O Rio nunca mais vai se esquecer da imagem de dezenas de corpos enfileirados na Vila Cruzeiro, um dia depois da operação policial que deixou mais de 120 mortos nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte, nesta terça-feira. É mais uma cena dura que marcará a história recente de violência na capital fluminense. Nas últimas décadas, diferentes imagens se tornaram símbolos de episódios que fazem parte dessa trajetória, como a chacina de Vigário Geral, em 1993, e o sequestro do ônibus 174, no Jardim Botânico, em 2001. Neste post, reunimos alguns desses registros.
Na madrugada de 23 de junho de 1993, sete jovens em situação de rua foram executados a tiros por um grupo de policiais nas imediações da Igreja da Candelária, no Centro do Rio. A imagem capturada pelo fotógrafo Antonio Nery mostra três vítimas na calçada perto da igreja, horas após o ataque. Dias depois, o Jornal O GLOBO publicou uma entrevista com Vagner dos Santos, sobrevivente da matança, que ainda estava com uma bala alojada na nuca quando desabafou: “Acho que nem vivendo cem anos vou conseguir esquecer o que houve naquela noite”. O horror daquele capítulo na história carioca foi lembrado recentemente pela série “Os quatro da Candelária”, na plataforma de streaming Netflix.
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A fotógrafa Marcia Foletto chegou à favela de Vigário Geral na manhã seguinte à chacina que marcou a história do Rio, em agosto de 1993, quando policiais encapuzados assassinaram 21 pessoas dentro da comunidade. A matança foi uma retaliação à morte de quatro PMs executados por traficantes locais. Ao chegar em Vigário Geral, a jornalista viu quando os moradores começaram a colocar os corpos das vítimas na entrada da favela, dentro de caixões. Foletto, então, subiu no muro da estação de trem em frente à comunidade e fotografou a cena de cima. A imagem, publicada na primeira página do Jornal O GLOBO, percorreu o mundo e ficou tatuada na memória do Rio.
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No dia 12 de junho de 2000, o bandido Sandro Barbosa sequestrou um ônibus da linha 174, na Rua Jardim Botânico. Durante horas, na frente das câmeras de TV , ele ameaçou os passageiros com um revólver. A foto acima foi registrada por Gabriel de Paiva quando o bandido pressionou a professora Geisa Firmo Gonçalves contra uma janela. Por volta das 18h50, Sandro usou a mesma refém como escudo para sair do ônibus. Um policial, então, disparou contra o sequestrador, mas o tiro acertou Geisa de raspão, no queixo. O criminoso revidou com três disparos nas costas da professora, que morreu no local. O sequestro foi morto pelos PMs em seguida, asfixiado dentro do camburão.
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Na madrugada do dia 17 de outubro de 2009, bandidos do Comando Vermelho invadiram o Morro dos Macacos para tomar o controle do tráfico local da facção Amigos dos Amigos. Houve intensa troca de tiros entre os grupos rivais, e policiais foram acionados para conter a violência e combater os bandos de traficantes. Muitos agentes ficaram encurralados, e um helicóptero Esquilo AS 350 foi usado para apoiar no resgate. Quando a aeronave estava na terceira viagem, foi atingido por tiros de bandidos. O piloto ainda conseguiu impedir a queda no meio da comunidade, levando o helicóptero até o campo de futebol do Sampaio, onde ele fez um pouso forçado. Três policiais morreram.
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Em novembro de 2010, uma operação mobilizou a entrada de 350 policiais no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio, provocando a fuga de dezenas de criminosos da favela. Sob intensa ofensiva, os criminosos, armados com fuzis, escaparam por uma estrada no alto da comunidade se deslocando a pé, em motos e picapes. A cena, registrada de um helicóptero que sobrevoava a favela. ficou gravada na história da cidade. Pelo menos dois bandidos foram atingidos por atiradores da polícia enquanto tentavam fugir, mas foram resgatados pelos próprios comparsas. Quinze anos depois da “tomada” do Alemão por forças de segurança, o complexo voltou a ser palco de um confronto violento.
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Uma mulher grávida de oito meses estava sentada na calçada em frente a sua casa, na comunidade Terra Nostra, em Costa Barros, na Zona Norte do Rio, quando foi atingida por um tiro, em abril de 2019. A bala atravessou uma perna da mãe, perfurou seu útero e ficou alojada na nuca do bebê. A moradora, que não quis se identificar, foi levada para o Hospital Ronaldo Gazolla, em Acari, onde foi realizada por uma cesárea de emergência. Depois de três dias internado na UTI neonatal, o pequeno Bernardo, nascido com 2,2 kg, foi submetido a uma cirurgia para a remoção do projétil, que por um milagre não provocara danos cerebrais. Mãe e filho se recuperaram bem do episódio de violência.
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No dia seguinte à megaoperação policial contra o Comando Vermelho nos complexos do Alemão e da Penha — que deixou mais de 120 mortos nesta terça-feira —, moradores se mobilizaram para retirar dezenas de corpos da região de mata conhecida como Vacaria, entre os dois conjuntos de favelas. Os mortos posicionados foram p, lado a lado, na chamada Praça do Inter, na Vila Cruzeiro. Entre as 121 pessoas que perderam as vidas durante a operação, nesta terça-feira, quatro eram policiais. Ao todo, 113 suspeitos foram presos, sendo 33 de outros estados. De acordo com o Governo do Rio, 91 fuzis foram apreendidos. Esta foi a operação policial mais letal da história fluminense.

