Heliópolis, a segunda maior favela de São Paulo, ganhou nesta terça-feira (25) uma sala de concertos. O Teatro Baccarelli, do instituto de mesmo nome, é o primeiro do tipo em uma favela no Brasil.
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Com 530 lugares, o espaço é fruto de uma parceria público-privada. O terreno de 1,3 mil metros quadrados foi doado pela prefeitura de São Paulo, e diversas empresas privadas patrocinaram a construção do equipamento.
Lá, vão se apresentar os alunos que participam dos projetos sociais de Heliópolis, Paraisópolis e outros locais, mas a ideia é também levar outros grupos e artistas para o palco. Nesta quarta-feira (26), por exemplo, a Orquestra Sinfônica Heliópolis se apresenta ao lado de Péricles, Simoninha e Zé Ricardo.
Nesta terça (25), o teatro abriu suas portas pela primeira vez. Na plateia, além de autoridades e patrocinadores, os familiares dos integrantes do Coral Jovem Heliópolis e da Orquestra Sinfônica Heliópolis acompanhavam das primeiras filas, com emoção, a apresentação que incluiu “Você”, de Tim Maia, cantada por Simoninha, e “Depende de Nós”, de Ivan Lins, entoada pelo coral.
— A gente tem que trabalhar muito para que o CEP em que as pessoas nascem não seja o que vai determinar as oportunidades que elas vão ter na vida. Essa sala é para a nossa comunidade, mas a gente espera que as pessoas de outros bairros e de outras condições financeiras e econômicas venham para a favela assistir a um concerto. Lá em 1998, em 2000, eu ouvi de colegas músicos, muito preconceituosamente, que a gente estava querendo fazer a música clássica virar coisa de favela. Só que hoje, com a inauguração dessa sala de concertos, definitivamente a música clássica é coisa de favela — falou Edilson Venturelli, CEO do Instituto Baccarelli ao inaugurar o teatro.
O projeto acústico é assinado pela Acústica & Sônica, a mesma empresa que fez a acústica da Sala São Paulo e do Teatro Cultura Artística. São 11 rebatedores de 300 quilos pendurados no teto, além de armários para regular a pressão sonora de acordo com a necessidade de cada espetáculo.
Até o dia 30, haverá apresentações todas as noites, e depois o teatro fecha e reabre em 25 de janeiro. O plano é ter ingressos gratuitos ou em valores baixos, para que as pessoas da própria comunidade frequentem o espaço, conta João Almeida, diretor de marketing do Instituto Baccarelli.
— Nós entendemos que as 220 mil pessoas que moram em Heliópolis merecem um teatro. A cultura transforma vidas. Heliópolis aparece na mídia pelas crianças usando instrumentos musicais nas costas. A gente fornece 17 mil refeições por mês, são 1.650 alunos e a gente cuida deles individualmente. Sabemos o nome de quase todos e a gente os vê crescer, se transformar em profissionais. A gente transforma vidas com a cultura e o teatro transformará mais vidas — diz.
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A partir de janeiro, o teatro deve ter apresentações quase todos os dias, seja das quatro orquestras ou dos 18 corais (infantis e jovens), ou de outros artistas parceiros da instituição.
— O ingresso será muito barato, porque ele é para dar acesso à favela. Ele não é para as pessoas de “propagandópolis”. Queremos que quem frequente o nosso teatro é quem nunca frequentou teatro. Então a ideia é ter essa interação com o entorno mesmo, trazer o público que já mora aqui para cá — acrescenta João.
A inauguração contou com a presença do governador Tarcísio de Freitas e do prefeito da capital Ricardo Nunes. Alessandro Azevedo, coordenador da secretaria do Ministério da Cultura em São Paulo, representou o governo federal e destacou o papel da Lei Rouanet em projetos como este.
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— O Teatro e o Instituto Bacareli receberam, de repasses da Rouanet entre 2020 e 2025, cerca de R$ 72 milhões em investimento. Dinheiro que faz diferença direto na estrutura dos projetos e na continuidade do trabalho. Isso aqui é um excelente exemplo da Rouanet, que é fundamental para garantir formação artística de qualidade, especialmente para a juventude periférica. Esses investimentos que abrem portas, criam oportunidade e colocam nossas crianças e jovens em espaços que ampliam o seu repertório cultural — falou.
Já Tarcísio prometeu que a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) irá se apresentar no Teatro Baccarelli, e aproveitou a oportunidade para assinar um decreto que prevê a criação de uma Fábrica de Cultura em Heliópolis.
— O que a gente está vendo aqui é o despertar de vários dons, e vocês estão fazendo esses dons florescerem, aflorarem, aparecerem. Aqui surgem músicos de mão cheia que não vão ganhar o Brasil, vão ganhar o mundo. Da favela de Heliópolis para o mundo — disse o governador.
