Um trapezista obsessivo que vive permanentemente em seu aparelho, um homem que ganha a vida fazendo apresentações do ato de jejuar e uma cantora sem talento ovacionada por uma comunidade de ratos. Esses são os personagens principais dos contos “Primeira dor”, “O artista da fome” e “Josefina, a cantora dos ratos”, de Franz Kafka, trazidos ao palco por Caio Blat e Pedro Henrique Müller na peça “Subversão Kafka”, que estreia sexta (14) no Teatro Prio, no Rio de Janeiro. Escrita por Rogério Blat e dirigida por Caio, a montagem usa o humor para unir as três histórias e refletir sobre os desafios do fazer artístico.
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— Esses contos de Kafka são um autorretrato. Ele era bastante angustiado, inseguro sobre seus textos. E os artistas dos contos têm medo de serem abandonados, têm que se virar para chamar a atenção do público — comenta Caio. — Isso conversa muito com o que a gente está passando hoje, em que o artista tem que ser produtor, estar na internet, ter seguidores para ter patrocínio. Kafka antecipou vários sintomas da modernidade através do retrato desses artistas angustiados.
Dentre as personagens, talvez Josefina seja a que mais soe familiar.
— É extremamente atual, porque é uma artista que você não sabe de direito qual é o talento dela. O que ela tem que encanta tanto as pessoas? Ela não canta, não faz nada, é uma rata totalmente comum. Isso tem muito a ver com o que a gente vive hoje em dia, com essas celebridades, influenciadores — diz Rogério.
Na trama da adaptação, dois artistas de uma companhia de teatro falida se preparam para sua apresentação derradeira, em que receberiam como convidada especial a cantora Josefina, uma rata. Eles nem esperavam público, mas os ratos aparecem em peso para ver a estrela, que demora para subir ao palco. Diante disso, os dois improvisam números para conter a ansiedade da plateia, fazendo homenagens a antigos participantes da companhia: o jejuador que sofre profundamente quando o público se cansa de sua arte e o trapezista que nunca mais desceu do aparelho.
Pedro Henrique Müller e Caio Blat em cena de “Subversão Kafka”
Divulgação/Carol Campos
Para conseguir transportar a atmosfera kafkiana para o palco, Rogério fez um mergulho em toda a obra do tcheco, e também precisou tirá-la do pedestal.
— Entendi que precisava transgredir, subverter, para comunicar com o público. Subvertemos o clima puxando mais pelo humor e pela ironia do que pela densidade — explica o autor, que incluiu o público, que chega a subir ao palco em determinado momento, como personagem ativo do espetáculo.
Caio confirma que a estratégia rendeu frutos:
— A peça é escrachada, brinca com o público o tempo inteiro. As pessoas dizem: “Nunca imaginei que fosse rir tanto com contos terríveis do Kafka”.
A subversão kafkiana vem após uma sequência de adaptações literárias lideradas por ator, que já dirigiu “Os irmãos Karamázov”, de Fiódor Dostoiévski, e “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa. E ele não pretende parar por aí.
— Estou doido para montar um texto do Albert Camus. Esses autores foram muito populares em sua época e hoje se tornaram eruditos, ficam numa prateleira e pouca gente lê. É difícil alguém olhar para “Os irmãos Karmázov”, aquele tijolo de mil páginas, e decidir encarar. Minha vontade é tornar essas peças muito populares, fazer montagens modernas para mostrar o quanto esses textos são populares e universais — finaliza.
Serviço
Onde: Teatro Prio, Jockey Club.
Quando: 14 de agosto a 27 de setembro.
Que horas: Sex e sáb, às 20h. Dom, às 19h.
Quanto: R$ 120.
Classificação: 12 anos.

