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Grandes tacadas financeiras, tragédias na família, superstições e relações com o poder: livro traz episódios inéditos da família Safra

Com uma fortuna calculada em R$ 130,6 bilhões, a família Safra é a segunda mais rica do país, segundo o ranking da revista Forbes dos bilionários brasileiros. O patrimônio tem origem na cidade de Alepo, no Oriente Médio, onde as atividades dos Safra começaram, com o financiamento de caravanas de comércio e com a venda […]

Grandes tacadas financeiras, tragédias na família, superstições e relações com o poder: livro traz episódios inéditos da família Safra


Com uma fortuna calculada em R$ 130,6 bilhões, a família Safra é a segunda mais rica do país, segundo o ranking da revista Forbes dos bilionários brasileiros. O patrimônio tem origem na cidade de Alepo, no Oriente Médio, onde as atividades dos Safra começaram, com o financiamento de caravanas de comércio e com a venda de moedas de ouro e prata.
Essa riqueza foi sendo multiplicada em escala global até os dias de hoje, numa história marcada por sucessos, como a habilidade da família para custodiar grandes fortunas e fazer tacadas financeiras certeiras, mas também por episódios que marcaram o clã de forma trágica, como a morte de Edmond Safra num incêndio em seu apartamento em Mônaco, além da ruidosa briga entre os irmãos Joseph e Moise pela divisão dos negócios.
Apesar da extrema discrição e a aversão aos holofotes, essas e outras histórias são relatadas com detalhamento no livro “Os Safra: Uma história” (Companhia das Letras, 456 páginas), de autoria do jornalista, escritor e psicanalista Robson Viturino, que chega às livrarias e à internet no próximo dia 22 de setembro.
Fruto de nove anos de pesquisa e mais de 150 entrevistas, a obra reconstrói a trajetória dessa dinastia financeira desde as origens mercantis na Síria do século XIX até as recentes disputas pela herança, com detalhes inéditos e análises profundas sobre diversos episódios da vida desse clã. A motivação para mergulhar nessa história surgiu em 2010, durante uma viagem de Viturino a Israel para produzir uma reportagem sobre a economia local.
— Ao caminhar pela parte antiga de Jerusalém, deparei com a Praça Safra, local de grande relevância onde se situa a prefeitura da cidade. Ao confirmar que o nome do local fazia referência à mesma família do banco sediado na Avenida Paulista, em São Paulo, tive a dimensão da envergadura internacional dessa família — contou Viturino em entrevista ao GLOBO, que afirma que a investigação revelou também a forma como grandes banqueiros dialogam com o poder.
Robson Viturino é autor do livro que conta histórias da Família Safra
Renato Parada
O autor explicou que não teve ajuda ou acesso a documentos por parte da família, e que os membros do chamado “núcleo duro” do clã optaram por não dar entrevistas. Mas ele conversou com outros parentes e conduziu a apuração “pelas bordas”, como se diz no jargão jornalístico, buscando informações com pessoas que conviveram ou negociaram com os Safra — incluindo ex-executivos do banco, ex-presidentes da República, ministros, rabinos, advogados e funcionários.
Além dos depoimentos, a pesquisa foi fundamentada em registros históricos, arquivos de jornais, documentos (como relatórios da CIA) e livros raros preservados pela própria comunidade sefardita, à qual os Safra pertencem.
A narrativa começa com o impacto provocado pela morte de Edmond Safra na família, em dezembro de 1999, episódio que também virou série no streaming.
— Esse acontecimento funcionou como um divisor de águas, que reconfigurou a estrutura, a imagem pública e as relações internas do clã — explica Viturino, lembrando que Edmond era considerado o pilar, o mentor e o líder da dinastia, exercendo o papel de principal referência e autoridade nos negócios globais da família.
No dia 3 de dezembro de 1999, Edmond e sua enfermeira Vivian Torrente morreram asfixiados pela fumaça tóxica no banheiro blindado (uma espécie de quarto do pânico) de sua cobertura no edifício Belle Époque, em Monte Carlo. O incêndio foi provocado por seu enfermeiro americano, Ted Maher. Ele acendeu uma vela num cesto de lixo, provocou cortes superficiais em si mesmo com um canivete para simular que o apartamento tinha sido invadido por dois homens encapuzados.
Seu objetivo era apagar o fogo, “salvar” o chefe e sair como herói para elevar sua posição na equipe de seguranças.
Mas o desfecho não foi o esperado. O fogo saiu de controle, Edmond, que sofria de Parkinson e tinha episódios de paranoia por conta da medicação, trancou-se no banheiro, acreditando que havia assassinos do lado de fora. A polícia e os bombeiros de Mônaco demoraram para arrombar a estrutura blindada, o que provocou sua intoxicação e a da enfermeira.
Embora Ted Maher tenha confessado e sido condenado pela Justiça a dez anos de prisão, o livro investiga as diversas teorias e hipóteses para a morte do banqueiro, que circularam na época, como uma possível retaliação de mafiosos russos, menções a terroristas árabes, e até especulações sobre a participação da viúva Lily Safra no episódio.
Desde o início, mostra a obra, os Safra se destacaram pela habilidade em realizar operações de arbitragem de moedas — estratégia financeira que consiste em comprar e vender o mesmo ativo simultaneamente em mercados diferentes para lucrar com a diferença de preço, sem correr riscos de mercado.
Jacob Safra, patriarca da família, aproveitava a depreciação da moeda oficial do Império Otomano, em Alepo, para comprá-la a valores baixos pagando com ouro e prata. Depois transportava o dinheiro até Istambul, na Turquia, onde os bancos pagavam o seu valor nominal. Com o declínio do comércio em Alepo, Jacob migrou para o Líbano em 1913 e fundou seu primeiro banco, o Banque Jacob E. Safra, em Beirute.
A instituição funcionava como casa depositária para a comunidade judaica e comerciantes locais. Jacob consolidou o modelo de “banco guardador”, caracterizado pela custódia segura de fortunas, aversão a empréstimos de alto risco e atuação intensa nos mercados globais de câmbio e ouro, características que o banco Safra mantém até hoje.
A família fundou e comprou instituições bancárias na Europa, concentrando suas operações na Suíça, e na década de 60 inaugurou seu primeiro banco nos Estados Unidos, quando Edmond Safra inaugurou o Republic National Bank of New York em um edifício próprio na Quinta Avenida.
O livro traz fatos inéditos das estratégias dos Safra para atrair clientes. Para expandir a base de correntistas do varejo no banco nova-iorquino, Edmond ofereceu uma TV colorida Zenith de 16 polegadas (ou uma máquina de costura Singer) a quem fizesse ou intermediasse um depósito de pelo menos US$ 10 mil dólares. A promoção gerou imensas filas na Quinta Avenida, exigindo que a polícia colocasse barricadas no local.
O Brasil foi destino da família em 1954, que fugia das tensões geopolíticas no Oriente Médio. Jacob Safra trouxe cerca de US$ 2 milhões de dólares consigo, além do prestígio, experiência e conexões internacionais. Instalaram-se no Rio de Janeiro, mas consideraram que São Paulo tinha mais oportunidades para “negócios financeiros”.
Em 1957, Jacob obteve autorização do governo brasileiro para abrir a Safra S.A., financeira que cresceu focando no crédito para a aquisição de automóveis (especialmente os Fuscas), aproveitando o surgimento da indústria automotiva.
O autor conta diversos episódios em que os Safra mostraram suas habilidades para ganhar dinheiro. Por exemplo, quando o real perdeu a paridade frente ao dólar, em 1999, Joseph Safra comprou US$ 340 milhões de dólares em contratos futuros de câmbio. Ao liquidar a operação dias depois, o banco obteve um lucro extraordinário de 1.349% naquele mês.
Viturino lembra que a filantropia e a prática da benemerência constituem uma das marcas mais fortes da história da família Safra, como a ajuda financeira a hospitais ou para as artes plásticas, mas também o socorro financeiro para a compra de passagens aéreas de judeus que queriam fugir a Síria.
A obra também aborda uma série de superstições atribuídas à família, como o fato de o prédio do banco na Avenida Paulista não ter o 13º andar ou o pavor de “mau-olhado” de Edmond, que sempre carregava no bolso um “olho turco”.
Os capítulos de discórdia recheiam a saga dos Safra e são contados em detalhes no livro. O primeiro deles, aconteceu quando Jacob Safra decidiu preterir o primogênito Elie (que havia perdido dinheiro em apostas no mercado de ouro e pedido a antecipação de sua herança) para passar a sucessão do Banque Jacob E. Safra ao segundo filho, Edmond.
Isso quebrou a tradição sefardita e deixou feridas profundas na família. Depois houve a ruptura de Edmond com os irmãos Joseph e Moise. Edmond vendeu a eles a financeira no Brasil para se distanciar e focar seus negócios na Suíça e nos EUA.
Outro ponto de tensão foi o casamento de Edmond com Lily Monteverde (depois Safra) em 1976, desaprovado por Joseph por ser uma união fora do círculo sefardita tradicional. E a venda por Edmond dos bancos nos Estados Unidos e na Suíça ao HSBC em 1999, por quase US$ 10 bilhões, sem um plano de sucessão para os irmãos no Brasil foi outro caso de atrito.
Joseph e Moise também se desentenderam sobre a transição dos negócios para seus filhos, a terceira geração.
Em 2004, José fundou o concorrente Banco J. Safra em frente à sede do Banco Safra na Avenida Paulista para drenar clientes e pressionar o irmão, que acabou vendendo sua fatia de 50% no grupo financeiro para Joseph.
A rivalidade entre os herdeiros de Joseph e Vicky Safra também ganhou os holofotes, quando um dos filhos, Alberto Safra, descobriu que sua participação nas holdings internacionais do grupo foi reduzida de 28% para 14%.
Segundo o autor Robson Viturino, a relação da família Safra com o poder e com governos no Brasil e no mundo é marcada por pragmatismo, extrema discrição e um trânsito direto nos bastidores da política. Para o autor, os Safra aprenderam que a sobrevivência e a proteção de seus ativos dependiam da capacidade de manter boa convivência com quem estivesse no poder, seja um governo militar ou democrata.
— Joseph mantinha amizade próxima com Fernando Henrique Cardoso, com quem conversava e dava conselhos sobre economia, crises internacionais e diplomacia — conta Viturino.
E, antes mesmo da posse Lula da Silva em 2003, em seu primeiro mandato, quando o mercado financeiro temia a ascensão da esquerda, os executivos do Safra deram declarações públicas acalmando os investidores de que o novo governo não devia ser temido.
— Ao contrário de outros grandes banqueiros que buscavam exposição ou palanques públicos, os Safra operaram na lógica da convivência silenciosa com o poder, com capacidade de ser ideologicamente flexível — diz Viturino.

Grandes tacadas financeiras, tragédias na família, superstições e relações com o poder: livro traz episódios inéditos da família Safra

Autor

BRCOM