Na Holanda, turistas sobem em bicicletas para passear por ciclovias impecáveis, fotografam campos de tulipas e atravessam canais sobre pontes charmosas. No último sábado, 24 holandeses trocaram tudo isso por uma imersão no cotidiano de São Leopoldo, bairro de Belford Roxo, na Baixada Fluminense — com ruas de terra, galinhas soltas, carroças, grafites coloridos — e amaram cada minuto. O passeio, registrado em vídeo e publicado nas redes sociais, gerou uma enxurrada de comentários. “Nem eu, que moro em Belford Roxo, venho para São Leopoldo”, brincou um internauta. Outros criticaram, dizendo que a cena lembrou os “safáris” já famosos em comunidades como Rocinha e Vidigal. Um motociclista que passava resumiu o inusitado: “Turismo em São Leopoldo? Nunca vi isso”.
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Turistas fazem tour pelas ruas do bairro São Leopoldo, em Belford Roxo
O passeio inusitado foi ideia de Otávio Bernardo, educador social nascido e criado no bairro. Durante anos, ele trabalhou com turismo no Morro dos Prazeres e no Morro do Chapadão, no Rio, onde fez amizade com viajantes do mundo todo. Um deles é Sander Verkouter, de 27 anos, holandês que vive há um ano na capital fluminense. Foi Sander quem indicou um grupo de conhecidos — moradores de Amsterdã que estavam de passagem pelo Rio — para conhecer o trabalho de Otávio e, de quebra, explorar um pedaço da Baixada Fluminense que raramente entra nos guias turísticos.
Quando quis apresentar o Projeto de Cria, iniciativa que coordena para afastar jovens do tráfico e das drogas, Otávio viu a chance perfeita de tirar os amigos gringos do circuito Cristo Redentor–Pão de Açúcar e mostrar um lado pouco visto da cidade.
— Tirei eles do óbvio, levei para conhecer a Baixada. Andaram de carroça. No Rio não tem só Cristo e Pão de Açúcar. Tem muito mais que isso. Gostaram tanto que indicaram para os amigos — afirma Otavio.
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Os holandeses, hospedados em Copacabana, na Zona Sul do Rio, foram até São Leopoldo, cerca de 44 km de distância e uma hora e meia de viagem. Em seis táxis e um carro de aplicativo, desceram bem na entrada do bairro e deram de cara com um cenário diferente dos que viram na Zona Sul: chão de terra, construções mais improvisadas, bueiros a céu aberto e muros coloridos e grafitados. O bairro fica a 1km de distância do prédio da Prefeitura de Belford Roxo e é margeado pela Avenida Joaquim da Costa Lima, uma das mais movimentadas da região, que liga o centro da cidade ao bairro Lote XV.
A sede do projeto fica na Rua Tuiuti, a 800 metros da prefeitura, e conta com um campo de futebol. Lá, os estrangeiros jogaram bola e interagiram com as crianças — com Otávio traduzindo as conversas — e chegaram a doar mil reais, quantia que vai bancar um mês de lanche para os pequenos.
O que poderia ter terminado ali virou um tour improvisado. Sem roteiro, Otávio decidiu levá-los para conhecer o seu São Leopoldo: mostrou o lugar onde soltava pipa, o ponto em que uma vez caiu de moto, e áreas mais rurais do bairro, onde as galinhas pretas viraram sensação.
— Eles ficaram doidos quando viram a vista e as construções. Também viram alguns ratos correndo, tiraram foto. Ficaram impressionados com o esgoto aberto, fizeram várias perguntas. Quando viram uma galinha preta, quiseram segurar e tirar foto, falaram que a espécie não era muito comum em Amsterdã. Gostaram muito — lembra Otávio.
O grupo também experimentou o transporte local, andando de carroça, e explorou áreas mais altas do bairro. Para Otávio, a troca cultural rendeu mais que ótimas fotos: abriu caminho para que São Leopoldo, mesmo distante dos guias turísticos, entrasse no mapa afetivo de quem vem de longe. E a reação dos holandeses mostrou que a autenticidade da Baixada Fluminense pode ser tão marcante quanto os cartões-postais mais famosos.
— Nós gostamos muito dessa troca cultural com eles. Conversar com os moradores, conhecer de verdade aquela região. Mais do que a boa vista, nós, holandeses, temos muito interesse nas dinâmicas sociais. Otavio nos mostrou as pinturas nos muros, o jeito que as pessoas vivem, e explicou a guerra do tráfico na região — disse Sander Verkouter, holandês que conheceu o projeto e acabou virando amigo de Otávio.
Agora, o educador já se prepara para receber novos estrangeiros nesta sexta-feira, indicados pelo grupo de sábado — e, desta vez, com roteiro mais aprimorado já que a demanda pede.
O objetivo do Projeto de Cria, segundo o educador social Otávio Bernardo, é continuar proporcionando aulas de futebol e passeios recreativos para as crianças do bairro, além de oferecer aulas de inglês para a criançada.
Segundo ele, a iniciativa conta com o apoio da associação de moradores, que também tenta ajudar outros projetos da região que oferecem atividades como dança e judô, fortalecendo o trabalho social e cultural na comunidade.
— Tem criança aqui que nunca viu a praia ou um jogo no estádio. Quero levar, mostrar que existe outra vida possível. Essas pessoas vêm para conhecer o projeto, às vezes doam. O foco é fazer com que essas coiraças possam ter um destino diferente, respire novos ares e não caia no mundo do crime — afirma.
Na manhã desta terça-feira, a equipe do GLOBO não pode acessar São Leopoldo devido a uma ação policial em curso na região. Conforme o comando do 39º BPM (Belford Roxo), policiais do batalhão realizam uma operação na comunidade que tem como objetivo coibir a movimentação de criminosos na região.
Para os moradores, a cena não é tão incomum, já que a região é palco de disputas territoriais entre facções criminosas, principalmente entre grupos rivais do Comando Vermelho.