A forte identidade da região Sul é exemplificada pelos torcedores dos rivais Grêmio e internacional. Enquanto no restante do Brasil os dois clubes têm pouco engajamento (chegam a ficar fora do top 20 maiores torcidas no Nordeste e Sudeste), dentro de suas fronteiras poucas equipes conseguem furar o amor único ao azul e vermelho (é a segunda região em que menos há torcida mistas). Mas ao se aprofundar nos detalhamentos dos perfis de entrevistados, o tricolor gaúcho leva vantagem sobre o colorado na maior parte das categorias analisadas pela pesquisa de torcidas O GLOBO/Ipsos-Ipec. A única diferença fica na renda, enquanto o Grêmio tem mais torcida que faz parte da classe A/B, o Internacional é mais acompanhado pela classe D/E.
O tricolor gaúcho está na sexta posição geral entre os times com mais torcidas no Brasil, se descolando do rival, em 11º. Cerca de 2,9% da população brasileira em favor do Grêmio contra 1,6% do Inter.
Na maioria dos perfis esmiuçados pela análise, de gênero a religião, os torcedores colorados não alcançam o rival, a exceção fica para a questão das classes, mostrando uma diferença financeira entre os torcedores.
De acordo com a pesquisa, 5% dos torcedores do Grêmio são da classe A/B, o que o deixa na quinta posição entre todos os clubes do Brasil. Atrás de Flamengo (15,7%), Corinthians (13,3%), São Paulo (7%) e Palmeiras (6,8%). Já o Inter figura na 13º posição entre as classes mais altas, com 2%.
O jogo vira quando se analisa as classes menos favorecidas, D/E. O Internacional passa a frente do rival e fica entre as 13 maiores torcidas (1,1%) seguido pelo Grêmio com 0,9%.
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Para o professor da Universidade Federal da Fronteira do Sul (UFFS), Vinicius Triches, que fez a tese de doutorado em psicologia social estudando comportamentos e elementos históricos de torcidas de futebol, com foco no gre-nal, um possível motivo para essa diferenciação é a imigração na região.
— O Grêmio é resultado da comunidade alemã, em Porto Alegre, em 1903. Essas pessoas eram, basicamente, a elite de Porto Alegre. Já, o Inter, ele é um pouco mais da comunidade italiana, de pessoas que vieram de São Paulo e já na origem eram menos favorecidos. É como se fosse uma representação social, um senso comum que o Grêmio é o clube dos ricos e o Inter é o clube dos pobres — explica Triches.
Apesar da diferença de classes apontada pela pesquisa, há um forte identitarismo que une os torcedores a nível nacional. Enquanto ambos os dois clubes não conseguem formar ao menos 1% de torcida no Sudeste e Nordeste — mostrando que não há uma grande massificação — a nível local, chegam a 62% de colorados e gremistas que não torcem por outra equipe.
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É o segundo maior número, atrás apenas do Sudeste, que monopoliza quase todas as regiões do Brasil com Flamengo e Corinthians sendo os líderes de torcidas, mas ficam razoavelmente abaixo da dupla gre-nal no Sul. São 18,8% e 10,8% de Grêmio e Internacional, respectivamente, contra 6,6% e 4,9% para Corinthians e Flamengo.
— Uma coisa, que é lógica, é a questão do isolamento no Rio Grande do Sul. A região tem pouca influência do centro do país, é pouco integrado ao restante do Brasil. As pessoas não são xenófobas ou algo do tipo, mas sentem que não fazem parte do mesmo local — diz o professor. — A impressão que dá é que a região se vê mais próximo do Uruguai ou Argentina, as regiões fronteiriças. E com o Grêmio e Internacional é uma forma de mostrar a identidade do Rio Grande do Sul.
Outro ponto de destaque são as capitais menos densas que o Sudeste, fazendo com que as equipes se capilarizem entre os municípios com menor população. Saem de 12º e 14º para sexto e nono, respectivamente. Mas na idade há uma quebra nesta lógica. Enquanto os gremistas tem um público que cresce proporcionalmente em relação à idade, os colorados já tem uma queda de torcedores mais novos. Para Triches, este resultado de um público mais novo com menor interesse no Internacional pode estar relacionado às questões esportivas no Sul.
— Dentro de campo, o Grêmio ganhou a Libertadores em 2017. Já o inter não consegue vencer um título de expressão fora do Sul desde 2011, na Recopa contra o Independiente-ARG. A região vive muito desgostosa do futebol gaúcho. Embora se consuma muito conteúdo, isso realmente desanima o torcedor — diz o professor.