no Oriente Médio, no Sul da Ásia e no Sul Global, disse o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, em um comunicado à imprensa na quinta-feira.
Lula adotou um tom semelhante em duas entrevistas à mídia local na quinta-feira. O presidente afirmou que o Brasil pode sobreviver sem comércio com os EUA e buscará outros parceiros para substituir o país. O Brasil, segundo ele, tentará esgotar as negociações antes de 1º de agosto, quando as tarifas entrarão em vigor. Mas seu governo não vai recuar nem deixar de retaliar.
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“Essa é uma questão administrável. A China é cerca de 2,5 vezes mais importante do que os EUA, com muitas das exportações do Brasil para os EUA sendo substituíveis”, disse Edwin Gutierrez, chefe de dívida soberana de mercados emergentes da Aberdeen. “Estávamos mais inclinados a aumentar as posições em juros do que câmbio, já que não há impacto direto das tarifas sobre os juros brasileiros”, explicou ele.
O UBS Wealth e o Bradesco BBI estão entre os que reiteram visões otimistas sobre as ações brasileiras, e dizem que as tarifas de 50% provavelmente não prevalecerão.
O ataque de Trump também pode acabar proporcionando um impulso muito necessário para Lula, que enfrenta uma economia em desaceleração e baixa popularidade antes das eleições de 2026, nas quais pretende concorrer a um quarto mandato.
“Ele agora consegue explorar o sentimento patriótico dos brasileiros e assumir o papel de defensor da soberania, o que pode ser vantajoso no período de aquecimento para a campanha presidencial”, disse Thierry Larose, gestor da Vontobel, sobre Lula.
A turbulência em torno das tarifas provavelmente irá além do Brasil. Moedas e ações de mercados emergentes caíram na sexta-feira e caminhavam para perdas semanais após Trump sinalizar que está considerando tarifas amplas de 15% a 20% sobre a maioria dos parceiros comerciais dos EUA, além de ameaçar o Canadá com uma taxa de 35%.
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No caso do Brasil, o Banco Central provavelmente terá mais espaço para cortar os juros se a economia do país enfraquecer devido ao impacto tarifário, o que tornaria os juros locais uma oportunidade potencialmente atrativa, de acordo com Matthew Graves, gestor na PPM America, com exposição à dívida corporativa brasileira.
Os próximos dias “devem ser turbulentos” para os investidores estrangeiros no Brasil, disse Larose. “Como investidores de longo prazo, acreditamos que o pragmatismo acabará prevalecendo, e qualquer correção substancial pode representar uma oportunidade de acumular ativos brasileiros.”