A revolução da inteligência artificial está remodelando a sociedade em velocidade vertiginosa, produzindo mudanças epistêmicas profundas. Isso significa que a produção do conhecimento vem se transformando e implicando novas práticas sociais. Enquanto muito se discute sobre como a IA pode automatizar tarefas cotidianas — desde a criação de textos até a organização de agendas —, precisamos elevar nossa visão para um patamar mais ambicioso e transformador, especialmente quando falamos de educação.
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A IA precisa ser concebida como aliada estratégica poderosa. As inovações tecnológicas criaram uma oportunidade histórica para transformações ambiciosas em nosso sistema educacional. Ela pode ser o catalisador de que precisamos para alcançar o objetivo da qualidade educacional — desde que a concebamos não como mero instrumento de automação, mas como plataforma de amplificação de experiências de aprendizagem, servindo como instrumento supervisionado e disponível para professores ousarem mudar as práticas de ensino.
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Visualize ambientes de aprendizagem onde a experimentação seja constante, a análise e o aconselhamento sejam imediatos e personalizados, e as interações entre educadores e estudantes sejam enriquecidas por insights baseados em dados. Professores podem criar experiências imersivas, simulando cenários complexos e construindo materiais didáticos de forma colaborativa e interativa. Estudantes podem explorar conceitos abstratos por meio de visualizações dinâmicas, receber orientação personalizada em tempo real e desenvolver projetos que conectem teoria e prática de maneiras antes inimagináveis. Tudo isso não para substituir a insubstituível presença humana do educador, mas para amplificar seu impacto e alcance.
O momento atual representa uma oportunidade singular para governos e líderes educacionais revisitarem suas práticas, instrumentalizarem os processos de ensino com mais recursos e apoiarem educadores dentro de um marco de uso responsável e confiável da tecnologia. A qualidade da educação deve ser o horizonte que orienta o desenvolvimento tecnológico e as inovações emergentes — não a automação pela automação, mas a transformação profunda das práticas de ensino e aprendizagem.
Naturalmente, esse caminho não está isento de riscos. Sistemas de IA mal concebidos, treinados com dados enviesados ou implementados sem arcabouço teórico robusto podem perpetuar desigualdades e injustiças algorítmicas, afetando especialmente populações vulneráveis. Por isso precisamos construir salvaguardas sólidas para o uso dessa tecnologia com crianças e adolescentes, assim como mecanismos de governança que apoiem o desenvolvimento seguro da tecnologia.
Isso significa assegurar dados de qualidade para o treinamento de sistemas de IA educacional; capacitar professores para uso e supervisão eficaz da tecnologia; e criar mecanismos institucionais para uma governança que permita compartilhamento seguro e confiável de dados entre redes de ensino. Significa também desenvolver ambientes seguros para experimentação, adotando uma perspectiva de inovação aberta que envolva comunidades escolares na identificação de problemas, na experimentação e na validação de soluções aplicáveis em diferentes contextos escolares.
Esses requisitos confluem para uma política nacional de dados e IA na educação que proporcione fundamentos para que a tecnologia se torne instrumento de amplificação da qualidade educacional. O desafio que se apresenta aos líderes e formuladores de políticas públicas é claro: construir um pacto nacional em que a tecnologia seja instrumento de inovação com propósito, voltada para a amplificação da qualidade educacional em todas as regiões do país.
*Fernando Filgueiras é diretor de informações estratégicas e inovação da Secretaria de Gestão da Informação, Inovação e Avaliação de Políticas Educacionais e professor da Universidade Federal de Goiás e da Escola Nacional de Administração Pública

