A história da economia brasileira seria outra se não fosse o enorme aumento do comércio com a China neste século. O gigante asiático ajudou a transformar o agronegócio brasileiro, deu uma mão para o Brasil se tornar um grande exportador de petróleo e catapultou a indústria extrativa de minérios. O Brasil virou grande exportador de commodities para seu maior parceiro (basicamente soja, petróleo e minério de ferro), e esse panorama deve se manter no próximo período.
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Analistas apontam riscos e oportunidades que exigem mais atenção, especialmente pelas incertezas trazidas com o acirramento da guerra comercial iniciada pelo governo Trump. Para começar, mais produtos chineses chegarão ao mercado brasileiro.
Relatório da Organização Mundial do Comércio (OMC) de abril aponta que a batalha tarifária levará a China a diversificar o destino de suas exportações, e a América do Sul deve ser a segunda região visada (expansão de 9% no volume de vendas). O Brasil deve abocanhar a principal fatia desse crescimento na região.
— É quase impossível não acreditar que vai ser gerado um excesso de oferta no mercado mundial, o que não significa necessariamente uma má notícia — diz Lucas Ferraz, coordenador do Centro de Estudos de Negócios Globais da FGV.
Para ele, isso pode beneficiar o Brasil com insumos mais baratos, o que tem potencial de aumentar a competitividade da indústria.
Logicamente, o risco de uma “tsunami” de produtos chineses baratos preocupa, mas o governo tem instrumentos para impedir medidas anticoncorrenciais, antiga preocupação de diversos setores nacionais. O valor das exportações pode ser impactado negativamente, já que o preço das commodities no mercado internacional está em queda. O barril de petróleo Brent, referência global, atingiu no dia 7 de abril o menor valor desde 2021 (US$ 63,30 o barril). O governo não dá sinais de preocupação com esses dados e até agora descarta medidas imediatas. O risco, para o economista da FGV, é haver excessos na contenção às importações.
As ferramentas precisam ser usadas com parcimônia, defende Ferraz:
— O Brasil é o terceiro país que mais impõe medidas antidumping no mundo, mas é apenas o 27º maior importador. É importante se proteger de práticas desleais, mas essa discussão já está acontecendo antes mesmo de a gente sentir os efeitos.
Do ponto de vista da demanda chinesa, a perspectiva é positiva para o Brasil. O crescimento da China no primeiro trimestre foi acima do esperado, lembra Lia Valls, pesquisadora associada do FGV IBRE e professora da Uerj — alta de 5,4% do PIB. Isso, segundo ela, pode reverter uma queda nas exportações brasileiras para a China em 2024.
Tatiana Prazeres, secretária de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), afirma que a diminuição no ano passado foi causada por fatores conjunturais, como a queda de preço de commodities e menor oferta de grãos.
— O índice de preço das exportações para a China apresentou recuo de 7,7%, houve diminuição de 17% no preço da soja, de 5% em petróleo e de 4,5% no minério de ferro, na comparação interanual. Já o volume embarcado apresentou recuo de 1,6%. A quebra da safra de soja e milho, em 2024, explica essa redução. A produção de soja apresentou recuo de 5,1% e a de milho, de 12,3%. Com isso, os embarques de soja ao país reduziram 2,6% e os de milho, em 86% — detalha.
Para Valls, as perspectivas são de aumento das exportações. Nas palavas da pesquisadora, “talvez nada tão espetacular como antes, mas um crescimento positivo”. O pior cenário, para a economista, é uma repetição do acordo assinado por EUA e China no primeiro mandato de Trump, em que Pequim se comprometia a comprar mais de US$ 200 bilhões em mercadorias e serviços dos americanos, incluindo carne e soja. Com a pandemia de Covid-19, esse pacto não prosperou.
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Um salto pode vir da soja, diz Valls. Com ela concorda o economista Roberto Dumas Damas, do Insper.
— Se a China repetir o que fez no primeiro governo Trump, pode comprar mais agronegócio do Brasil — diz.
Para ele, haverá aumento provável da pauta comercial:
— Se isso vai ser favorável, depende de cada segmento. Trata-se de jogo de xadrez.
Pode ser que os EUA ofereçam mais grãos à China para amenizar a guerra comercial, ele adverte, como também faz Valls. Já as importações devem seguir em alta.
— A perspectiva é de crescimento, especialmente se for mantido o ritmo recente de atividade econômica no Brasil, pois o desempenho das importações está diretamente relacionado ao dinamismo da economia, com destaque para os investimentos produtivos e o consumo de bens duráveis — argumenta Tatiana Prazeres.
A secretária de Comércio Exterior do MDIC lembra que, em 2024, a pauta de importações foi fortemente voltada para insumos e bens de capital, considerados essenciais para aumentar a produtividade:
— Apenas ‘máquinas, aparelhos e materiais elétricos’ responderam por 26,1% do total, seguidas de perto por ‘caldeiras, máquinas e instrumentos mecânicos’, com 17,2%.
Por outro lado, a China já se consolidou como o maior parceiro comercial do Brasil, posto que ocupa desde 2009. No ano passado, o país representou 28% das nossas exportações (os EUA, em segundo lugar, absorveram 12%, e a Argentina, na terceira posição, 4%) e foi responsável por 24,3% das nossas importações (seguido por EUA, 15,5%, e Alemanha, 5,25%). Essa proporção deve continuar.
— A China é o maior importador mundial, respondendo por cerca de 12% de todas as importações globais. Trata-se de mercado dinâmico, com grande capacidade de absorção e cadeias produtivas altamente integradas. A perspectiva para os próximos anos é positiva — defende a secretária de Comércio Exterior.

