Concebido na década de 1930, o Hospital dos Servidores foi por muito tempo um símbolo da saúde no Rio. Chegou a ser considerado o hospital público mais avançado da América Latina por suas inovações técnicas e administrativas. Mas isso faz muito tempo. Hoje, entre outros problemas, até a arquitetura grandiloquente do espaço é considerada ultrapassada. A presença de computadores é raríssima: controles internos ainda são feitos em fichas de papel. E esses estão longe de serem os únicos desafios que a HU Brasil (antiga Ebserh) tem encontrado nos últimos seis meses, desde que assumiu a gestão da unidade com a tarefa de modernizá-la.
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Localizado na Zona Portuária carioca, em dezembro de 2025 o Servidores teve seu patrimônio transferido do Ministério da Saúde à Universidade Federal do Estado (Unirio) e passou a ser gerido pela HU Brasil. Rebatizado como Hospital Universitário dos Servidores do Estado (HUSE), ele está em processo de fusão com o Hospital Universitário Gaffrée e Guinle (HUGG) e já começou a receber toda a estrutura do centenário hospital da Tijuca.
— A gente assumiu e percebeu que não tinha nada de informatização. Todo o almoxarifado, por exemplo, era feito com cartolinas. Você consegue imaginar hoje um hospital, uma empresa desse porte, seja ela pública ou privada, com esse grau de precariedade na gestão? — observa Arthur Chioro, presidente da HU Brasil.
A fusão, porém, não ocorre sem críticas. Profissionais de saúde manifestam preocupação, por exemplo, com os atendimentos na oncologia, com dificuldades no acesso a medicamentos. Já quem anda pelos corredores históricos do hospital não vê grandes obras em andamento. As mudanças, por enquanto, têm mais a ver com a gestão e a incorporação gradual de setores do Gaffrée e Guinle.
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Serviços realocados
Entre os serviços já transferidos estão a pediatria, a oftalmologia e parte da dermatologia ambulatorial. No fim de maio, o Serviço de Cirurgia Plástica e Reconstrutiva da Unirio também migrou para o hospital. A expectativa é que o setor promova mutirões de cirurgias a exemplo do que acontecia no HUGG.
— Hoje realizamos cerca de 180 cirurgias por mês, entre procedimentos de pequena, média e alta complexidade, o que é um volume significativo. À medida que novas salas forem disponibilizadas, vamos organizar mutirões de acordo com demandas existentes na regulação. Podemos trabalhar com câncer de mama, oncologia cutânea e outras áreas onde exista uma fila maior — diz o cirurgião Ricardo Cavalcanti Ribeiro, chefe do setor na universidade.
Na esteira da fusão, a HU Brasil afirma que foram investidos R$ 16,2 milhões nos últimos cinco meses. Não à toa, do total, R$ 2,9 milhões foram destinados à compra de 466 unidades de Tecnologia da Informação, que incluem, entre outros itens, 262 computadores. A maior parte dos recursos (R$ 6,5 milhões) foi empregada na compra de 141 equipamentos médico-hospitalares.
A HU Brasil diz ainda que foram comprados um tomógrafo de R$ 2,2 milhões, adquirido pelo Ministério da Saúde; 225 aparelhos de ar-condicionado, por cerca de R$ 1,3 milhão; e 4.266 unidades de peças de mobiliário para setores administrativos e assistenciais, por aproximadamente R$ 3,3 milhões. Em paralelo, estão em processo de contratação aparelhos como de ressonância, que a unidade não tem, angiógrafo, mamógrafo e gama câmara (equipamento de medicina nuclear), entre outros. Quando concluídas, essas compras representarão mais R$ 30 milhões.
Promessa: Mais leitos
Com relação ao número de leitos, o Servidores funcionava com 269 até o fim do ano passado. Em abril deste ano, eram 311, com a transferência de 42 do Gaffrée e Guinle. A previsão é de que essa quantidade aumente para 394 até o fim deste mês. Pelo planejamento, o HUSE chegará a 455 no início do ano que vem e a 472 leitos no fim de 2027, quando o processo de fusão será concluído.
— O projeto é, de fato, transformar o HUSE em um dos grandes hospitais universitários do país. Não apenas ganharemos leitos. Vamos ganhar um novo hospital. Sempre ouvi, desde a época em que estudei no Rio, que esse hospital era uma potência. Agora é a hora de colocar isso em prática — prevê Chioro.
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Além da modernização estrutural, a nova gestão afirma que a ampliação do quadro de pessoal é um dos pilares da fusão. Segundo Chioro, quando a HU Brasil assumiu o hospital, havia 1.503 trabalhadores vinculados ao Ministério da Saúde atuando na unidade. Desses, 535 optaram pela transferência para outras unidades do ministério. Em contrapartida, foram contratados, via HU Brasil, 986 novos profissionais das áreas médica e administrativa.
Quem também já se mudou para o Servidores foram os residentes que estavam no HUGG. Na visita à pediatria, em meados de maio, um grupo deles chegou a interpelar Chioro para se queixar da mudança. Os formandos em medicina dizem que a estrutura que encontraram é boa, mas reclamaram da adaptação à nova casa.
— O nosso grupo, que vai embora daqui a algumas semanas, não está com a mesma autonomia e responsabilidade que tinha no serviço anterior (no HUGG) — disse uma das formandas.
O presidente da HU Brasil ouviu os futuros médicos, pediu compreensão e classificou as queixas como inerentes ao momento de transição. Segundo reconhece Chioro, as resistências ao processo de fusão, neste momento inicial, não se limitam aos residentes recém-chegados.
— Sim, existem resistências culturais e corporativas, sem dúvida. É preciso repactuar tudo e recolocar o interesse público no centro — diz Chioro.
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Há ainda a preocupação com o que será feito do HUGG quando a fusão estiver completa.
— Defendemos que o Servidores seja plenamente incorporado (à Unirio), mas que o Hospital Gaffrée e Guinle não seja deixado de lado. Trata-se de um hospital centenário, que presta um serviço fundamental à população. O ideal seria manter os dois hospitais funcionando — diz Rossano Fiorelli, chefe do Departamento de Cirurgia e coordenador da pós-graduação em Medicina da Unirio.
Em nota, a Unirio informa que pretende manter no HUGG uma unidade de assistência à saúde e que trata do assunto com os ministérios da Saúde e da Educação. A ideia é que o hospital tenha atendimento ambulatorial especializado e realize exames no nível de atenção secundária à saúde. Há tratativas ainda com a Secretaria municipal de Saúde do Rio para que seja oferecido atendimento à saúde primária e sejam implantados uma clínica da família e um centro de atenção psicossocial.
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