Poucos meses antes da morte, que aconteceu no domingo (16), Hayden Panettiere estava em turnê de divulgação de suas novas memórias, nas quais escreveu sobre os traumas que enfrentou na vida, incluindo os esforços para se libertar de um namorado tóxico e abusivo. Panettiere se descreveu como finalmente livre dele: “Abusadores se entrelaçam como ervas daninhas na sua vida”, disse ela em um podcast em maio. Esse namorado, Brian Hickerson, fez sua própria aparição na mídia no dia seguinte para expressar seu arrependimento pelo abuso.
Muito pouco se sabe publicamente sobre as circunstâncias da morte de Panettiere, que, segundo uma pessoa com conhecimento dos fatos, foi causada por uma aparente overdose de drogas que levou a uma parada cardíaca. O que está claro é que uma das últimas pessoas a vê-la com vida foi Hickerson, com quem ela havia reatado contato.
Um relatório, divulgado na terça-feira pela polícia de Greenville, na Carolina do Sul, onde Panettiere morreu, disse que foram Hickerson e seu irmão, Zach Hickerson, que ligaram para o serviço de emergência. Quando os paramédicos não conseguiram reanimá-la, Brian Hickerson ficou emocionado, segundo a polícia.
Em um condomínio de apartamentos em Greenville, Hickerson, de 37 anos, conversou com a polícia sobre Panettiere, de 36, e entregou aos policiais uma sacola contendo os medicamentos dela, embora muitos detalhes estejam ocultados no relatório. Ela havia falado abertamente sobre sua luta contra a dependência de medicamentos controlados, que começou quando, ainda adolescente e atriz, um ex-representante lhe deu o que ela pensou ser uma anfetamina. Hickerson não foi acusado de estar envolvido na morte de Panettiere.
O Departamento de Polícia de Greenville afirmou que uma investigação preliminar não produziu evidências de “crime ou circunstâncias suspeitas”, e o Instituto Médico Legal do Condado de Greenville declarou que “não foram encontrados sinais de trauma que tivessem contribuído para a morte”.
Hickerson, seu irmão e outros familiares, além de um advogado que já o representou, não responderam a pedidos de comentário.
A revelação de que Hickerson estava com Panettiere em suas últimas horas provocou uma reavaliação do relacionamento turbulento entre os dois, do qual Panettiere disse que sua família e amigos vinham tentando afastá-la havia anos.
Uma fonte próxima a ela disse que, em março, Panettiere contratou segurança particular para ajudar a manter Hickerson afastado.
“Essa pessoa na vida dela que vínhamos tentando afastar há um bom tempo estava com ela no momento de sua morte, e essa pessoa era o Brian Hickerson”, disse Lesley Vogel, mãe de Panettiere, à NBC News na terça-feira.
Vogel não respondeu aos pedidos de comentário do The New York Times. Em uma entrevista ao site TMZ em maio, Hickerson chamou Vogel, de quem Panettiere costumava estar afastada, de “uma das piores pessoas que já conheci na vida”.
Documentos judiciais e as memórias de Panettiere, “This Is Me: A Reckoning”, detalham episódios de violência doméstica cometidos por Hickerson. Em um deles, ele foi condenado a 45 dias de prisão após se declarar sem contestação a duas acusações de crime grave por ferir Panettiere.
Apesar dos esforços recentes para se afastar dele, também houve momentos, ao longo do relacionamento, em que Panettiere voltou para Hickerson, isolando-se de amigos e familiares preocupados.
“O que eu nunca contei a eles foi que o abuso que eu sofria não parecia tão ruim quanto a ideia de ficar sozinha”, escreveu ela em suas memórias.
Na entrevista ao TMZ, realizada por volta da época em que Panettiere lançou suas memórias, Hickerson disse que as histórias contidas no livro eram verdadeiras e que ele havia entrado em um “lugar sombrio”, que incluiu “drogas, álcool, abuso”.
“Coisa terrível que eu fiz com ela”, disse ele.
Ele observou que havia falado com ela no dia anterior sobre o lançamento do livro dela e os descreveu como “bons amigos”.
“Acho que a Hayden é uma das pessoas mais talentosas que já conheci na vida”, disse ele na entrevista, “e eu seria um idiota se não me afastasse dela e a deixasse florescer na carreira”.
Panettiere e Hickerson se conheceram há oito anos, em um bar popular de West Hollywood. O relacionamento “avançou numa velocidade estonteante”, escreveu ela em suas memórias.
Eles dançavam na sala de estar dela, jogavam jogos de tabuleiro e assistiam à Netflix, tudo escondido de câmeras bisbilhoteiras e até mesmo da família dela. “Duas melhores amigas morando juntas sob o mesmo teto”, escreveu.
Mas então Hickerson começou a abusar dela. “Os tapas viraram socos”, escreveu ela. Certa noite, ela relatou, ele “espancou meu rosto tão feio que eu não saí de casa por semanas”.
Em suas memórias, Panettiere relatou uma viagem de Dia dos Namorados a Wyoming em 2020, na qual uma noite de bebida se tornou violenta assim que ela e Hickerson voltaram para a casa alugada. Ela escreveu que as provocações entre os dois ficaram hostis e que ele a empurrou contra uma parede e lhe deu um tapa. Depois que a polícia atendeu a uma chamada sobre um distúrbio, ele foi levado algemado e passou a noite na prisão.
“Eu tinha bebido muito e fiquei violento com ela”, disse ele na entrevista ao TMZ.
Segundo documentos judiciais, Hickerson também foi preso por conexão com um incidente em Los Angeles, em 2 de maio de 2019. Embora o processo não inclua um relato detalhado do que aconteceu, os documentos identificam uma pessoa ou testemunha envolvida no caso como “Hayden P.”. Em suas memórias, Panettiere disse que uma vizinha ligou para o serviço de emergência após uma briga com Hickerson, na qual ele a imobilizou no chão e a socou repetidamente.
Hickerson foi inicialmente acusado de sete crimes graves, incluindo agressão e tentativa de dissuadir uma testemunha, além de agressão como contravenção. Ele acabou aceitando, sem contestar, a condenação por duas acusações de crime grave por ferir Panettiere.
Enquanto Hickerson cumpria sua pena, Panettiere, que também enfrentava luta contra o alcoolismo, estava em uma clínica tentando ficar sóbria. Registros mostram que, após sua soltura, Hickerson violou a liberdade condicional em 2022 e recebeu ordem de não beber álcool nem entrar no Sunset Marquis, um hotel em West Hollywood, na Califórnia.
Em 1º de agosto de 2022, Hickerson foi condenado a vários anos de liberdade condicional formal. Como parte dessa condicional, ele foi obrigado a concluir um programa de tratamento para violência doméstica com duração de um ano, participar de reuniões dos Alcoólicos Anônimos e completar dezenas de sessões de controle da raiva, segundo registros judiciais. Ele já declarou fazer parte de um grupo dos Alcoólicos Anônimos liderado pelo ator Shia LaBeouf.
Os registros também mostram que Hickerson tentou, por duas vezes, convencer um juiz a reduzir suas condenações por crime grave a contravenções.
Na primeira tentativa, em 2025, promotores disseram a um juiz que havia “numerosos incidentes de violência doméstica”, segundo os registros judiciais, e lembraram ao juiz que Hickerson já havia sido acusado anteriormente de tentar dissuadir uma testemunha.
A segunda tentativa ocorreu na semana passada, segundo documentos judiciais. Um juiz negou o pedido.

